Foto do blog: Mario Lamoglia

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Mantra


Fazer o bem, todos os dias, amém.

Sylvia Araujo

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Deslembrança

Num desses dias de verão, sentindo na pele escorregadia o calor viscoso que subia do asfalto durante o susto da chuva inesperada, fiquei parada ali, na esquina da rua vazia, com um dos calcanhares apoiado na quina imunda do meio-fio, os cabelos encaracolados já meio esticados encharcando aos poucos, a blusa de algodão quase sem cor prestes a admitir uma transparência beirando a indecência e as lentes dos óculos acumulando, impassíveis, um monte de micro-gotículas arredondadas cor-de-chuva. 

Não me lembro muito bem porque estava parada exatamente ali naquele lugar, mas sei que observei horas a fio, quase compulsivamente, as gotas pesadas e urgentes formarem poças enormes e se esparramarem em rios, do meio pros cantos do chão esburacado. É impressionante como a prefeitura não dá a mínima, mas disso a gente já sabe, pras crateras enormes que se formam e aumentam a cada dia mais aqui onde eu estou agora, que é onde eu estava quando chovia e de onde não me movi nem um passo desde então, sei lá onde isso fica ou de que maneira eu vim parar aqui. 

A questão é que, assim como a prefeitura, os donos dos carros de todas as cores e tamanhos e anos, com IPVA quitado ou não, não importa, também não dão a menor bola pros buracos, muito menos pra chuva, forte ou só aquela finíssima cortina incolor, que se foda, e eu me lembro como se fosse hoje, que nesse dia passavam quase voando, com a ansiedade própria de quem tem aonde chegar. Eles, comprovadamente, pode observar, têm mesmo muita pressa quando chove e, como sempre diz a minha mãe quando a tempestade resolve dar o ar da sua graça, naquele dia chovia à cântaros. 

Eu estava vendo tudo, desde o início, e me mantive muito atenta aos carros, todos eles, que corriam como loucos carregando pra longe uma ou duas pessoas, às vezes três, que inevitavelmente embaçavam os vidros fechados com as suas respirações asfixiadas e quentes como o verão. As rodas, que ninguém via porque estavam afogadas em tanta água, nem eu, que estava ali alerta há tanto tempo que nem me lembro quanto tempo foi, abriam apressadas uma estrada no meio do rio do meio da rua e, quando sumiam na esquina alagada, deixavam pra trás um rastro de cor, no tom exato da lataria do carro, misturado com o tom dos meus olhos marejados, mais o tom da chuva branca às vezes quase-azul. 

Eu não sei te dizer no que eu estava pensando enquanto me mantinha parada ali. Na verdade, nem sei te dizer se estava pensando em alguma coisa, qualquer coisa de concreto, ou se simplesmente eu era só um vazio em pé, debaixo da chuva forte, misturando as minhas lágrimas salgadas àquela água adocicada que caía do céu, esmaecendo as lembranças, deixando de ser qualquer coisa que um dia eu já tivesse sido por mim ou por alguém. 

O fato é que fiquei ali, com o meu all star branco lentamente acinzentando pra combinar com o céu que era muito cinza, que era quase preto nesse dia estranho, observando e vivendo a chuva, o asfalto, os buracos, os carros, e eu te juro que não me resta nada além de uma vaga lembrança de que talvez, e eu digo talvez porque os fatos me faltam e só me restar imaginar os porquês de todo esse equívoco, aquele tenha sido o dia em que eu finalmente decidi que iria me esquecer de vez.

Sylvia Araujo

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Pecadora e herege. Infeliz, nunca.

Quando você tem um problema dos grandes, as pessoas esperam te encontrar com a pele sem viço, com olheiras enormes, com dez quilos a menos e um monte de tristeza escorrendo pelos cantos dos olhos. Sorrir vira pecado. Cantar, então, se torna quase uma heresia. Parece que esperam que você cultive a dor e faça dela o seu jardim incolor, até que tudo se resolva - até que o problema não exista mais. Acontece que eu não vou fazer dos lamentos a minha música. Não vou deixar de amar, de dançar, de gargalhar, de aproveitar os mínimos momentos e ser feliz apesar de, ainda que. O problema não vai se transformar em fracasso, simplesmente porque eu não fui capaz de recomeçar, ou porque não tive a presença de espírito de zombar da cara dele, quando quis me derrubar - e desisti de seguir. O meu mundo não vai se espreguiçar cinza todas as manhãs e eu não vou me tornar um poço árido de rabugice e agressividade - não esperem por isso. Todos os dias, dou bom dia ao dia que levanta e vou. Pra que, quando no fim tudo enfim desanuvie, eu seja capaz de agradecer a mim mesma por ter conseguido mais uma vez e tenha alegrias  suficientes estocadas para superar os muitos mais, que infinitamente virão - até que a morte nos separe, amém.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Ruminante

