Foto do blog: Mario Lamoglia

domingo, 28 de dezembro de 2008

Ele

Ele faz das palavras moinho, certeza, caminho. Ele sabe o que diz. Melhor que isso, ele sabe como dizer. E pra quê.
Sem me podar um centímetro das asas, me tem nas mãos - sempre abertas. Junto dele sou como pássaro, que não se cansa de ver a beleza do mundo; que plana horizontes e volta - todos os dias - pro calor do seu ninho, do seu carinho.

Ele faz dos seus braços meu porto. Ele sabe - muito bem - o que faz.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008


Eu estou em branco.

De um branco saciado de matizes multicores.

Sylvia Araujo

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Trilha sonora

(clica no título pra ouvir Caetano)

Chuva, Suor e Cerveja
[Caetano Veloso]

"Não se perca de mim
Não se esqueça de mim
Não desapareça
A chuva tá caindo
E quando a chuva começa
Eu acabo de perder a cabeça
Não saia do meu lado
Se grude em meu pierrot molhado
E vamos embora ladeira
Abaixo, acho que a chuva
Ajuda a gente a se ver
Venha, veja,
beija, deixa, seja
O que Deus quiser
A gente se embala
Se embola
S'imbora
Só para na porta da igreja
A gente se olha
Se beija
E se molha
De chuva, suor e cerveja"
Sabe quando você encontra alguém que não te exige nada, e ainda te oferece um mundo inteiro?
Pois é.

Sylvia Araujo

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Mergulho

Caminham enlaçados pelas ruas sem destino, cantarolando a mesma música, às seis da manhã. Depois de uma noite inteira cheirando à sonho, mastigam pastéis de feira como se fosse rotina dividirem o mesmo tom. É como se o ontem virasse outra história, e as páginas começassem a ser preenchidas a partir do primeiro sorriso de cúmplices que trocaram, assim que o sol nasceu.
Se olham no fundo da alma, como quem identifica - como quem certifica - que não existe outro lugar pra se estar, além de ali, sentindo tudo aquilo.
Sem trocar uma palavra, se atiram. Juntos. De cabeça.

Sylvia Araujo

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Sexta feira, oba!

Ah! A sexta-feira...
Sexta-feira é promessa de bons amigos, cerveja gelada, papo delicioso e muita música. Quando faz sol, é praia na certa. E quando chove, o sol brilha dentro de casa...
Ah! A sexta-feira, que maravilha!
É tempo de ser quem se é. De fazer o que quiser, acordar quando bem entender. É promessa de noites viradas, e até bem dormidas, desde que seja escolhida. Se faz sol, é passeio na areia. E se chove, maratona cinéfila...
Ah! A divina-magnífica-sexta-feira!

Sylvia Araujo

Trilha sonora

(clica no título pra ouvir Frejat)

Amor pra recomeçar
[Frejat/Mauricio Barros/Mauro Sta. Cecília]

"Eu te desejo
Não parar tão cedo
Pois toda idade tem
Prazer e medo...

E com os que erram
Feio e bastante
Que você consiga
Ser tolerante...

Quando você ficar triste
Que seja por um dia
E não o ano inteiro
E que você descubra
Que rir é bom
Mas que rir de tudo
É desespero...

Desejo!
Que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor
Prá recomeçar
Prá recomeçar...

Eu te desejo muitos amigos
Mas que em um
Você possa confiar
E que tenha até
Inimigos
Prá você não deixar
De duvidar...

Eu desejo!
Que você ganhe dinheiro
Pois é preciso
Viver também
E que você diga a ele
Pelo menos uma vez
Quem é mesmo
O dono de quem...

Eu desejo!
Que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor
Prá recomeçar
Prá recomeçar
Prá recomeçar..."

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

"Não sou a areia onde se desenha um par de asas ou grades diante de uma janela. Não sou apenas a pedra que rola nas marés do mundo, em cada praia resnascendo outra. Sou a orelha encostada na concha da vida, sou construção e desmoronamento, servo e senhor, e sou mistério.
A quatro mãos escrevemos este roteiro para o palco do meu tempo: o meu destino e eu. Nem sempre estamos afinados, nem sempre nos levamos a sério."

Lya Luft
"Se tenho que ser um objeto, que seja um objeto que grita”.

Clarice Lispector

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Hábito

Tá doendo.
Tá doendo muito.
Tá doendo tanto, que nem sei se é dor ou se é dormência.
E eu deixo doer.
Deixo doer com algum prazer, até...
Já me disseram que é masoquismo gostar de latejar.
Eu adoro... Extasio...
Virou hábito me deixar chover em dia de tempestade.
(Não gosto tanto do Merthiolate, porque hoje ele já não arde
- Só o que arde, cura.
Só o que queima, cicatriza)
O prazer que sinto na dor talvez não seja por ela em si.
Talvez seja pela certeza de que - por causa dela -
re-vivo mais forte.
Talvez seja pela vontade de desmoronar
- pra me reconstruir depois, em um voltar a ser.
Dia após dia.
Dor após dor - eu sigo.

Tá doendo.
Tá doendo muito.
Tá doendo tanto que dessa vez volto inflamada
- ainda melhor.
Deixo doer com prazer, até...
Até o pranto findar.
Até eu me recompor
- E voltar a brilhar.
Eu volto.
Eu sempre volto.
Virou hábito me deixar raiar em dia de primavera.

Sylvia Araujo

Mundo estrangeiro





"Eu já não sei se sei de nada ou quase nada... Eu só sei de mim, só sei de mim, só sei de mim..."

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Quesefoda!

Por mais que se faça, nunca é suficiente. Por mais que se esfole, por mais que supere, por mais que projete, nunca, nunca, nunca-jamais é suficiente!
Se colocar no lugar do outro e sobretudo respeitar a maneira com que ele enfrenta as situações, há! Imagina, se dar a esse trabalho... O bom é mesmo apontar o dedo em riste, criticar com a boca cheia de insultos e dizer com aquele ar de superioridade: "eu faria diferente". Ah, vai se foder, vai...
Quero ver viver a vida que eu vivo e estar sempre com um sorriso no rosto, se esforçando pra agir da melhor maneira com o mundo.
Quero ver se doar tanto, e encontrar forças, vindas sabe lá de onde, pra ainda dar mais. E mais. E mais.
Quero ver dar todos os passos - dia após dia - com a confiança de que tudo vai dar certo, sabendo que é você e você. E mais ninguém pra segurar a corda, se você escorregar no barranco.
É muito fácil falar. É muito fácil julgar. É muito fácil ofender, agredir, magoar. Difícil é estender a mão, é oferecer ouvidos, é reconhecer. Difícil é dar o melhor de si com o coração aberto, sem esperar nada em troca. É amar, respeitar, desculpar.
Mas eu sempre fui do contra mesmo, e nunca gostei de nada fácil, não... Só fico triste que existam pessoas - muitas, aliás - que não tenham idéia do peso das palavras e dos olhares de reprovação que saem displiscentemente metralhando por aí. Fico triste por elas, pela sua infelicidade. Porque vida que gira em torno do alheio não deve ser lá das melhores...
A sorte é que sei quem sou, o que procuro e o que mereço. E tenho consciência de que faço sempre o melhor que posso. Esse é o meu caminho e por ele vou seguir, até que mude de idéia, ou encontre algum melhor. Mas se mudar o rumo dos meus passos vai ser porque eu quero, e porque acho que será o mais acertado pra mim e pras pessoas que eu amo.
O resto, meu amigo, sem ofensas: quesefoda!

(Pronto. Falei.)

Sylvia Araujo

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Trilha sonora

(clica no título pra ouvir Arnaldo Antunes)

Socorro
[Arnaldo Antunes/Alice Ruiz]

"Socorro, não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar, nem pra rir
Socorro, alguma alma, mesmo que penada
Me empreste suas penas
Já não sinto amor, nem dor, já não sinto nada
Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate, nem apanha
Por favor, uma emoção pequena
Qualquer coisa
Qualquer coisa que se sinta
Em tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva
Socorro, alguma rua que me dê sentido
Em qualquer cruzamento, acostamento, encruzilhada
Socorro, eu já não sinto nada, nada"

Esse sabe das coisas...

"Relacionamento bege é ok. Muitas vezes é necessário em nossas vidas. Digo isso por experiência própria, já aconteceu algumas vezes. Você se dá bem com a pessoa, gostam de muitas coisas em comum, ou pelo menos, dizem que gostam para agradar ao outro. Vão ao cineminha, dificilmente discutem e até a trepada é legal. Trepada não, em relacionamento bege no máximo se transa.
O bege é uma cor legalzinha, meio curinga, Você usa, combina aqui, ali, mas ninguém pensa nele quando quer se destacar numa festa, ficar exuberante. Na verdade, temos que admitir que o bege é na verdade uma cor meio insossa. Você usa e tal, mas dificilmente compraria uma peça exclusiva bege. E não troca por mera conveniência.
Ao mesmo tempo que relacionamentos beges trazem serenidade, paz e segurança, também nos fazem refletir: é isso mesmo? Você sente falta de algo mais. Falo daquela faísca que dá um pequeno choque em nossos corpos. A gente não sente fome, mas também não lambe os beiços.
Entretanto, relacionamentos beges cumprem uma boa função. Muitas vezes ajudam a curar uma ferida ainda não cicatrizada. Nos fazem sentirmos queridos, especiais para uma pessoa, elevam nossa auto-estima e nos levam a concluir que os relacionamentos saudáveis podem e devem ser acima de tudo leves.
Muitos podem pensar que ter a sorte de um amor tranqüilo, leve e saudável pode bastar para nos realizarmos. Eu sou da turma do contra. Acho fundamental ter uma mulher parceira, equilibrada, independente, e que também não me encha o saco. Mas também quero alguém que me dê fissura no meio da tarde, que discorde de mim, que eu tenha medo de perdê-la, que me deixe levemente inseguro e que, sobretudo, me dê certos limites em determinadas circunstâncias. (leia-se, que saiba a hora e o motivo para encher o saco)
Um dos sintomas mais comuns de relacionamentos beges é ausência do medo de perder seu (a) parceiro(a). É geralmente o cara fofo que todo mundo acha legal, interessante, bom partido, aquele que faria qualquer pessoa feliz, menos, justamente você.
Em uma certa altura da vida quando estamos realmente maduros podemos refletir sobre o que é fundamental em um relacionamento para nos sentirmos realizados. Entretanto, a noção de realização não se enquadra na ciência exata. Para uns, o bege satisfaz, combina e não compromete. Prefiro um vermelho bordeaux, mesmo correndo o risco de errar."

