Foto do blog: Mario Lamoglia

terça-feira, 8 de julho de 2008

Free


Depois de um dia inteiro regurgitando fracassos, junto com o pastel e o copo de refresco aguado que colocou pra dentro às nove da manhã, chegou em casa quase rastejando e se jogou no único espaço da casa onde não havia roupas e tralhas espalhadas. Num ato reflexo, abriu a bolsa entupida de dejetos e pegou o maço de cigarros amassado. Vazio. Virou a bolsa no chão e encontrou mais dois maços. Também vazios. Entrou em pânico. No meio do monte de papéis cheios de números sem nomes, canetas quebradas e cacos de vida, viu quinze centavos reluzentes. Levantou tremendo e caramujou até o quarto. Esvaziou cada uma das nove bolsas multicoloridas e contabilizou: doze centavos em moedas de um e cinco. Faltavam três. Três míseros centavos pra que conseguisse enfim pregar os olhos. Pegou cada calça das enormes pilhas de roupas que se perdiam em cima da cama e das cadeiras - uma a uma, meticulosamente. Nada nos bolsos, além de lixo e areia. Nem se preocupou em verificar de onde veio a areia, o que provavelmente tentaria explicar - ou compreender - uma semana depois, quando resolvesse organizar sua vida de uma vez. A única coisa em que pensava era que precisava de três centavos pra conseguir voltar a respirar. Em desespero, depois de revirar cada caixa, cada bolso, cada canto mais improvável da casa, resolveu colocar os vinte e sete centavos no bolso do short mais velho e curto da adolescência, e sair cambaleando pela rua vasculhando o chão. Na primeira esquina vislumbrou cinquenta centavos. Antes de sentir o alívio percorrendo a espinha, percebeu que a moeda não valia mais, como a maioria das coisas na sua vida de merda. Durante a volta no quarteirão escuro e vazio, encontrou - no meio de uma pilha de folhas úmidas quase apodrecendo - um círculo cor de bronze. Cinco centavos quase irreconhecíveis. Com seus preciosos trinta e dois centavos nas mãos suadas de unhas mal feitas, apressou o passo até invadir o boteco mais imundo e degradante de Vila Isabel. Do meio de montes de seres cambaleantes e fétidos levantou um dos braços e pediu ao português de bigode engordurado, com a caneta atrás de uma orelha e o ramo de arruda murcho atrás da outra: Um cigarro varejo, por favor. Entregou as moedas quase ao mesmo tempo em que puxava o isqueiro preso na corrente, ao lado do balcão, sem se preocupar com os valiosos dois centavos de troco. Foda-se o troco! Antes de abrir a porta de casa, depois de quatro longos e inebriantes tragos, a fumaça terminou seu trabalho. Sem escovar os dentes, pra não perder nem um único segundo do adormecimento causado pela nicotina, afastou as roupas, os medos e os sonhos, se enfiou embaixo do lençol e fechou os olhos, torcendo pra que o sono dessa vez chegasse rápido, mais rápido que a fome do corpo e da alma.

Sylvia Araujo

8 comentários:

Ana disse...

Esse também é daqueles, para as tais madrugadas, a meia-luz de salas com gatos!
Madrugada de amigas, com cigarros please!
Amomuitoviu!

Ana disse...

A Sylvia é assim: um dia, muito tempo atrás, ela brigou comigo (ela é meio briguenta). No outro, deixou um bilhete na porta de casa (éramos vizinhas), embaixo de um potão de goiabada, daquelas de comer com colher, dizendo: "Vem ver os azulejos novos da cozinha lá de casa! P.S. Desculpa!"
E no dia mais triste da minha vida, ela cantou comigo no play.
E hoje, as coisas mais bonitas das quais me lembro, têm a cor dela.
Hoje, quando brigo com alguém, me desculpo com goiabada.
A Sylvia é assim....

Sylvia Araujo disse...

Aff...
São poucas as vezes que as palavras somem assim. E mais raras ainda as pessoas que conseguem fazer isso.
A Ana é assim...
Todas as minhas memórias de infância têm o cheiro dela.
E hoje, passaram a ter - também -gosto de goiabada.
A Ana é assim...

Renata disse...

Que história linda, Ana!! Até eu fiquei com a garganta esquisita....
Beijos nas duas!
Com sabor de goiabada!

Sylvia Araujo disse...

É Sia... ela tem mania de dar nó na garganta alheia! A Ana é assim... rsrsrs
Beijo de romeu e julieta pra vc!
Lóviú

renato disse...

Costumo ter comigo que não se refuta um sentimento, e à primeira vista, trata-se de um post sobre a angústia. O que é a angústia, afinal, senão esse sentimento em nós de que é sempre possível a algo ficar pior do que já é ?
Mas é preciso discernir entre o que são nossos medos imaginários e o que seria um medo real. Lembremo-nos do Evangelho: Os médicos só vêm para os doentes.
O que nos resta na vida é aceitar nossos limites, enfrentar isso, superar isso (se pudermos) ao invés de fugirmos.
Sofrer com a angústia ? Não concordo com isso -- não se pode deixar de pensar porque isso angustia. Não se pode deixar de viver porque temos medo. Não podemos deixar de amar porque o amor nos machuca. Ora, a vida é feita de tal forma que só podemos escapar de um mal (por exemplo, as doenças da velhice) caindo em outro (por exemplo, morrendo cedo), e talvez por isso viver seja um verbo imperativo: porque as angústias da vida se somam enquanto que os males se subtraem (de todas as mortes que receamos experimentar, iremos vivenciar uma e somente uma única: eis que ninguém jamais morrerá duas vezes!).
Gosto de experimentar personalidades fortes, eis que a retratada no conto enfrenta adversidades, e as vence. Está portanto eleita minha heroína nesta semana!

Ana disse...

Ai, que saudade das suas vozes.....

Smack!

Sylvia Araujo disse...

Emudeci. Pois é.