Me faz falta dividir o silêncio com o teu não-dizer. O barulho das folhas virando, a fumaça dos cigarros dançando, o cheiro do café cor de piche - o baseado apertado, sempre à mão no cinzeiro. Caymmi ensolarando os dias chuvosos, Edu fazendo chover aqui dentro, os choros, os sambas, os jazz - você. Teu violão de cordas novas, tua voz liberta enchendo a casa, eu fingindo que nem via, pra deixar o teu momento inteiro - só pra te observar ser, comigo invisível ali. Aquela janela que adivinhava o azul do dia, enquanto a vontade de ficar estirada se espreguiçava no corpo exausto das tantas noites embaixo de ti. Eu esticava o olhar, de vez em quando, pra matar a saudade das horas seguidas em que a tua barba mal feita, tão linda, ficava sem roçar o meu corpo, enquando brilhava sob a nesga de sol. Você via? Eu só queria aquele quase-nada que era tanto, tanto!, que meu sorriso abria só de te ver dormir. Você roncava quando bebia demais. E falava sem parar, os olhos brilhando, as mãos bailarinas acompanhando de perto o raciocínio. A sua cara amarrotada, os seus montes de livros, o seu abraço apertado, as horas intermináveis em que dividíamos ideias e música. Eu era sua e você era o mundo. Não é fácil lembrar tudo isso, já faz um tempo que tento esquecer. Mas não deu. Porque muita coisa mudou depois de você. Porque descobri compartimentos aqui depois de nós dois. Porque você dividiu as minhas águas, foi o homem que eu sempre quis e se foi. E eu fiquei, latejando a poesia, a filosofia, a genialidade. E engoli tudo isso com um monte de saliva e lágrimas porque sei que assim, igualzinho assim, nunca mais aqui dentro de mim.

Sylvia Araujo

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O amanhã é mais bonito quando dói

Sentir é ultrapassar muros com asas imaginárias. É ter, bem dentro, um jardim inteiro e, nos olhos, os mares do mundo. É carregar consigo o cheiro das terras, o sopro do vento, as gotas de orvalho. E se deixar rodopiar pelo farfalhar delicado e fugaz de uma linda borboleta multicor. Sentir é viver, ser - embevecer-se. É mais do que muita gente poderia suportar. Mas pra quem dói - veja bem se não é assim - o renascer é como brotar sol, por detrás das enormes montanhas, em dia cinzento. É ter o azul se esparramando no peito bem devagarinho e nas pontas dos dedos guardar em segredo a doce magia de recomeçar.

Sylvia Araujo

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Súbito azul

E sobre a lucidez perene dos galhos, por entre as folhas verdes-modorrentas,  eu vi se esparramar exangue o  azul do dia - como se não soubesse que o seu fardo (por mais que pareça injusto, soturno e pesado) é ser vivido farto-inteiro, sem nunca, jamais, ter sido esperado.

Viver é feito de repentes.
Sylvia Araujo

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012


Eu só sei saber o que não se sabe: o desabrigo da pele, o descaso dos olhos, seu coturno - imundo - a esmagar as flores sem nenhum porém.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Até o nunca mais viver sem ti



Feriu-me irreversivelmente as retinas esse teu riso solto, branco, afiado - tão displicente, blasé. A pior das tuas armas, os dentes (sempre). E você bem sabe que assim, ligeiramente entortados, tão arte contemporânea - tão livres! - são sempre um forte agravo à minha condenação: querer-te imenso até o nunca mais viver sem ti. O golpe mais baixo - ainda mais baixo que a rebeldia dos dentes a fugir dos trilhos dessa tua boca bonita - é o tal meio-olhar de lado, também entortado, esse tanto-sarcasmo, meu deus! Essa santa transparência, aí, cor de mel que carregas; que me faz assim tão nua a mim, que ando bem vestida de medos nos últimos tempos; que ando incontáveis feridas abertas; que ando cega. (Vendou-me, o amor). E cega não enxergo as chagas, sou só planos: um dia, mistura homogênea-nós dois; um dia, um não saber inícios, nem fins - um dia nós.
Atados; eternos.
Um dia (a) sóis.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Mimetismo

Fechei os olhos e fui embora pro meu canto de pássaros e águas correndo. Me empoleirei na árvore frondosa, me espalhei em seus muitos braços, desapareci. Agora sou caule, folhas, seiva bruta - estou silêncio admirado da grandeza do verde, do profundo espelho do lago. Trago em mim os vazios do mundo inteiro, pra encher - gota a gota - dos mais delicados gorjeios. Sou ventre em asas, sou céu.