Por: Macho de Respeito

Na estante

Eu estou na estante.
E todo mundo que me lê,
Me acha interessante.
Mas eu anseio um só leitor:
Que me folheie,
Que me floreie,
Que me encoraje -
Palavrandante.
Palavraescrita,
Palavralida -
Palavramante!

Sylvia Araujo

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Azeeeeda que só...

Num azedume de dar gosto.

Mantenha distância, para sua segurança.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Trilha sonora

(clica no título pra ouvir Marisa Monte)

Preciso Me Encontrar
[Candeia]

"Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver...

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...

Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Quando eu me encontrar..."

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

The best of the year

Uma vida inteira depois, a máxima do ano:
"- Se você tivesse parado de fumar, estaríamos juntos até hoje."

Não preciso nem dizer que estou gargalhando até agora.
O ser humano é mesmo uma piada. E muito da chinfrim.

Como é que alguém pode se achar capaz de tomar pra si o direito de limitar o outro? E pior, responsabilizá-lo pelas suas próprias limitações? Fico perplexa.
Se você possui rígidos padrões umbigais, que se aproxime de quem corresponda a eles, oras bolotas... ou estou errada?
O maior fracasso dos relacionamentos, a meu ver, se deve às incansáveis tentativas de transformar o outro em um mero reflexo de si mesmo. Mas pra quê, se a maior riqueza do estar junto é exatamente conviver com as diferenças?
As pessoas não devem ser podadas. Mas regadas - com afeto, apoio e compreensão.
Eu não quero ser metade de ninguém, porque já sou inteira. E se é pra se esforçar em me partir ao meio, nem precisa perder seu tempo. Porque é certo de que, no fim das contas, quem vai sair pela metade é você. Eu duplico! Multi-plico!
Fico aqui então - tranquila - com meu cigarro aceso e meu martini duplo, na boa e velha companhia dos meus tão serenos lampejos de sanidade. Afinal, já bem dizia a minha vó: "- Minha filha, escuta bem, prestatenção: antes só, do que mal acompanhada!"

Ah! E antes que eu me esqueça:
- Desculpa, meu bem, mas acho que - com ou sem cigarros - nós não estaríamos juntos não... Amigos? ;o)

Sylvia Araujo

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Trilha sonora

(clica no título pra ouvir Lenine)

Paciência
[Lenine e Dudu Falcão]

"Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não pára...

Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara...

Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência...

O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência...

Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara..."
Lugar bom de se estar, esse tal de aqui dentro.
Melhor companhia não tem, que essa tal de eu mesma.
Som mais caloroso não existe, do que esse tal de silêncio.

De todas as lutas sem rima, a que melhor travei foi por mim.
De todos os momentos de horror, o vencedor sempre foi o amor.
De todas as lágrimas de dor, de lá - magnânimo - floresceu o sorriso.

Eu venci. E vencedores esmorecem em batalhas;
Mas não perdem a luta.
A minha tá ganha. Eu sei. Eu acredito.
Porque dentro de mim mora o esforço
Do doar, do viver, do sentir.
E por mais que tropece,
Por mais que me engane,
Vem a vida e me mostra o que é estar vivo.
E me desbundo, me deslumbro, ensolaro
A cada prova que tenho de que aqui é mesmo o melhor lugar pra se estar.
E eu estou. Eu vou. Eu vôo. E não páro nunca.
Eu quero é mais! Muito mais!

Sylvia Araujo

Pelos olhos de Mafalda















Clica na imagem pra enxergar (o mundo)


Já pensou no que você pode fazer? Já pensou até onde suas mãos são capazes de ir? Já pensou que você pode mudar o que está a sua volta, com a simples mudança da sua atitude? Não? Então pense. Já passou da hora de reconhecer em si mesmo a válvula que faz do seu próprio mundo um lugar melhor pra se estar. É só começar... ;o)

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Lindeza

"Lua beija Marie.
É só um beijinho de leve nos lábios.
E ela retribui o beijinho.
Às vezes as pessoas são bonitas.
Não pela aparência física.
Nem pelo que dizem.
Só pelo que são."

Markus Zusak


A beleza é mesmo relativa... O que é o belo, afinal, além de um conjunto de coisas que te toca o coração?
Hoje, depois de algum caminho trilhado em busca do melhor corpo, do melhor cabelo, da melhor pele, me deparo com o óbvio: a beleza vem de dentro. Sim, a beleza é o que você faz com os seus dias, a maneira como encara a sua vida, a forma com que enfrenta os seus problemas... Beleza, pra mim, é ter a capacidade de enxergar e viver o belo que se desnuda dia a dia (nas coisas mais simples); e muita gente - feia - insiste em virar as costas e embrutecer os sentidos.
Lindo é aquele que ama. Lindo é quem deseja, quem apóia, quem sorri. Lindo é quem não dispensa momentos felizes, e não troca um pôr do sol por nada nesse mundo.
Não me venha com perfeição - corpo malhado, pele queimada e olhos de vidro. Anseio vida. Preciso tempestades, humanidades e boas lágrimas. Necessito incoerências, desejos e boa vontade. Eu quero é que a beleza se afaste do raso do espelho e mergulhe na imensidão do conhecer-se. Porque quem se conhece, se ama. E quem se ama, além de tornar-se belo, abre as asas e se liberta.
Taí, resumindo tudo: lindeza é permitir-se liberdade. Lindeza é ser livre!

Sylvia Araujo

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Ele vê o mundo com bons olhos.
E sorri pra vida com a leveza dos puros.
Isso é importante.
Isso é muito importante.

Sylvia Araujo

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Trilha sonora

(clica no título pra ouvir Ana Carolina)

Tolerância
[Ana Carolina]

"Como água no deserto
Procurei seu passo incerto
Pra me aproximar
A tempo
O seu código de guerra
E a certeza que te cerca
Me fazem ficar atento
Não me importa a sua crença
Eu quero a diferença
Que me faz te olhar
De frente
Pra falar de tolerância
E acabar com essa distância
Entre nós dois

Deixa eu te levar
Não há razão e nem motivo
Pra explicar
Que eu te completo
E que você vai me bastar, eu sei
Tô bem certo de que você vai gostar
Você vai gostar

Como lava no oceano
Um esforço sobre-humano
Pra recomeçar
Do zero
Se pareço ainda estranho
Se não sou do seu rebanho
E ainda assim
Te quero
É que o amor é soberano
E supera todo engano
Sem jamais perder
O elo
E é por isso que te espero
E já sinto a mesma coisa em seu olhar

Deixa eu te levar
Não há razão e nem motivo
Pra explicar
Que eu te completo
E que você vai me bastar, eu sei
Tô bem certo de que você vai gostar
Você vai gostar"

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Trilha sonora

(clica no título pra ouvir Fagner)

Canteiros
[Cecília Meireles / Fagner]

"Quando penso em você
Fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa
Menos a felicidade
Correm os meus dedos longos
Em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego
Já me traz contentamento
Pode ser até manhã
Cedo, claro feito dia
Mas nada do que me dizem
Me faz sentir alegria

Eu só queria ter no mato
Um gosto de framboesa
Pra correr entre os canteiros
E esconder minha tristeza

Que eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida
Pois senão chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço sem ter visto a vida"

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Linha tênue

Caminho sempre na linha tênue entre romper e solidificar.
É isso que dá sentir tudo.
É isso que dá sentir demais.

Sylvia Araujo

Trilha sonora

(clica no título pra ouvir Zélia Duncan)

Carne e Osso
[Zélia Duncan]

"Alegria do pecado
Às vezes toma conta de mim
E é tão bom
Não ser divina
Me cobrir de humanidade
Me fascina
E me aproxima do céu...

E eu gosto
De estar na terra
Cada vez mais
Minha boca se abre
E espera
O direito ainda
Que profano
Pro mundo ser
Sempre mais humano...

Perfeição demais
Me agita os instintos
Quem se diz muito perfeito
Na certa encontrou um jeito
Insosso!
Prá não ser de carne e osso
Prá não ser
Carne e Osso!"

Grito mudo



Às vezes queima tanto, mas tanto, que é como se o peito estivesse sendo dilacerado pelas unhas mais afiadas... A vontade que dá é de soltar um urro e lançar tudo pela janela - ver voar roupas, objetos e sofrimento - pra depois sentar na quina do rodapé, com as pernas dobradas e a testa encostada nos joelhos, e cantarolar baixinho, como que ninando o choro, como que acalmando a fera.
Às vezes dói tanto, mas tanto, que é como se a cabeça estivesse sendo esmagada por uma prensa gigante... A vontade que dá é de sair correndo, com os braços abertos, deixando que o vento carregue pra longe tudo o que fere - pra depois cair no mar e nadar, nadar com fúria, até ficar exausta e não sentir mais nada: nem as pernas, nem os braços, nem a garganta, que insiste em fechar.

A vontade que dá é de esmurrar as paredes, até os nós dos dedos sangrarem.
A vontade que dá é de arrancar os cabelos aos tufos, com toda força do mundo.
A vontade que dá é de dormir encolhida no chão do banheiro.
E nunca mais acordar.

Mas vontade passa.
Enquanto espero que ela vá, mastigo os cantos das unhas, recuso comida e soluço trancada no armário. (Sim, eu me firo. Faço isso porque me sinto incapaz de ferir qualquer outro que não seja eu mesma.)
Vontade passa. E eu ainda tenho forças pra fazer ela passar...
Enquanto espero que ela vá, olho pro mundo com aqueles olhos distantes de incredulidade, sem ver um palmo à frente.

Ainda bem que vontade passa...

Sylvia Araujo

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Vaaaaaiiiiii!

- Não seja gelo, derreta! Desfaça essa máscara; ela não serve pra nada e não cai bem em você.
- Não seja métrico, descambe! Desfaça essa rima; ela te prende e amordaça, não te deixa viver.
- Não seja pudor, pereça! Desfaça esse muro; ele te isola do mundo e te afasta das cores.
- Não seja prazo, se expanda! Desfaça limites, eles seguram teus passos, te bloqueiam os sonhos.

- Tome as rédeas! Tome as rédeas agora! Vaaaaaiiiiiiiiiiiiii!



(Começo jogando por terra - e pela janela - tudo aquilo que me define. E me refaço, me transformo - reconstruo...
Não aceito rótulos e legendas, quando posso ser - e me tornar - absolutamente tudo o que eu quiser, em qualquer momento que desejar. Absorvo, a todo instante, cada preciosa minúcia e internalizo. Faço do som, cheiro, gosto, textura, uma cartilha que estudo incansavelmente, até me tornar a própria, pra depois ventar tudo ao ar. - Eu gosto de me forçar partir, porque quando volto, volto sempre a preencher. Eu sou lacunas: milhões delas.
Ainda me transformo natureza... Ô! Ainda, feito camaleão, mimetizo e me desfaço para ser outra, a cada nova casca de árvore que apareça; ainda desintegro sob tal palavra ou fração e me retorno, branda...
Então minhas asas se abrirão a cada vazio que encontrarem, pra que, em viagem liberta, eu possa me encher novamente, até que o peito quase arrebente - eu quero estar cheia de vida.
Eu quero mesmo é transbordar!)

- Não; não me contenha!

Sylvia Araujo

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Trilha sonora

(clica no título pra ouvir Fhernanda)

Procura-se
[Fhernanda Fernandes e Isolda]

"Procura-se
Alguém especial
Cem por cento alto astral
Que acredite em sentimentos
Que seja amante, amigo,
Sem censura
Seja música e aventura
Para dividir comigo o meu momento
Procura-se
Um tipo sonhador
Apaixonado pelo amor
Pra ser mais que mais um caso
Procuro um coração vago e seguro
Que procure o que eu procuro
Pra trocar felicidade a longo prazo
Procura-se
Um grande amor
Que apareça de repente sem mistério
Que me pegue e me leve quase a sério
Que me ame exatamente como eu sou
Procura-se
Um grande amor
Que me deixe amar
Do jeito que eu sempre quis
Se eu insisto
Me perdoa
Mas procuro uma pessoa
Que ainda tenha tempo
Para ser feliz. "

Aiiii, aiiii...



Que vontade de comer goiaba!


(Das internas. E das boas. Ô! E bota boa nisso... ai, que vontade que dá...)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Seja um idiota

"A idiotice é vital para a felicidade.
Gente chata essa que quer ser séria, profunda e visceral sempre. Putz! A vida já é um caos, por que fazermos dela, ainda por cima, um tratado? Deixe a seriedade para as horas em que ela é inevitável: mortes, separações, dores e afins.
No dia-a-dia, pelo amor de Deus, seja idiota! Ria dos próprios defeitos. E de quem acha defeitos em você. Ignore o que o boçal do seu chefe disse. Pense assim: quem tem que carregar aquela cara feia, todos os dias, inseparavelmente, é ele. Pobre dele.
Milhares de casamentos acabaram-se não pela falta de amor, dinheiro, sexo, sincronia, mas pela ausência de idiotice. Trate seu amor como seu melhor amigo, e pronto.
Quem disse que é bom dividirmos a vida com alguém que tem conselho pra tudo, soluções sensatas, mas não consegue rir quando tropeça?
Alguém que sabe resolver uma crise familiar, mas não tem a menor idéia de como preencher as horas livres de um fim de semana? Quanto tempo faz que você não vai ao cinema?
É bem comum gente que fica perdida quando se acabam os problemas. E daí, o que elas farão se já não têm por que se desesperar?
Desaprenderam a brincar. Eu não quero alguém assim comigo. Você quer? Espero que não.
Tudo que é mais difícil é mais gostoso, mas... a realidade já é dura; piora se for densa.
Dura, densa, e bem ruim.
Brincar é legal. Entendeu?
Esqueça o que te falaram sobre ser adulto, tudo aquilo de não brincar com comida, não falar besteira, não ser imaturo, não chorar, não andar descalço, não tomar chuva.
Pule corda!
Adultos podem (e devem) contar piadas, passear no parque, rir alto e lamber a tampa do iogurte.
Ser adulto não é perder os prazeres da vida - e esse é o único "não" realmente aceitável.
Teste a teoria. Uma semaninha, para começar.
Veja e sinta as coisas como se elas fossem o que realmente são:
passageiras. Acorde de manhã e decida entre duas coisas: ficar de mau humor e transmitir isso adiante ou sorrir...
Bom mesmo é ter problema na cabeça, sorriso na boca e paz no coração!
Aliás, entregue os problemas nas mãos de Deus e que tal um cafezinho gostoso agora?
A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso cante, chore, dance e viva intensamente antes que a cortina se feche!"

Arnaldo Jabor


Ai, que delícia! Eu me esforço todo dia pra ser uma completa idiota! (porque meio eu já sou! rsrsrs)

Desassossego

"À raça dos desassossegados pertencemos todos, negros e brancos, ricos e pobres, jovens e velhos, desde que tenhamos como característica desta raça comum, a inquietação que nos torna insuportavelmente exigentes com a gente mesmo e a ambição de vencer não os jogos, mas o tempo, este adversário implacável.

Desassossegados do mundo correm atrás da felicidade possível, e uma vez alcançado seu quinhão, não sossegam: saem atrás da felicidade improvável, aquela que se promete constante, aquela que ninguém nunca viu, e por isso sua raridade.

Desassossegados amam com atropelo, cultivam fantasias irreais de amores sublimes, fartos e eternos, são sabidamente apressados, cheios de ânsias e desejos, amam muito mais do que necessitam e recebem menos amor do que planejavam.

Desassossegados pensam acordados e dormindo, pensam falando e escutando, pensam ao concordar e, quando discordam, pensam que pensam melhor, e pensam com clareza uns dias e com a mente turva em outros, e pensam tanto que pensam que descansam.

Desassossegados não podem mais ver o telejornal que choram, não podem sair mais às ruas que temem, não podem aceitar tanta gente crua habitando os topos das pirâmides e tanta gente cozida em filas, em madrugadas e no silêncio dos bueiros.

Desassossegados vestem-se de qualquer jeito, arrancam a pele dos dedos com os dentes, homens e mulheres soterrados, cavando uma abertura, tentando abrir uma janela emperrada, inventando uns desafios diferentes para sentir sua vida empurrada, desassossegados voltados pra frente.

Desassossegados desconfiam de si mesmos, se acusam e se defendem, contradizem-se, são fáceis e difíceis, acatam e desrespeitam as leis e seus próprios conceitos, tumultuados e irresistíveis seres que latejam.

Desassossegados têm insônia e são gentis, lhes incomodam as verdades imutáveis, riem quando bebem, não enjoam, mas ficam tontos com tanta idéia solta, com tamanha esquizofrenia; não se acomodam em rede, leito, lamentam a falta que faz uma paz inconsciente.

Desta raça somos todos; eu sou. Só sossego quando me aceito."

Martha Medeiros

Contenção

Despertou no meio da madrugada escura, cheia de silêncio. Tateou ao lado e esbarrou o vazio. Tocou a testa, se descobriu febril - o corpo ardia... Da fronte úmida escorria o sonho. (Sentiu a respiração ofegante na nuca - tão quente - como a segundos atrás) Latejava amor contido. Pulsava espasmos. Ao abrir os olhos se encontrou sozinha...
Despertou no meio do silêncio escuro, cheio de madrugada. Levantou da cama e pegou o isqueiro. Acendeu a chama, certa de extrair da fumaça companhia - o coração sofria... Abriu o chuveiro, e sob a melodia da água se fez corredeira. (Com a brasa queimando na beira da pia, submergiu no rio - até ficar sem ar) Latejava vontade. Pulsava o desejo de sentir aqueles braços um dia...

Secou os cabelos com o vigor de quem expulsa pensamentos. Deitou nua. Fechou os olhos e adormeceu. Não despertou mais.
(Sem nem sequer perceber, se entregou sorrindo...)

Sylvia Araujo

quarta-feira, 15 de outubro de 2008



Eu não quero ser teu porto; mas o barco que te navega pra longe...

Sylvia Araujo

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Eu não vou esperar até os 40!

Coisas que a vida ensina depois dos 40
[Artur da Távola]


"Amor não se implora, não se pede, não se espera... Amor se vive ou não.
Ciúmes é um sentimento inútil. Não torna ninguém fiel a você.
Animais são anjos disfarçados, mandados à terra (...) para
mostrar ao homem o que é fidelidade.
Crianças aprendem com aquilo que você faz, não com o que você diz.
As pessoas que falam dos outros pra você, vão falar de você para os outros.
Perdoar e esquecer nos torna mais jovens.
Água é um santo remédio.
´O choro foi inventado´ para o homem não explodir.
Ausência de regras é uma regra que depende do bom senso.
Não existe comida ruim, existe comida mal temperada.
A criatividade caminha junto com a falta de grana.
Ser autêntico é a melhor e única forma de agradar.
Amigos de verdade nunca te abandonam.
O carinho é a melhor arma contra o ódio.
As diferenças tornam a vida mais bonita e colorida.
Há poesia em toda a criação divina.(...)
A música é a sobremesa da vida.
Acreditar, não faz de ninguém um tolo. Tolo é quem mente.
Filhos são presentes raros.
De tudo, o que fica é o seu nome e as lembranças a cerca de suas ações.
Obrigada, desculpa, por favor, são palavras mágicas, chaves que
abrem portas para uma vida melhor.
O amor... Ah, o amor... O amor quebra barreiras, une facções, destrói preconceitos, cura doenças... Não há vida decente sem amor!
E é certo, quem ama, é muito amado. E vive a vida mais alegremente..."