Soul
música
muda.

Sylvia Araujo

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Vácuo de repentinas faltas

Naufrágios. Fome de terra firme - ganas de ar queimando a garganta muda - afogamentos. Nas costas curvadas, milhares de quilos, ausências. No horizonte, milhares de pântanos, litros de vastos mares - nos cabelos, âncora. Um vácuo cheio de repentinas faltas, estúpidos faleceres e memórias rotas pulsando debaixo da pele: eu arranho a derme, arranco os vermes, soluço o vírus, o sangue contaminado, o pouco suspiro. O susto de um breve sorriso oblíquo, de quem não tem medo - e ainda assim treme (e teme o frio) - me enregela. A espinha eriça e as pupilas vagam, foscas. É pesado o punhal que atravessa o tanque e faz escorrer o viscoso óleo da vida. É brilhante a lâmina, é quase espelho. E quando a ferrugem se esparrama feito hera sobre a labiríntica maquinaria do coração, e a maresia emperra o respiro inconstante dos parcos desejos, são meus olhos chovendo sal - mais nada. Sou eu, desespero puro, me agarrando aos restos - as ondas crescendo, a cada segundo maiores, enormes, negras, pesadas, brutais. Sou eu, meus mesmos e inesgotáveis naufragares. Sou eu, insistente naufrágio em mim.

Sylvia Araujo

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Suspiro de uma nota só

Quarenta anos. Um pouco mais, talvez, mas não passava dos quarenta e cinco, disso estava certa. Os olhos diziam muito mais - eles sempre dizem muito mais do que a boca ou o corpo almejam - e traziam séculos dependurados nas bolsas escurecidas, que faziam moradia bem embaixo daquela beleza arredia. Eram bonitos sim, eram muito bonitos aqueles grandes espelhos cor de mel derretido. Mas por algum motivo, fugiam, perdidos, ela sabia. Escondidos detrás daquela cortina espessa e leitosa, eles sorriam uma tristeza bonita, de quem escorre e morre com fome de vida, de quem maldiz a sorte e deseja com todas as forças um amanhã reluzente de sol. 

Debruçado no balcão, de pé, ele virava um copo atrás do outro - as lembranças afogadas no líquido amarelado, o soluço asfixiado pela espuma branca. Ela, serena, de longe observava. Chegou até mesmo a ver, em uma micro fração de segundo, uma lágrima tímida e transparente que ameaçava, insistente, se lançar do parapeito ciliado. E acompanhou, atenta, os movimentos enérgicos imediatos dos braços, os gritos exasperados, a gargalhada enfurecida de quem descaradamente se aproveita da falta do meia-direita - em atacante do time de outro estado - para exorcizar seus próprios fantasmas, congelar seus próprios demônios. Ninguém percebeu o tanto de ausências que escondiam aqueles muitos excessos, mas ela, do meio do seu próprio buraco, assolada pelo dolorido reconhecimento da falta, avistou e doeu junto.

Em algum instante, que nunca-jamais saberão precisar, por conta do tamanho atordoamento daquele enfrentamento, se olharam. Subiu bailarino pelo pescoço esguio dela, tomando todo o seu corpo rígido, um cheiro  intenso e árido de desejo e medo. Um gosto de culpa, de auto-flagelo, de fracasso certeiro lhe amortecia a língua seca - ela virou o copo quase cheio, sem desviar dos olhos dele. Queria engolir aquela dor. Queria tomar pra si, fazê-la abraçar-se à sua, se derramar inteira. Queria dizer do amor. Levantou da mesa e se aproximou - os olhos mudos e úmidos a denunciar seu gesto contido. Bem perto, enquanto os cansaços se fundiam em um único suspiro de uma nota só, abraçaram-se com força - dois desconhecidos que se sabiam como ninguém. Olhando-se bem dentro, os dois precipícios amedrontados a entrelaçarem as lembranças e os futuros incertos, brindaram o amanhã - hasteada, tremulava a esverdeada esperança bonita, em um sorriso branco e feliz.

Sylvia Araujo

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011



Que a minha falta de ausências nunca afete os meus afetos.

(é tudo sempre o tempo todo em mim)

Sylvia Araujo

Bisturi




O pudor castra(a)dor de ser.