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A/C Deus

Prezado Deus,

Eu nem sei por onde começar. Na verdade acho que o início deveria ser o final e, com o meio entremeando tudo, talvez eu pudesse me fazer entender. Ou não. Pode até parecer que estou confusa, mas nunca estive mais lúcida em toda a minha vida. Resumindo tudo, cheguei à uma conclusão que queria dividir contigo: eu não acredito em você (talvez tente desenvolver todas as elocubrações que me fizeram chegar a esse ponto em outras cartas, mais tarde). Nunca tive coragem de te dizer isso assim, na lata; mas é isso aí: você não existe. É fantasia humana, ponto de apoio, crença infundada... É claro que isso não é nada definitivo. Mas, a não ser que você tome uma cerveja comigo sentado na mesa da sala, enquanto trago meu cigarro lentamente, te olhando no fundo dos olhos, você não me convence. Ah, não mesmo!
Desculpa estar te falando isso tudo assim, desse jeito, de uma vez só, mas não sou mulher de mentir. Não gosto dessas coisas mal resolvidas, assim, pela metade. Então, vamos deixar bem claro: você segue por aí, que eu sigo por aqui. Nem precisa se desgastar (tem muita gente por aí que sente a sua falta. Eu não sinto a mínima, então relaxa e goza!) porque eu vou muito bem obrigada com as minhas pernas. Resolvi me dar crédito quando alguma coisa boa acontece na minha vida; (isso é um progresso e tanto, não acha?), e me xingar de tudo quanto é nome quando faço uma merda muito grande (é, aqui continua tudo na mesma). Mas a vida é isso aí. É assim que a gente cresce. E nem vem com essa história de dizer que ainda tem a outra vida pra pagar as jumentices que insisto em cometer, e colher os frutos das minhas boas ações diárias, que não tô afim de esperar não. Você já me conhece bem, e sabe que eu não espero por porra nenhuma. Eu vou lá e pego o que é meu. Ou não. Mas eu vou. Você acha mesmo que eu vou esperar morrer pra resolver o que deixei pra trás? Ha, ha, nunquinha, cara...
Bom, era mais ou menos isso que eu tinha pra te falar. Se não entender alguma coisa, me liga depois das 20 horas, que te explico. Desculpa aí, ter sido tão direta e franca, mas tava cansada dessa enganação: eu finjo que acredito em você, e você finge que acredita em mim... já estamos bem crescidinhos pra isso, né? Melhor assim, tudo às claras, você não acha? Ninguém magoa ninguém e fica tudo certo.
Vou nessa, que tempo é dinheiro. Tenho que ralar muito ainda, e viver intensamente os meus minutos. Um dia eles acabam... Aí não vai dar pra ficar chorando pelo leite derramado. Derramou, tá derramado; já era. Então...

Fica com Deus. (essa foi muito boa! Há!)

PS.: Obrigada por estar ao lado de pessoas de coração puro, mas tente não deixar que teu nome vá parar na boca de qualquer um. Seja mais reservado! O ser humano é um bicho complicado... se cuida. E qualquer coisa, tamos aí!

Sylvia Araujo

domingo, 12 de outubro de 2008

Trilha sonora

(clica no título pra ouvir Zeca Baleiro)

Flor da pele
[Zeca Baleiro]

"Ando tão à flor da pele,
Que qualquer beijo de novela me faz chorar,
Ando tão à flor da pele,
Que teu olhar flor na janela me faz morrer,
Ando tão à flor da pele,
Que meu desejo se confunde com a vontade de não ser,
Ando tão à flor da pele,
Que a minha pele tem o fogo do juízo final.

Um barco sem porto,
Sem rumo,
Sem vela,
Cavalo sem sela,
Um bicho solto,
Um cão sem dono,
Um menino,
Um bandido,
Às vezes me preservo noutras suicido.

Oh sim eu estou tão cansado,
Mas não pra dizer,
Que não acredito mais em você
Eu não preciso de muito dinheiro graças a Deus
Mas vou tomar aquele velho navio,
Aquele velho navio.."

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Desiderata

(Do Latim desideratu: aquilo que se deseja, aspiração)

Encontrado na Igreja de Saint Paul em Baltmore (EUA) em 1692.

"Siga tranqüilamente entre a pressa e a inquietude, lembrando-se que há sempre paz no silêncio.
Tanto quanto possível, sem se humilhar, mantenha boas relações com todas as pessoas.
Fale a sua verdade mansa e claramente e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes, pois eles também têm sua própria história.
Evite as pessoas escandalosas e agressivas. Elas afligem o nosso espírito.
Se você se comparar com os outros, tornar-se-á presunçoso e magoado, pois haverá sempre alguém superior e alguém inferior a você.
Você é filho do Universo, irmão das estrelas e árvores. Você merece estar aqui, e mesmo sem você perceber, a Terra e o Universo vão cumprir o seu destino.
Desfrute das suas realizações, bem como dos seus planos. Mantenha-se interessado em sua carreira, ainda que humilde, pois ela é um ganho real na fortuna cambiante do tempo.
Tenha cautela nos negócios, pois o mundo está cheio de astúcias, mas não se torne um cético porque a virtude sempre existirá.
Muita gente luta por altos ideais e em toda a parte a vida está cheia de heroísmo. Seja você mesmo, principalmente. Não simule afeição.
Não seja descrente do amor, porque mesmo diante de tanta aridez e tanto desencanto ele é tão perene quanto a selva.
Aceite com carinho o conselho dos mais velhos e seja compreensivo com os arroubos inovadores da juventude.
Alimente a força do espírito que o protegerá no infortúnio inesperado, mas não se desespere com perigos imaginários. Muitos temores nascem do cansaço e da solidão, e a despeito de uma disciplina rigorosa. Seja gentil para consigo mesmo (...)
Na fatigante confusão da vida, mantenha-se em paz com sua própria alma, apesar de todas as falsidades, fadigas e desencantos. O mundo ainda é bonito.
Seja prudente e faça tudo para ser feliz!"


Vamo que vamo! ;o)

Trilha sonora

Casa pré-fabricada
[Marcelo Camelo]

"Abre os teus armários, eu estou a te esperar
Para ver deitar o sol sobre os teus braços, castos
Cobre a culpa vã, até amanhã eu vou ficar
E fazer do teu sorriso um abrigo

Canta que é no canto que eu vou chegar
Canta o teu encanto que é pra me encantar
Canta para mim, qualquer coisa assim sobre você
Que explique a minha paz
Tristeza nunca mais

Mais vale o meu pranto que esse canto em solidão
Nessa espera o mundo gira em linhas tortas
Abre essa janela, a primavera quer entrar
Pra fazer da nossa voz uma só nota

Canto que é de canto que eu vou chegar
Canto e toco um tanto que é pra te encantar
Canto para mim qualquer coisa assim sobre você
Que explique a minha paz
Tristeza nunca mais"

Simbóra!

Volta por cima
[Paulo Vanzolini]

"Chorei, não procurei esconder
Todos viram, fingiram
Pena de mim, não precisava
Ali onde eu chorei
Qualquer um chorava
Dar a volta por cima que eu dei
Quero ver quem dava
Um homem de moral não fica no chão
Nem quer que mulher
Venha lhe dar a mão
Reconhece a queda e não desanima
Levanta, sacode a poeira
Dá a volta por cima"

Maldita-viva

Maldito grito que não me escoa,
Maldito nó na garganta muda,
Maldito verbo que se cansa e cala.
Maldita letra que não me expressa,
Maldita fome que me alimenta,
Maldito sonho que me faz insone.
Maldito desejo de alegria,
Maldita vontade de amor,
Maldita crença no ser-humano,
Maldito peito cheio de dor.
Maldita sou eu que não desisto,
Malditos meus passos sempre constantes,
Maldito futuro cheio de planos,
Maldita mente que me agoniza.
Malditos beijos,
Malditos laços,
Maldito eixo,
Maldito abraço.
Maldita arte que me enlouquece,
Maldita música que me ensurdece,
Maldita poesia que me anoitece.
Maldita vida,
Vida tão maldita...
(Toque me encanta,
Cheiro me leva,
Gosto me espanta...)
Maldita vida que me reflete
E me faz sofrida,
Maldita-viva...

Sylvia Araujo

Colo

Colo é terra regada por olhos de dor.
É certeza de ninho em tempestade.
É discurso carregado de silêncio.

Sylvia Araujo

Cicatriz

Cicatriz pulsa-lateja.
Ferida aberta, escancarada
Por trás da pele fina de sorriso.
Tô cansada de doer.
Tô exausta de tanta guerra
Travada por paz;
Exaurida de fortaleza.
Eu estou ruínas,
Vou por um triz...

Cicatriz sangra-escorre.
Dolorido viver no salto,
Cabeça erguida, coração aberto.
Tô cansada de morrer e reviver
- Sem respirar, espairecer.
Eu quero férias
Pra chorar na sala!
Estou um caco,
Vou meretriz...

Sylvia Araujo

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Trilha sonora

Bom pra você
[Zélia Duncan]

"Faça o que é bom
Sinta o que é bom
Pense o que é bom
Bom pra você

Coma o que é bom
Veja o que é bom
Volte ao que é bom
Bom pra você

Guarda pro final
Aquele sabor genial
Se é genial pra você

Tente o que é bom
Permita o que é bom
Descubra o que é bom
Bom pra você

Um dia você me conta
Um dia você me apronta
Um resumo
Do supra-sumo do seu prazer

Pese o que é bom
Perceba o que é bom
Decida o que é bom
Pra você
Decida o que é bom pra você..."

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Saí

Enquanto não se decidir, eu não estou pra você. Saí.

Sylvia Araujo
Eu não sou atalho; sou caminho.
(único, indesviável, indestrutível, indissolúvel)

Sylvia Araujo

Próton

Jurou a si mesma não mais escurecer.
Decidiu estampar nos olhos, o riso de quem ama viver.
- Mas isso não desabona sua luta-labuta de quem tem coração...
Ela sofre, mas não faz do desejo de morte sua alforria da dor.
Ela dói; ela escorre...
Porém, aprendeu com as bruxas a mexer caldeirão: não remói as loucuras - comete.
Ela arde de amor.
Ela é toda calor...