Sylvia Araujo

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Cantare


Cantava, invisível. Da garganta oca escapulia um blues rasgado, a dor imensa a evaporar dos muitos vincos. Pés descalços, no meio-fio andava - a pele escura em cacos; os sonhos, poucos. Arrastava os curtos passos e cerrava firme os olhos, enquanto o grave gravitava fundo na caixa ecoante e rompia em fúria os poucos dentes-muros. Toda uma vida de ausências sacolejava dentro da pequena bolsa em remendos. Tantos desditos-incertos explodiam no fundo daqueles olhos tão secos. Nas mãos rachadas, os rabiscos de todos os ontens. Eu senti seu medo, seu desespero, seu desconforto - confesso: eu me afoguei. E entendi, depois dos intermináveis minutos em que estive ali, observando, inerte, que todos somos invisíveis uns dias, muitas, várias vezes. A diferença é que alguns de nós cantam - a melodia a marcar, canina, o breve território da existência - enquanto outros apenas seguem, exasperados com o próximo passo, incapazes de ouvir sequer os seus próprios lamentos.

Sylvia Araujo

domingo, 27 de novembro de 2011

Carmim


Eu não sei. É que alguma coisa tá fora de ordem, tá fora de órbita, tá fora do rumo - sem prumo - me ajuda. Alguma coisa é muito longe assim, tão perto-dentro e eu não sei. Eu juro que não sei, me explica? Não, não tenho medo do escuro, é sério. Essa luz carmim, acesa o tempo todo, enfim, é só pra ver arder o muro alto - medir seu destamanho, enfrentar meu desconcerto. Você pode apagar o facho, se me envolver bem apertado nos teus braços, beijos: e eu te prometo nunca mais tentar fugir de mim.

Sylvia Araujo

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Crença, bença

Não. Não há cheiro, não. Há só um medo esparramado e morno que me diz das coisas que nunca me foram. É só um frio na espinha curva que sobe e desce, me tonteia, escapa. É caso sério esse amor tão grande. E ele ri quando respiro o não, cria covinhas se desacredito. Um riso livre, de fazer barulho, gargalhada pura de criança nua - a boca toda lambuzada - é mel. E eu lhe dou as mãos numa ciranda a sós, nos revelamos luas sem usar desfeitos. Ele sabe ser - o amor - maior! Eu pra sempre aprendo seu enlarguecer. Lá, no meu coração, danado faz ninho, caminho, soluço, maré-lua-cheia, me faz ser inteira. Longe ou bem perto, me oferece no cálice um sopro, um gozo danado de bom: nunca deixe de me acreditar. E vá.
Sylvia Araujo

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Ânsia


Chove
na rua
na carne
aqui dentro.

(e essa novembrância
a me arrebatar 
silente
feito 31
em final dos tempos)

Sylvia Araujo

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

(In)existência


Me impulsionam pelas matas densas pés descalços de curta vida. Pouco mais de trinta anos me embrulham frouxos o corpo sedento.  Sobre os dedos calosos, cortados, equilibra-se em patético malabarismo o expressivo peso da minha vontade - cambaleando, sigo. No início do caminho estreito, uma encruzilhada e um hoje-branco, estatelado em oferenda. Então, me deixo arrebatar pelo perfeito momento-presente eternizado em nesga de sol e aqueço. Esqueço os medos e esvazio dos meus tantos vãos. Sou agora só desejo escancarando os poros e esfregando pelo corpo inteiriço a felicidade suprema de estar exatamente naquele lugar. E estar quem estou. Da grama úmida, a certeza do incerto borbulha, amortecendo os passos. Sorrio. Inexisto na lembrança de uma veracidade inventada e desconstruo. Um suspiro rodopia altivo nas entranhas do nariz e me assopra curto recado do rio: siga. Frágil, pressinto aturdida o arrebatamento das águas negras- revoltas, mas os planos já estão desfeitos. Não há meias-voltas - me resta ir além. O rio que lateja em mim murmura: é pouco ainda, eu estou em toda parte. E quando irrompe inteiro nas veias, arrastando em enfurecida pororoca minhas tantas exatas exatidões, me faz rio. Inundada, so(u)rrio em incurável e irreversível deságue.

Sylvia Araujo

segunda-feira, 24 de outubro de 2011



Viver.

(do verbo cachoeirar-se)

Sylvia Araujo

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Fotografias

Engoliu o gesto ávido com pressa - o coração enxovalhado gritando o atalho que não deveria seguir. Um desconhecido e frio suor sulcava riachos, escorrendo em volúpia pelas mãos trêmulas. Na garganta, emparedada, uma estranha sensação de reconhecimento e intimidade formigava. Não é possível - pensou. Os olhos negros giravam nas órbitas durante o dolorido e profundo suspiro, que inchava lento e pausado a caixa toráxica lotada de impotências. Os dedos largos quase arrancando furiosos os fios ondulados e escuros sobre a testa. As pernas compridas, frenéticas em espasmos, entonteciam, escorraçando o desejo latente. Não é possível - grunhiu.  Cerrou os dentes, disposta a assustar os fantasmas. Não se permitiria exacerbar em seu mundo tão concreto e passível. Não se disporia a sonhar - que de sonhos já havia morrido demais. Fechou os olhos na intenção de negar os próximos passos, mas instintivamente estendeu os braços, enquanto o vento morno e suave atravessava as cortinas fluídas e lhe acariciava sutil o pescoço esguio. Sentiu o beijo, o toque, o sexo úmido. E aquela presença maciça a dedilhar profundo seus mais inalcançáveis segredos. Num rompante, cravando as unhas afiadas no dorso largo e viril do impossível, gemeu.