Sylvia Araujo

Elétron

Um dia acordou relutante e recusou a gaveta dos pretos. Escolheu a camisa mais clara esquecida no fundo do armário e saiu. O azul atravessou seus olhos e ganhou o mundo; de cinza o dia virou multicor. De peito aberto experimentou os gostos, saboreou os cheiros, se abriu sorriso; paralizou.

No outro dia levantou tristeza e se entregou. Abriu a gaveta de sempre e pegou a camisa surrada - ato reflexo. Desamassou a dor no corpo, enquanto saía - olhos no chão.
Choveu. Como sempre chovia desde que se lembrava dos dias. Não adianta: preto é preto - invariável.
Esqueceu o azul e os sonhos e escolheu enterrar-se vivo.
Mais fácil assim...

Sylvia Araujo

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Hiato criativo

A tela branca implora matizes. E as linhas, reticências. Tem dias em que elas se trancam e não se revelam por nada. Gritam sentidos confusos; interrompidos-inseguros. Alguns rabiscos acabam, no entanto, se insinuando por medo da dor. Mas por falta de encantos, desistem. E se entregam, fazendo - de fato - ferir e agonizar o amor.
Na tela lisa vem traço em preto; diagonal, inexpressivo. O sol não possui amarelo, e da rosa não escorre tampouco o vermelho. As cores acordaram egoístas, e não vão dividir seus fascínios - já me disseram - com o peito vazio que empunha o pincel. É preciso sonhar...
Nas linhas amargas, palavras distantes suplicam um elo; não enxergam razão. Precisam do peito repleto de ardor, e no oco do meio não encontram nada, nada além de estranho e extremo rigor. Elas querem dançar sem os passos marcados, mas a mão que empunha a caneta, o ritmo desencontrou, e por fim, o calor esfriou . Sem sentimento a poesia não vive. É preciso vibrar...

(A miséria - no fundo - é da alma, que insiste em enxergar preto e branco um mundo tão cheio de tons e nuances. Miseráveis aqueles que impedem que bailem - em seu ritmo próprio - as letras que vivem tão dentro de si.
Que o tempo desfaça o hiato. E que, depois da tempestade, nos chegue a bonança e a abundância, de um tempo repleto de cores e letras, que se entrelaçam - e se mostram - felizes e inteiras de fato)

Sylvia Araujo

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Eu sou!

"Quando nasci, um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
essa espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e,
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto, escrevo. Cumpro a Sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou."

A.P.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Miragem

Ela achou que tinha encontrado remanso.

Mas, que pena, era miragem...
Que pena, era só miragem...

Sylvia Araujo

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Leve


Já era hora mesmo de encontrar leveza... Seguir com falta de ar exaure. É preciso paixão e encantamento; mas viver apaixonada e encantada, com doçura e serenidade - pra variar só um pouco - é uma experiência única e absolutamente reconfortante.
Os passos, se dados conscientemente, um após o outro, nos levam aos objetivos com precisão cirúrgica. A palavra da vez é sabedoria. Quando se descobre esse segredo, a meta se torna buscar - incansavelmente - desbravar os caminhos que levam aos recônditos da alma, onde é possível encontrar a unicidade de todas as coisas, de todos os sentimentos, em um ambiente de harmonia e paz.
Desde que percebi que a chave da transformação está dentro de cada um, tenho me preparado dia após dia para essa nova vida que sempre almejei levar, e para a mudança necessária de atitudes e pensamentos para que isso de fato aconteça. Não existe nada mais exato do que o ditado que diz: você atrai o que transmite. Pura física! E eu estou em paz. Serena, tranquila, equilibrada. Sem nos darmos conta, as coisas começam a se encaixar e a vida se mostra mais dócil e menos rascante, quando enfrentamos os problemas sob essa nova ótica.
Não dá pra viver de dor e de lamentos; é inviável se alimentar de frustrações, culpas e medos. É preciso perceber que somos nós que fazemos a vida. Que somos nós que damos a ela o olhar que queremos dar; e que vivemos aquilo que nos direcionamos a viver, de acordo com nossas escolhas, de acordo com nossos caminhos. É preciso acreditar em dias melhores. É preciso sorrir com mais frequência. É preciso abraçar e amar pessoas queridas, aguçar os sentidos e perceber através deles, com novo vislumbre, o mundo deslumbrante que existe em volta de nós.
Visualizar os arredores com olhos vivos, faz com que nos sintamos e nos tornemos vivos também.
Não deixemos que a vida escorra por entre os dedos.
Não permitamos que ela passe por nós sem que tenhamos, ao menos, sentido seu gosto na boca.
Sejamos felizes, em cada mínimo instante da nossa tão breve existência. (Não deve ser fácil olhar pra trás e perceber que não fizemos tudo o que estava ao alcance das mãos.)
Que jamais nos arrependamos por não ter dado tudo, por não ter feito tudo, por não ter amado mais...

Sylvia Araujo

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Trilha Sonora

Coração na boca
[Lucina/Zelia Duncan]

"Adoro cortinas
Que se abrem
Adoro o silêncio
Antes do grito
Adoro o infinito
De um momento rápido
O instrumento gasto
O ator aflito
O coração na boca
Antes da palavra louca
Que eu não digo
Adoro te imaginar
Mesmo sem ter te visto
Adoro os detalhes
Olhares, atalhos
Botões
Adoro as pausas
Entre as canções
Soluções da natureza
Riquezas da criação"


Adoooooooooooooro! rsrs

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Dança

Ele um dia me disse que as minhas palavras dançavam. Eu já sabia, mas mantinha o segredo guardado, com medo de que elas pudessem me ouvir e perdessem o rumo dos passos. Letras descompassadas são como armas - das mais perigosas - destruidoras em massa. (É preciso cautela)
Desde que vi montes de mãos se entrelaçando no papel, estava certa de que ia ter baile; e que, dali em diante, tinha perdido o controle. Abri o salão e elas, calçadas com os melhores sapatos, escorregavam leveza na madeira lustrada dos meus versos e prosas. Dali saíam frases inteiras e períodos marcados de muitos compassos, e eu - no meu descompasso - aturdida, deixei que me fossem envolvendo.
Hoje não rabisco mais linhas sem acompanhar o seu ritmo íntimo. Minhas letras, arrogantes, não bailam mais sem marcação. Elas pedem pausa e inclinação. E eu dou. Porque, no fundo, no fundo, é por elas que eu sou.

Sylvia Araujo

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Poesia

A poesia (me) escorre.
Os dias, com poesia, são mais vivos.
Os sonhos, muitomaisdoces, com poesia.
E os abraços, ah, os abraços... com poesia, os abraços - intensidade...

A poesia (me) socorre.
As dores, com poesia, sem mais rancores.
Os amores - reféns de ardores, com poesia.
E os momentos, ah, os momentos... com poesia, os momentos - encantamentos...

A poesia me leva. E me traz,
Feito onda quebrando na areia.
Me escorre, tal água de cachoeira.
Não acaba. Não tem ponto. Infiniteza.

A poesia me beija. E me fere,
Feito rosa crivada de espinhos.
Me socorre, tal mão em beira de precipício.
Não me solta. Não me deixa. Correnteza.

Eu quero viver de poesia. (E morrer dela)
Eu quero morrer com poesia. (E viver pra ela)

Sylvia Araujo

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Por outras letras...

"Hoje vou procurar a palavra que se perdeu, que escapuliu entre meus dedos, que escorreu por minhas mãos. Eu hoje vou conter nas letras esse fluxo que não pára de me levar pra longe daqui. Eu hoje vou ficar aqui quieta, enquanto frases se formam, enquanto parágrafos inteiros se fixam na tela. Alguns fogem. E eu deixo que fujam porque sei que posso recuperá-los, melhores, adiante. Não me desespero mais. Encontrei o leito por onde escoar o meu excesso."

Clarah Averbuck


Pra quem tá muda, ela disse tudo. Eu tô meio assim, em suspenso. Eu tô meio assim, sem cadência. Eu tô meio assim, sem saber; sem saber de nada - nem tampouco o que fazer de mim... mas não desespero mais! E tenho dito!
Então, Dona Clarah, obrigadim!

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Ser Pessoa

"Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma...
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não". É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo... "

Fernando Pessoa

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Recomeço é não ter medo de virar do avesso.

Sylvia Araujo

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Estupefata

Caráter, respeito e pudor não se compram no bar da esquina, não senhor!
Nem com trinta mil euros;
Nem com cinquenta mil francos!
Pra algumas coisas existe Mastercard; mas as melhores - e mais importantes - não têm preço...

Sylvia Araujo

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Coisa boa coisa

Coisa boa é sol à pino,
Sorvete de pistache,
Tinta nas mãos...
Coisa boa é mágica!
Chá quentinho
E cobertor,
Drama clássico,
Chocolate.
Ai, coisa boa que é sorriso...
Jardim Botânico,
Paineiras,
Parque Laje,
De bondinho, coisa boa,
Arcos da Lapa - Santa Teresa!
Coisa mais que boa abraço é.
E beijo,
E toque,
E morango,
E kiwi!
Ai que delícia que é música na rede,
Criança correndo,
Amigos por perto,
Uma tijela enorme de açaí!
Boa coisa é sentimento grande,
É a vida imensa.
É tomar um vinho,
Trocar idéias,
Cantarolar baixinho.
Delícia mesmo é piquenique,
Aninhar um gato,
Dançar na chuva,
Correr na rua,
Andar descalço.
Mas boa, boa mesmo é o amor, que faz tudo que se faz ser coisa mais que boa!

Sylvia Araujo

Foco



- tenho medo.

- todo mundo tem medo todo mundo tem sonhos pra chegar nos sonhos é preciso entrar pelas portas que se abrem pra você você acha que as pessoas são cem por cento felizes você acha que exista no mundo alguém completamente realizado claro que não felicidade é momento e é preciso abraçar as oportunidades que a vida te oferece pra que você caminhe saia do lugar estagnação não vai te levar a lugar nenhum precisa ter foco ter direção saber o que quer e onde quer chegar.

- eu não tenho foco isso é fato.

- não dá pra viver de ideologias a sociedade é essa vivemos num mundo capitalista e ele se impõe infelizmente não dá pra viver de paz e amor é preciso caminhar ganhar dinheiro comprar as coisas você não é sozinha não pode ficar imaginando uma realidade que não existe é impossível ser feliz por completo então ouse se atire siga aproveite as chances não paralise não emudeça.