Sylvia Araujo

domingo, 16 de outubro de 2011

Cálice

Dão rasantes sobre minha cabeça palavras-asas abertas. Montes delas, de todas as cores, em letras garrafais ou miúdas, sobrevoam inquietas em silêncio cúmplice, olhando-se pasmas, reverenciando suas ralas verdades, bajulando e lambendo seus reles saberes. Desdenham de mim - pobre de mim - que não lhes dou ouvidos. Acredito que queiram me dizer algo, mas não há bocas para expressá-las no meio desse céu cinzento. E não desejo que falem. Calem-se! Que me saboreie o silêncio do mundo. Eu me quero cega. Nesse instante em que grito e dilacero por dentro, me desejo entranhas. Não me venham falar de flores, enquanto rumino espinhos. As letras são minhas agora - só minhas, saibam - e somente as que escolho a dedo povoarão meu cálice. Nelas estão a cura de todas essas feridas abertas. São minhas, e é de meu direito permitir que queimem, que ardam, que sangrem. De onde escorre o fel, brota também o antídoto de todo o mal que me corrói. Eu sou a lama e o sol que endurece o charco. Eu sou o medo e a coragem de ir além. Eu sou a dor e o maior amor que já tive na vida. E não descansarei um segundo sequer, enquanto em mim não reinar a paz e o seu absoluto e incontestável vir a ser.

Sylvia Araujo

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Luminescência

Não é preciso mais que pés no chão - a terra úmida fazendo vingar o amor por entre os dedos. Do mundo, em mim, lateja a inspiração eterna da simplicidade em flor. Do que necessito pra me encher de coragem e ir: do mar sem fim, desse imenso céu brotado de estrelas, do verde mato alumiando os dias, do vento morno e nu - que leva embora pra sempre tudo que não me cabe e sobra. No peito, bem guardado, carrego o segredo do tanto em quase-nada. E a certeza de que sou a revolução que hasteia minha própria bandeira. De que sou o vivo amor - e que, por ele, respiro e pulso.     
Sylvia Araujo

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Ah, Clarice...

"O caminho que eu escolhi é o do amor. Não importam as dores, as angústias, nem as decepções que vou ter que encarar. Escolhi ser verdadeira. No meu caminho, o abraço é apertado, o aperto de mão é sincero. Por isso, não estranhe a minha maneira de sorrir e de te desejar tanto bem. Eu sou aquela pessoa que acredita no bem, que vive no bem e que anseia o bem. É assim que eu enxergo a vida e é assim que eu acredito que vale a pena viver."

Clarice Lispector


Enquanto emudeço, ela diz por mim. E como diz bonito, a danada!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Oferenda aos ventos


Obrigada, minha nova estrelinha, por ter sido o ser humano especial que você foi. Criatura querida, zelosa - figura amiga. Uma das pessoas mais íntegras, justas e incríveis que já conheci - de quem sempre tive orgulho, por ter o mesmo sangue correndo nas veias. O meu "eu te amo" pra você é eterno.

Abra as asas, meu primo, que a imensidão dos céus agora é toda sua.


À Renato Scher - in memorian.

sábado, 17 de setembro de 2011

Amém.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A velha e a puta

Esticou o braço delgado para o ônibus e, ao mesmo tempo, em um improvável malabarismo, tentou encontrar as moedas perdidas no fundo da bolsa enorme de couro cru. Além do peso no ombro esquerdo, todos os dias ela carrega na outra mão uma pasta  cinzenta cor de chumbo que, pela sensação desconfortável de ardência na lombar, deve pesar, no mínimo, uns três quilos e meio. Clara é recém formada no curso de Letras da Universidade Católica e, além do trabalho em três escolas municipais, revisa e traduz textos em inglês. Sua vida, nos últimos tempos, tem sido levar papéis para todos os lados, o tempo todo.  Mas existe um porquê:  seu apartamento próprio de dois quartos na zona sul, de frente pro mar, estará quitado em dois anos, de acordo com os seus cálculos, graças ao seu esforço e à mesada gorda que o pai ausente deposita na sua conta poupança todo dia cinco.