- eu não consigo.

- você vai ficar esperando ser mandada embora pra ter que se virar e correr atrás de outra coisa você vai continuar acomodada em uma situação que não vai te levar a lugar nenhum não pode esperar que as coisas mudem e seus desejos se realizem se você não se mexer!

- eu sei você tem razão ainda bem que alguém aqui tem foco sabe ganhar dinheiro e não tem medo de arriscar porque eu prefiro continuar sonhando e isso é pano pra análise tenho consciência mas não consigo pular em um trampolim que não seja obrigada a pular.

- se isso funciona pra você...

- tenho medo.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Em lugar nenhum

Não sei como, porque, nem quando, me perdi. Não me acho nas flores, na lama, nem no gosto. Não me vejo em mim. Não sei por onde andei. O fato é que me desencontrei nos tantos caminhos e atalhos; nos tantos buracos e afins - e fins. E por tantos lugares passei, por tantos medos viajei, que talvez um deles me tenha tomado pra si. Sem minha autorização, me enfiou num saco e me levou daqui.
Não sei como-porque-quando-ou-onde me perdi. E não me acho, por mais que cate, por mais que chute, por mais que berre. Parece que fiquei surda. E muda. E invisível. As palavras são as únicas que parecem nunca desistir. Mas nem nelas me encontro. Cuspo com força o que passa dentro, pra ver se em algum ponto me enxergo. Mas nada; mas tudo. Mais desesperadamente imundo é esse chão que abre.
Não sei o que houve. Só sei que o espelho gargalha. Eu também não estou lá. Eu também não estou aqui. Eu também não.

Sylvia Araujo

Óbvio


Manoelando eu desinvento as dores.
Elas são tão pequenas perto da ausência de charcos pra caracóis, que desaborreço.
Não me faltam paredes. Me esvaziam é lagartixas!
Talvez se eu fosse um prego torto, caco de vidro ou lasca de pedra,
Talvez assim, e só assim, as árvores me brotassem.
A imaginação, pois, é fruta.
E o desencanto, encantamento.
Nos quatro cantos, não há quem me desfaça do nada.
Prefiro hoje o nada, no lugar do tudo que me desorienta.
Manoelando, percebi que o ínfimo é glória!
A complexidade caiu em desuso, agora.
No meu mundo eu vou é pintar violetas, pra ter - em eterno - beija-flores por perto...
Eu vou é desofrer em rios; desacostumar o cio.
Eu vou é desenraizar!

Sylvia Araujo

Bem-te-vislumbro, Manoel de Barros.

"Tudo que não invento é falso."

"Tem mais presença em mim o que me falta."

"Sou muito preparado de conflitos."

"Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou."

"Meu avesso é mais visível que um poste."

"Não saio de dentro de mim nem pra pescar."

"Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore."

"Eu queria ser lido pelas pedras."

"Aonde eu não estou as palavras me acham."

"Melhor pra chegar a nada é descobrir a verdade."

"O branco me corrompe."

"Não gosto de palavra acostumada."

"Do lugar onde estou já fui embora."


Manoel de Barros, em Livro Sobre Nada.

Manoelando

O Palhaço

"Gostava só de lixeiros crianças e árvores
Arrastava na rua por uma corda uma estrela suja.
Vinha pingando oceano!
Todo estragado de azul."


Passeio nº 6

"Casebres em ruínas
muros
escalavrados...
E a lesma - na sua liberdade de ir nua
úmida!"

Manoel de Barros, em Matéria de Poesia.

Manoelando I

"Muita coisa se poderia fazer em favor da poesia:

a- Esfregar pedras na paisagem.

b- Perder a inteligência das coisas para vê-las. (Colhida em Rimbaud)

c- Esconder-se por trás das palavras para mostrar-se.

d- Mesmo sem fome, comer as botas. O resto em Carlitos.

e- Perguntar distraído: - O que há de você na água?

f- Não usar colarinho duro. A fala de furnas brenhentas de Mário-pega-sapo era nua. Por isso as crianças e as putas do jardim o entendiam.

g- Nos versos mais transparentes enfiar pregos sujos, teréns de rua e de música, cisco de olho, moscas de pensão...

h- Aprender a capinar com enxada cega.

i- Nos dias de lazer, compor um muro podre para os caramujos.

j- Deixar os substantivos passarem anos no esterco, deitados de barriga, até que eles possam carrear para o poema um gosto de chão - como cabelos desfeitos no chão - ou como bule de Braque - áspero de ferrugem, mistura de azuis e ouro da terra, carvão de folhas.

l - Jogar pedrinhas nim moscas..."

Manoel de Barros, em Matéria de Poesia.

Manoelando II

"Sou um sujeito cheio de recantos.
Os desvãos me constam.
Tem hora leio avencas.
Tem hora, Proust.
Ouço aves e beethovens.
Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.

O dia vai morrer aberto em mim."

Manoel de Barros, em Livro Sobre Nada.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Oh, céus...

"Só sei que nada sei."

Confusão da porra...

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Anjos



Anjos existem. E não são feitos de brumas. Nem plumas. Eles tomam antidepressivos e usam alucinógenos. Têm dor de dente e diarréia. Uns são ateus; outros tantos budistas.
Anjos, os meus anjos, sentem fome. Penteiam os cabelos e bebem cerveja no pé sujo da esquina. Caminham sem saber pra onde, e choram às escondidas no banheiro. Há quem diga que um deles insiste em jogar na mega sena, toda santa sexta feira.
Quando se encontram, se reconhecem. Juntos, se recarregam de paz e de alegria. Eles sabem sorrir e adoram uma festa. Alguns fazem terapia, outros pedalam incansavelmente até as paineiras.

Anjos, definitivamente, existem. Eles dão as mãos e se abraçam, como se cada dia fosse o último. Riem das próprias desgraças e sofrem com a dor dos outros. São notívagos, mas adoram o sol.
Os meus tão queridos anjos, sentam no meio fio e transformam a vida em música, transpiram arte. Não sabem quase nada, mas sentem tanto, que nada, nada-nada, escapa. Eles tomam porre. Eu já vi.
Esses são diferentes. São tão diferentes que vão se completando até formarem um só. E desse um só, só o que se pode esperar, é uma onda gigante que te embarca e faz tudo virar amor. Eles transbordam...

Anjos existem. Os meus maravilhosos anjos existem. E por mais que não tenham asas, eles pairam pertinho das nuvens. E com o peito cheio de amor, levantam uns aos outros e sempre seguem adiante. Juntos, eles não desistem. E eu, de mãos dadas com eles, também não.



Às pessoas fundamentais na minha vida, que, cada um a sua maneira, me fazem ser quem eu sou. E me fazem acreditar, dia após dia, que tudo isso sempre há de valer a pena. Que, apesar dos percalços, estou no caminho certo.
Que o amor que vocês irradiam por mim e pela vida retorne a vocês maior e mais brilhante sempre. E que sejamos felizes, todos, sem precisar de muito mais do que o que já temos.
Amo cada um pela importância que tem. E todos, sem exceção, são imprescindíveis em cada passo que dou. Em cada etapa vencida, em cada sucesso.
Obrigada por estarem aqui hoje e sempre, AMIGOS!

Sylvia Araujo

terça-feira, 22 de julho de 2008

À você, hoje. E em todos os dias da minha vida.


Mãe,

Queria poder estar aí pra te dar um abraço. E um beijo. E sentar na mesa com você, cheia de idéias e desejos, como sempre.
Queria poder evitar que sofra as minhas dores, tão iguais às suas, tão dolorosamente iguais às suas.
Queria que meus atalhos te tranquilizassem, te permitissem dormir sem medo. Mas eu sei - tenho a certeza - que pra você, como pra mim, os caminhos mais difíceis são os que trazem mais vitórias. E que é na dor que sabemos do que somos capazes. E ainda bem, somos demais; mais ainda.
O presente que posso te dar hoje é o orgulho que tenho do que me tornei. Dos passos que dei - e dou - incansáveis. E honestos.
O embrulho que te entrego hoje, no dia do seu aniversário, é uma filha viva. E feliz. Com a família que tem, com os amigos que fez, com os sonhos que sonha.
Agradeço todos os dias por estar aqui. E poder viver intensamente tudo o que você me ensinou a viver.
Agradeço pelas suas dores, pelas suas lágrimas, pelo seu esforço. E sigo seus passos. Me guio pela sua luz.
Obrigada por ser o abajour das minhas noites insones; por ser a estrela do meu céu nublado e a brisa dos meus dias mais quentes.
Agradeço o bote que me joga sempre, quando o mar resolve me empurrar do barco.
Obrigada por ser minha mãe por mais um ano.

Feliz Aniversário,
Sua filha.

Sylvia Araujo

Trilha sonora


Contato Imediato
[Arnaldo Antunes / Marisa Monte / Carlinhos Brown]

"Peço por favor
Se alguém de longe me escutar
Que venha aqui pra me buscar
Me leve para passear

No seu disco voador
Como um enorme carrossel
Atravessando o azul do céu
Até pousar no meu quintal

Se o pensamento duvidar
Todos os meus poros vão dizer
Estou pronto para embarcar
Sem me preocupar e sem temer

Vem me levar
Para um lugar
Longe daqui
Livre para navegar
No espaço sideral
Porque sei que sou

Semelhante de você
Diferente de você
Passageiro de você
À espera de você

No seu balão de são joão
Que caia bem na minha mão
Ou numa pipa de papel
Me leve para além do céu

Se o coração disparar
Quando eu levantar os pés do chão
A imensidão vai me abraçar
E acalmar a minha pulsação

Longe de mim
Solto no ar
Dentro do amor
Livre para navegar
Indo para onde for
O seu disco voador"

Trilha sonora I

Sem aviso
[Francisco Bosco / Fred Martins]

"Anda
Tira essa dor do peito, anda
Despe essa roupa preta e manda
Seu corpo deslembrar

Canta
Vira dor pelo avesso
Canta
Larga essa vida assim as tontas
Deixa esse desenganar

Calma
Dê o tempo ao tempo, calma
Alma
Põe cada coisa em seu lugar
E o dia virá, algum dia virá
Sem aviso

Então..."