Sentada no banco do meio, do lado do motorista, todos os dias repete o mesmo ritual. Apoia a pasta pesada no colo, abre a nécessaire bege, tira dela o pequeno espelho rosa em formato de coração e se olha nos olhos com complacência. Ajeita os fios loiros e finos na trança comprida meticulosamente repartida, passa pó compacto no rosto  branco com um pincel largo de cerdas curtas e espalha um batom quase imperceptível nos lábios rosados. Um suspiro. Dois. Guarda tudo na bolsa, puxa a meia calça na altura das coxas, ajeita a saia nos joelhos e a gola da blusa impecavelmente passada, esfrega a ponta dos dedos nas laterais dos sapatos lustrosos e abre um livro, que só é fechado na esquina de casa.

Nesse dia, no ponto seguinte, na altura da Voluntários, subiu  as escadas do ônibus, com  considerável dificuldade, uma senhora obesa de cabelos  curtos ensebados, trajando um jardim de maxiflores multicoloridas, do pescoço atarracado até o meio das canelas cabeludas. Depois de se arrastar lentamente pelo corredor estreito, desabou ao seu lado, ofegante. Lambendo os fios do bigode escuro lotado de gotículas de suor amarelado, perguntou, numa fala entrecortada e ríspida, se Clara poderia fazer o obséquio de ocupar menos espaço, para que ela pudesse caber também no banco. Solícita, Clara fechou o livro com o indicador marcando a página e, timidamente, se desculpou, tratando de espremer seu corpo franzino de miss entre a velha e a meia janela rachada imunda.

Sem agradecer, a mulher observou por alguns instantes a capa do livro em suas mãos de dedos finos e esmalte transparente e, com um olhar que fez a espinha da garota gelar e seu corpo tremer inteiro em um arrepio incontido, perguntou:

- Bukowski?
- É... - respondeu Clara, quase com medo.
- Gosta?
- Sim.
- Puta. - grunhiu a velha, entredentes.
- Como?
- Puta. Vagabunda, perdida, biscate, rameira.
- Desculpa? A senhora está me ofendendo? - perguntou, sem conseguir acreditar no que ouvia.
- Se lê Bukowski, e gosta, é puta. - cuspiu enraivecida a gorda, já se levantando para sentar duas cadeiras atrás.

Com as ofensas inesperadas rodopiando dentro da cabeça, Clara segurou o espelho de novo e se olhou demoradamente. Deixou que cada uma daquelas palavras preenchesse todo o espaço da boca e as repetiu para si mesma, uma a uma, observando, cautelosa, cada movimento labial no reflexo do coração rosado: Puta. Vagabunda. Perdida. Biscate. Rameira. E sorriu. Arrancou o elástico que prendia a ponta dos cabelos sedosos e soltou a trança perfeita com os dedos compridos. Limpou a boca insossa com as costas das mãos e tirou da nécessaire o batom vermelho, aquele que tinha comprado na revista da Avon mas nunca teve coragem de usar. Abriu os dois primeiros botões da camisa e encurtou a saia, dobrando o cós até que ela chegasse ao meio das coxas bem torneadas. Levantou do banco exalando um cheiro rascante de fêmea e, consciente do poder que carregava nos quadris, ao avistar a velha senhora piscou um dos olhos, a língua úmida desfilando abusada entre os lábios carmim, enquanto puxava a corda presa no teto. Em cima do salto, desceu e seguiu. Inteira puta. E magnanimamente feliz.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Tratado das Pequenas Grandes Coisas

Sentados na borda do rio, bem em cima do arremate verdinho de grama molhada, Cecília e Antônio sorriam com as cócegas da água translúcida nos seus tornozelos-meninos. Há algumas rugas atrás, decidiram de comum acordo se fazerem rotina: um pra outro, outro pra um. Pra isso, assinaram no papel manchado do pão doce da Dona Norma que, despencassem canivetes ou balas de goma - ou seja lá o que caísse do céu - todos os dias se encontrariam depois da escola na terceira árvore, dois suspiros depois do barranco do Zé.

Nessa terça de céu azul, o Tratado das Pequenas Grandes Coisas precisou ser esticado na copa da árvore mais alta do campo e ficou por lá dois dias seguidos secando ao sol, porque Antônio não resistiu e lambeu até com as bochechas todo o creme que estava grudado na parte de baixo da folha, bem pertinho do rabo do "o" da palavra silêncio. Cecília achou graça da cara de sem graça de Antônio e riu pra valer, afinal, o item mais importante do combinado dos dois carregaria para sempre a marca da lambida do amigo - a ausência de palavras seria úmida e doce, até que deixassem de ser crianças e brotasse neles a necessidade de dizer coisas e mais coisas para serem entendidos - um dia sempre deixa de bastar o não-dizer.