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Sem vozes

Muda. Completamente afônica. Paralisada, em choque.

É hora de transformar, crescer, desabrochar.
Não sei pra onde ir. Nem por onde começar.
O que sei, sem certeza alguma, é que é preciso se jogar pras asas começarem a bater. Mas o que batem são os dentes, sempre. De medo, pânico, pavor completo.
Então espero. Com o peito apertado e a garganta lacrada.
Respiro e acordo, diariamente - sorrateiramente.
Até quando, não sei.

Sylvia Araujo

terça-feira, 8 de julho de 2008

Free


Depois de um dia inteiro regurgitando fracassos, junto com o pastel e o copo de refresco aguado que colocou pra dentro às nove da manhã, chegou em casa quase rastejando e se jogou no único espaço da casa onde não havia roupas e tralhas espalhadas. Num ato reflexo, abriu a bolsa entupida de dejetos e pegou o maço de cigarros amassado. Vazio. Virou a bolsa no chão e encontrou mais dois maços. Também vazios. Entrou em pânico. No meio do monte de papéis cheios de números sem nomes, canetas quebradas e cacos de vida, viu quinze centavos reluzentes. Levantou tremendo e caramujou até o quarto. Esvaziou cada uma das nove bolsas multicoloridas e contabilizou: doze centavos em moedas de um e cinco. Faltavam três. Três míseros centavos pra que conseguisse enfim pregar os olhos. Pegou cada calça das enormes pilhas de roupas que se perdiam em cima da cama e das cadeiras - uma a uma, meticulosamente. Nada nos bolsos, além de lixo e areia. Nem se preocupou em verificar de onde veio a areia, o que provavelmente tentaria explicar - ou compreender - uma semana depois, quando resolvesse organizar sua vida de uma vez. A única coisa em que pensava era que precisava de três centavos pra conseguir voltar a respirar. Em desespero, depois de revirar cada caixa, cada bolso, cada canto mais improvável da casa, resolveu colocar os vinte e sete centavos no bolso do short mais velho e curto da adolescência, e sair cambaleando pela rua vasculhando o chão. Na primeira esquina vislumbrou cinquenta centavos. Antes de sentir o alívio percorrendo a espinha, percebeu que a moeda não valia mais, como a maioria das coisas na sua vida de merda. Durante a volta no quarteirão escuro e vazio, encontrou - no meio de uma pilha de folhas úmidas quase apodrecendo - um círculo cor de bronze. Cinco centavos quase irreconhecíveis. Com seus preciosos trinta e dois centavos nas mãos suadas de unhas mal feitas, apressou o passo até invadir o boteco mais imundo e degradante de Vila Isabel. Do meio de montes de seres cambaleantes e fétidos levantou um dos braços e pediu ao português de bigode engordurado, com a caneta atrás de uma orelha e o ramo de arruda murcho atrás da outra: Um cigarro varejo, por favor. Entregou as moedas quase ao mesmo tempo em que puxava o isqueiro preso na corrente, ao lado do balcão, sem se preocupar com os valiosos dois centavos de troco. Foda-se o troco! Antes de abrir a porta de casa, depois de quatro longos e inebriantes tragos, a fumaça terminou seu trabalho. Sem escovar os dentes, pra não perder nem um único segundo do adormecimento causado pela nicotina, afastou as roupas, os medos e os sonhos, se enfiou embaixo do lençol e fechou os olhos, torcendo pra que o sono dessa vez chegasse rápido, mais rápido que a fome do corpo e da alma.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 26 de junho de 2008














Ser humano é mesmo um bicho complicado...
Ah, se eu pudesse ter nascido gato!
Ah, se eu pudesse...

Sylvia Araujo

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Sobre o Recomeço

No Elevador do Filho de Deus
Elisa Lucinda

"A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida
Que eu já tô ficando craque em ressurreição.
Bobeou eu tô morrendo
Na minha extrema pulsão
Na minha extrema-unção
Na minha extrema menção
de acordar viva todo dia
Há dores que sinceramente eu não resolvo
sinceramente sucumbo
Há nós que não dissolvo
e me torno moribundo de doer daquele corte
do haver sangramento e forte
que vem no mesmo malote das coisas queridas
Vem dentro dos amores
dentro das perdas de coisas antes possuídas
dentro das alegrias havidas

Há porradas que não tem saída
há um monte de “não era isso que eu queria”
Outro dia, acabei de morrer
depois de uma crise sobre o existencialismo
3º mundo, ideologia e inflação…
E quando penso que não
me vejo ressurgida no banheiro
feito punheteiro de chuveiro
Sem cor, sem fala
nem informática nem cabala
eu era uma espécie de Lázara
poeta ressucitada
passaporte sem mala
com destino de nada!

A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida
ensaiar mil vezes a séria despedida
a morte real do gastamento do corpo
a coisa mal resolvida
daquela morte florida
cheia de pêsames nos ombros dos parentes chorosos
cheio do sorriso culpado dos inimigos invejosos
que já to ficando especialista em renascimento

Hoje, praticamente, eu morro quando quero:
às vezes só porque não foi um bom desfecho
ou porque eu não concordo
Ou uma bela puxada no tapete
ou porque eu mesma me enrolo
Não dá outra: tiro o chinelo…
E dou uma morrida!
Não atendo telefone, campainha…
Fico aí camisolenta em estado de éter
nem zangada, nem histérica, nem puta da vida!
Tô nocauteada, tô morrida!

Morte cotidiana é boa porque além de ser uma pausa
não tem aquela ansiedade para entrar em cena
É uma espécie de venda
uma espécie de encomenda que a gente faz
pra ter depois ter um produto com maior resistência
onde a gente se recolhe (e quem não assume nega)
e fica feito a justiça: cega
Depois acorda bela
corta os cabelos
muda a maquiagem
reinventa modelos
reencontra os amigos que fazem a velha e merecida
pergunta ao teu eu: “Onde cê tava? Tava sumida, morreu?”
E a gente com aquela cara de fantasma moderno,
de expersona falida:
- Não, tava só deprimida."


Melhor que absorver o que essa deusa-negra-dos-olhos-claros escreve, é sentí-la declamar. Melhor que isso ainda, é perceber nas entranhas a dor que ela sente. E a vida, a luz, a energia que escorre dos seus textos. Eu sou fã, assíduaquasehistérica, confesso! Gosto do cotidiano simples dos versos de sua alma. Gosto do brilho no olhar que causa em quem lê - e compreende - as entrelinhas do óbvio que ela registra.
O que me resta, sempre que chego no ponto final, é sorrir, chorar e aplaudir de pé: Elisa Lucinda poetapoetiza divina, explendorosa, sacolejante...

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Recomeço



- É, fez sol.
(Inevitável o sorriso no canto da boca, secosarcástico)
Ela fez de tudo pra tempestade que vinha esperando cair. Acordou sem dar bom dia aos gatos negros, dos olhos melados. Tomou um banho gelado e se postou nua, de frente pro espelho, com cara de desgosto. Olhou. Se viu, se absorveu. Aborreceu.
- Vai chover. Torrencialmente. - desígnio que se deu antes mesmo de sequer abrir a fresta da janela.
Pegou a necessaire dos dias cinzas - aquela de tons arroxeados - e espalhou na mesa suas cores de dor. Era luto o que sentia, e os olhos, a boca e os medos também sabiam da chuva. Sentiam. Foram se transformando pretos, marcados, doídos.
Sorvendo um copo de água com limão, se olhou reflexo. Se endureceu.
- Vai chover, trovejar, alagar.
Abriu o armário e foi direto pra gaveta dos esquecimentos. Estavam todos lá, intocáveis, os tecidos mais duros e coniventes, de toda uma vida de entregas. Escolheu o que melhor combinava com as unhas vermelhas-descascadas, enormes e pontudas, cultivadas somente para o encontro dos raios e trovões.
De sobretudo preto, imenso, tampando metade dos rabiscos de morte multicores que gritavam na pele branca da batata da perna, sentou no canto do quarto. No chão. Colocou um coturno pesado, como quem se protege da guerra, como quem nunca mais viu leveza. Com a cara e os cadarços amarrados com força, se fez nó - indissolúvel, intransponível. Levantou, pegou a bolsa cheia de restos e trapos e bateu a porta, certa da despedida.
- Já tá chovendo, desaguando, desabando tudo; é assim...
Mesmo de óculosescurosmaisescurosimpossível, sentiu a claridade quando ouviu a primeira buzina, antes de ultrapassar o portão. E percebeu que, mesmo que queira e se prepare cuidadosamente para a chuva, quando o sol põe na cabeça de brilhar, ele vem. Não tem jeito. Fim.
Desordenada, encabulada e por fim divertida, largou os cinzapretos no canto da grade e saiu descalça, com a maquiagem pesada borrada pelos rios de incredulidade... Um sorriso de alívio, discreto, se fez notar nos lábios.
- É. Fez sol.

Sylvia Araujo

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Aridez



Abundância de idéias; sentidos, interrogações - milhões!(?)
Escassez de letras, finais - das reticências! (...)
Instante de absorção. (absortos-absorventes-absorvidos: introspecção, deslumbramento, confusão desavisada)
Mas eu volto.
Muito breve chego.
E os acentos vão falar do monte de magníficas coisas-pensamentos que ando mastigando - 33 vezes a cada garfada!
Antes de pensar em engolir, prometo que cuspo. (Melhor pra digestão é gosto sem peso)
Afinal, alguém nesse mundo - você, você aí - ainda insiste em me lerdevorarseaquecer, apesar de provavelmente ter desistido de entender.
Ah... fica triste não... Apenas ouça. E sinta!
Compreensão é além-mar, deixa estar.

Cheiro pra quem fica.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Putadavidapracaralhomermo. Vai encará?



- Aproveitem o Dia dos Namorados! Gastem dinheiro, comprem presentes, flores, paguem jantares, chocolates, motéis, jóias, viagens, etc, etc, etc!!!

(Desculpem a revolta, mas dia dos namorados, das mães, dos pais, das crianças, é coisa de capitalista filhodumaputa que faz com que você gaste até o que não tem, pra comprar um dia alguém, que vc deveria se esforçar para conquistar diariamente. Que tal um carinho pela manhã, uma ligação no meio da tarde e um cineminha qualquer dia desses? Porque não um bilhetinho carinhoso, um recado no espelho, um abraço de saudade?)

- Comprem o celular de última geração, aquela pulseira divina - ouro branco cheia de brilhantes, oh! - ou aquele relógio fantástico, maquinaria suiça, o caralhoaquatro! Vão àquele restaurante Francês, que tem aquela comida orgasmática - pena que é pouca e se sai morrendo de fome de lá! Peçam aqueeeeela suite presidencial naqueeeele motel mais caro, com piscina, hidromassagem e espelhos espalhados até pelo chão!

(Desculpem mais uma vez a revolta, mas porque as pessoas se tornam mais sensíveis nas datas comemorativas? É excesso de propaganda? Bombardeio de cobranças? Egocentrismo tão perigoso a ponto de se necessitar de um dia no calendário para conseguir parar de admirar o próprio umbigo e olhar para o outro??? Que porra é essa??? Que mundo escroto é esse???)

-Comprem a calça da Gang, o cordão de cifrão de ouro maciço que se aperta entre os dentes, os vestidos da Osklen! Comprem, comprem...
- Consumam, suas antas carentes de afeto, compulsivas-loucas-esquizofrênicas-fóbicas, que não se mexem pra modificar porra nenhuma!!! - sussurram em quase segredo, de dentro da banheira de mármore cheia de sais aromáticos, segurando uma taça de Cristal - A champagne! - aqueles almofadinhasengravatados que só sabem ganhar - e gastar! - dinheiro; mais porra nenhuma nessa vida.

(Pra mim, basta que eu receba um sorriso, um abraço e sinta o cuidado diário - Não que não me delicie recebendo e ofertando presentes, não é isso, pelo contrário adoro dar e receber mimos... Mas não é só nessa merda de dia doze de junho, dia dos namorados, que as pessoas existem. Elas existem, amam, sofrem, desejam, se revoltam, necessitam, TODOS OS DIAS!
Então, se sacuda!!! Exista, ame, sofra, deseje, se revolte, necessite, sinta, sinta muito, TODOS OS DIAS também!!! - Experimenta só, pra ver se assim você não vai se sentir mais feliz... experimenta só...)


(As vezes acontece de ficar desse jeito - putadavidapracaralhomermo.
Mas relaxa, que passa. Então: Feliz Dia dos Namorados!)

Sylvia Araujo

Blá blá blá

Não gosto que me sinalizem que não faço sentido - posso não fazer pra você, mas aqui dentro, cada coisa tem seu cativo lugar, sim, senhor!
Não gosto que ignorem meu coração.
Não gosto que desrespeitem meus sentimentos.
- Procure ouvir mais, compreender mais, julgar menos. Dica das boas! ;o)


Blá, blá, blá quem faz é vácuo. E eu sou cheia, meu bem: de vida, de arte, de fôlego - Corro maratona de pensamento e pulo obstáculos como ninguém! (É bom acreditar. Humrum)

Blá blá blá é coisa nenhuma, é desimportância, desadereçamento. E eu, ainda bem, hoje sei que sou alguém, chéri!

Tô cansada de tanto encarcerar o verbo!
- Revolução, já!

Sylvia Araujo

terça-feira, 3 de junho de 2008

Cores


Num dia branco desses quaisquer, Orgulho resolveu sair de pincel em punho pra pintar o Amor, que era bege desde que nasceu.
Voltou pra casa multicor.

Sylvia Araujo

Asas


Quando estava prestes a se atirar no abismo ela lhe deu a mão. E sorriu.
Ele pulou.
E ela voou.

Sylvia Araujo

Diálogo

(Algumas coisas a dizer. Outras tantas a ouvir... Eu tenho amor pra dividir! Eu tenho vida pra viver! E sorrisos a sorrir, dores a doer, lágrimas a escorrer...
Tanto mundo pra você, mas tanto mundo, tanto...)

- Humrum. Tá.

Ela cala e empurra tudo com um copo de água morna, cheio de vinagre e sal. Disseram que a receita aplaca o aperto da garganta. Mas desde que engolir ficou mais fácil, vem sentindo dores horríveis no estômago. Parece até que foi lá que o peito se escondeu...

Sylvia Araujo

Quatro Estações

Tem dias que o coração chama a solidão e ela chega mansa, como uma dádiva, oferecendo calmaria de alto mar ao peito aflito, desarvorado. Nesses dias de verão-sol-à-pino, se aconchega em Gonzaguinha ou Elis, embebida em vinho branco, cheirando à incenso e paz. Até a fumaça, espiral subindo da pedra sabão, dança - bailarina manca-acinzentada - e afaga, amansa, me aninha...

Tem dias que a solidão nem bate na porta. Arrebenta as trancas e arremessa as garras, destruindo tudo. Machuca, sufoca e aturde o coração sofrido, tão cheio de escrúpulos. Nesses dias de inverno-cinza-cortante, as melhores linhas - quando não se tem outra que remende o oco entupido do meio - são o papel e a tinta, que preenchem os vazios com letras doídas, encarceradas, imponentes - tão cheias de si...

Tem dias em que não me basto e, só, extenuo. Nesses dias de outono-laranja-quase-ocre, preciso precisar de alguém. Espero um laço cheio de cuidado, aquele abraço de cúmplice, aquele dividir o silêncio e as lágrimas, gordas de dor...

Às vezes me canso da força que tenho, das lutas que travo, das guerras que perco; e só quero os olhos que sabem e guardam pra si. (tudo o que sabem só pra si)
Por vezes eu morro. Por vezes me mato. Nesses às vezes, quase sempre, nada me consola a não ser o cuidado que tenho de nunca morrer de todo, de sempre voltar primavera. (das-mais-borbulhantes-entupidas-de-cores-e-aromas)

Sylvia Araujo

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Voe

"Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam ódio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos, um filme mais ou menos ,um livro mais ou menos.
Tudo perda de tempo.
Viver tem que ser perturbador, é preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu orgulho, seu asco, sua adoração ou seu desprezo.
O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia "

Martha Medeiros.


Dá licença. Vou ruminar um pouco, depois eu volto e regurgito tantos pensamentos quantos resolverem se elaborar cá dentro. Pra se pensar, beibe. Pra se deleitar...

Ui, delícia! Nem gosto... nem um pouquitito... ;o)

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Detalhes


Quando a chave vira no portão da rua, ele sente. E fica indócil, de orelhas em pé e rabo abanando.
Quando a chave vira no portão de dentro, ele late. E arranha a porta. E cheira pela fresta.
Quando ela entra na fechadura, ele pula. E salta, e gira e corre.
Quando a porta abre, e eu me arrasto pra dentro - feito flagelada de guerra - ele abaixa as orelhas e se joga aos meus pés, de barriga pra cima.
Ele quer amor. E cuidado. E afago - Eu também.
Ele quer desejar boas vindas e mostrar o que é ser fiel, o que é esperar um dia inteiro para dar um beijo e fazer um carinho - E eu só quero minha cama, uma taça de vinho, um cigarro aceso e um dissipador de humanidades.

Não é possível que eu possa pensar em me desfazer de tamanho amor por causa de cocô no meio da sala.
Não é possível que eu possa passar sem enxergar aquela criatura tão pura e ainda rosnar pra ele, como se tivesse razão.

Nunca se tem razão quando se deixa escorrer o óbvio.
Nunca se tem razão quando se deixa cegar e envenenar pela rotina, pela tristeza, pelos dias difíceis.
Nunca se tem razão quando o amor vem e a gente afasta por preguiça de se dar, por descuido, por puro pânico do amanhã.

Eu não tenho razão. Sei disso. E a culpa é minha. Única e exclusivamente minha.

Sylvia Araujo

Descalça


Ela tem mania de andar descalça. Diz que sente a energia do globo subindo pelos dedos, alcançando o peito do pé e reverberando nos tornozelos.
Ela jura que sabe, de olhos fechados - e ouvidos cobertos - o tamanho exato da onda que quebra na areia, pela força que sobe pro peito. Ela fala que o coração vibra.
E afirma que se enche de vida a cada grama que pisa, a cada pedra que sente.

Ela tem mania de vida. Diz que anda descalça pra alcançar o dentro. Porque o fora, pra Ela, nunca foi nada além do espelho do que vai no meio.
Hoje Ela sabe que o amor pleno é quando os olhos brilham; e que o brilho nada mais é do que a essência que borbulha dentro sendo escarrada peito afora.
O amor é Ela. O amor vem dela. (de si para si, de si para o mundo, de dentro pra fora.)

Da vida, pra Ela, o que resta - todo o resto! - é só, e somente só, o Agora.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 8 de maio de 2008

"Meu coração vagabundo, quer guardar o mundo em mim..."

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Sentidos

Coração na boca, com gosto de quero mais.
Tato aguçado dá direito a arrepio de lembranças.
Os ouvidos reproduzem os silêncios do estar junto, tal qual eco.
Olfato visivelmente apurado por aquele inesquecível cheiro que persegue.
Visão ampliada, com alcance de quilômetros e mais quilômetros de mar; aquele que separa o frio do calor...

O sexto sentido segreda que estou entregue. Assumo. Adoro me sentir assim...

Sylvia Araujo

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Toujours


Num dia de janelas batendo, em pleno cinza-grajaú, ela viu o roda-moinho de folhas e plumas no canto da rua; naquela mesma esquina onde atravessa - sempre! - sem olhar pros lados.
Juntou os dois pés - unhas vermelhas pra fora do couro - e encolheu os joelhos - um encostado no outro. De um impulso, de uma só e única vez, saltou e sumiu no centro. Não teve medo (ela nunca tem; afinal, não é qualquer uma que pega baratas pelas antenas).
O que dizem é que se perdeu, sem nada achar, lá no fundo daquele olho tão cheio de mundo...
Maledicências, já que ela tanto gosta de se perder - sempre gostou, é verdade! - por que é justo aí que, inexplicavelmente, se encontra. Toujours.

Sylvia Araujo