Aproveitando o muito que é o quase nada dos poucos anos, Cecília e Antônio seguiram os dias com a falta de regras das suas novas regras debaixo do braço. Davam-se as mãos aos meios-dias e, sem trocarem uma única frase, seguiam sem pressa pra beira do rio, onde sol após chuva, chuva após sol, mergulhavam os pés descalços na água gelada e aproveitavam cada um seu próprio mundo, com todo aquele enorme e excitante mundo em comum.

Hoje - Antônio ao sul, Cecília a noroeste, os corações suspirosos da mesma curva - desembrulham as lembranças com todo o cuidado, em pontas de pés, pra não fazer nenhum pequenino barulho; pra não acordar o silêncio que plantaram no peito tão bem plantado e regaram, dos seis aos doze, com aquele precioso papel lambido de pão e pureza.

Sylvia Araujo

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Inferno em poás

Quem me dera um par de asas
coloridos apitos
confetes
línguas de sogra:
carnaval a gosto
num quase-setembro
- quem me dera um ombro
sem tempo.
Um frasco de ar puro
- novo pulmão:
quem me dera eu-outra
não essa dor multidão.

Tem dias, me quero poeira
- rastro pouco
muito vento
(longe).
Quem me dera, sim,
um não:
ecoante e redondo
feito um sonoro palavrão.

Sylvia Araujo

segunda-feira, 27 de junho de 2011

você
que tem medo e desejos
que sonha alto:

teu mundo lateja em mim.

Sylvia Araujo

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Tua, inteiratua

Preciso
mergulhar profundo
na melodia doce
dos teus olhos
vastos.
E lamber
esse teu cheiro
vivo
de janela aberta,
(im)perfeito amor.

 
Sylvia Araujo

terça-feira, 24 de maio de 2011

A vida é tanto, meu amor...

Você pega o papel amarelado e vazio. Olha ao redor do quarto pelado, perdida no enfrentamento, afogada no próprio umbigo. Por mais que seus olhos secos insistam em dizer que não, eu vejo o tremor da folha entre seus dedos escurecidos pela nicotina. A quarteirões inteiros de distância, eu sei que está histérica, anda neurótica, arrancando os cabelos, a ponto de panfletar banalidades no chá das cinco. Literário, né? Um momento único para trocar impressões sobre obras e sobras do que muito mal sente. Babaquice. Você mente, cínica. Descaradamente. Faz tipo fashion, claudica no salto, maquiagem aos gritos. Bate no peito, se diz bem resolvida, dona de si e do próprio nariz. Tem dó. E o que fazer com as palavras que dançam na sua frente quando a visão embaça? Você sabe, ou vai continuar em branco? Falsa. Pequena burguesa metida a besta, pseudointelectual de merda, é isso que você é. E ainda tem a desfaçatez, sorriso de canto, de dizer a deus e ao mundo que não me quer. No chá. E tomando café, só pra contrariar. Porque você é assim, anda contra a maré pra provar que sabe muito bem o que quer. Mas quando desmonta a armadura, cabelos molhados, cara limpa, pé no chão, é tudo vazio, não é, não? Eu abri as cortinas, te apontei o silêncio, você pôs pra tocar um lançamento irlandês. Eu dancei nu na sala, de braços abertos, você com o Jabuti do ano pesando entre as mãos. Fiz massa com o manjericão do canteiro, mas a sua dieta dura o mês inteiro - pra entrar naquele vestido apertado que pagou uma baba, sem nem te caber. Eu tentei fazer com que você enxergasse a imensidão do quase nada. Me esforcei pra que percebesse que o vazio é um vaso cheio. A vida é tanto, meu amor. Mas você - a tempo, ainda - é pouco demais pra mim.

Sylvia Araujo

segunda-feira, 16 de maio de 2011

É tudo (um) vão, esquece.

Arranca com as unhas que restam essa dor tamanha que te corrói a alma, vamos. Enterra esse maldito peito soluçante desesperado, rumina esse medo. Mastiga trinta vezes essa fome impiedosa de amor - cospe com força. Você não merece engolir tanto não, vambora, não chora. Prepara a fogueira com calma - uma a uma todas as cartas de amor - e taca fogo. Deixa arder o tempo. Aquece esse corpo possuído por calafrios. Vomita, grita. Grita com força até te faltar veneno. Expurga as palavras - não faz mesmo sentido guardar tanta letra, dentro ter tanta coisa - é tudo (um) vão, esquece. Sacode esse corpo, se enfia na chuva, se deixa escorrer, não foge. E sente. Sente o dia que nasce, sente o abraço do amigo. Tateia o vazio no peito e sorri o recomeço. É hora de voltar a encher: um sorriso branquinho, um vento de maio, um arcoíris no céu, um ronronar de gato. E um mesmo amor, novinho em folha, para acreditar.

Sylvia Araujo

sábado, 14 de maio de 2011

E.M.O.C.I.O.N.A.D.A



Música, voz e violão: Janaína Mesquita
Letra: Sylvia Araujo

Obrigada, Nanamore, por esse sopro de brisa no meu dia sem sol.
Te amo. E é pra sempre.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Vou deixar esse post com o link aqui, pra não apagar os comentários lindos.
Obrigada pelo carinho de sempre, queridões!

Uma beijoca


http://www.youtube.com/watch?v=ZbsvuHlx0Z8&feature=share




Dói.

(absurdamentemuito)



sexta-feira, 6 de maio de 2011

Expressamente, amor.

Ela gira a maçaneta e afunda o pé direito no carpete vermelho.
A mesma sandália de ontem, reparo.
A mesma bolsa, a mesma calça - o mesmo rasgo na coxa direita.
Não é a mesma, hoje. É outra.
Enfeitada de inteireza, vem sinuosa, lânguida.
Atravessa a porta, silenciosa, e mistura seu cheiro de fêmea ao gosto árido do meu cigarro ao meio.
Parece enevoada, suspensa, etérea.
Eu observo a maneira como mexe nos cabelos ondulados e umedece os lábios finos.
Seus dedos compridos de unhas malfeitas carregam, impressas nos movimentos, as formas de um corpo maior que o seu.
Seus braços de bailarina estão mais expansivos.
Os gestos, enérgicos, cheios de vida.
Ela transpira sexo selvagem.
Expõe tatuagens temporárias no pescoço, no rosto.
Seu respirar entrecortado soluça a eternidade de um sublime gozo.
Fecha os olhos e suspira, como se ainda estivesse estirada sob o úmido peso do amor.
Puxa a cadeira da mesa do canto e pede um expresso em xícara quente.
Na espera, seus olhos cinzentos se perdem nos abstratos tortos da parede branca.
Eu me perco nela.
Reparo no movimento sensual com que rasga a ponta do pacote de açúcar com os dentes e lambe os dedos melados.
Vejo seus lábios rosados entreabrirem e tocarem, suaves, a borda da xícara fervente.
Sinto na língua ávida a temperatura aveludada do seu café.
E o calor daquela boca imunda, tomada toda de outra boca qualquer.
Tenho em mim seu tremor intenso na cama larga.
No corpo febril, me apossam seus espasmos intermitentes.
Levanta de repente e toma o último gole, já morno, de pé.
Dobra um guardanapo ao meio e deixa que ele absorva a gota acobreada que se dependura no canto estreito da boca.
Eu vejo quando abandona a xícara, quando abraça a bolsa, quando se despede das lembranças sem olhar pra trás.
Eu vejo quando vira as costas e parte de um ontem cálido, pisando confiante em um amanhã só dela.
Ultrapassa a porta mais mulher e vai.
Eu fico.
E me levanto, e seguro com a ponta dos dedos o seu desprezo no papel manchado.
Enfio no bolso da calça os sentimentos amassados da noite felina que ela decidiu esquecer.
Levo comigo seus beijos, seu gozo, seu gosto.
Para que nunca me esqueça daquilo que nunca vivi.
Para que, ainda que nunca mais volte, ela jamais parta daqui - de dentro mim.

Sylvia Araujo

terça-feira, 12 de abril de 2011

Agora é tempo que não existe.

Serpenteia lentamente, descendo sinuosa pela janela embaçada por úmidos suspiros mornos, uma chuva esfarelada, tardia. Nos olhos dos que entontecem diante do milagre das gotas, a incredulidade. E um desejomedo enorme de se fazer tocar pelo cristal amolecido - com a ponta das pestanas - pra saber, enfim, a dor da chuva que pinga do céu; e não do peito. O cheiro dos diasmesmos, há anos enraizado ali, se fazia amarelopoeira encrostado em pardacentos narizes - trincas na terra batida, dedos sem unhas, doídas ausências do que nunca existiu. Mas hoje, o tempo da casa vazia sem teto fede a um bolor umedecido de lama e lamentos. Fede a vida que vive, entrecorta respiros e se arrasta, sedenta. Hoje, o tempo, o mesmo tempo de todos os tempos, abandona sua gasta previsível couraça e se veste de agora - esse agora que é tempo que não existe, que é quase tempo quase vivo; esse agora que é broto dentro, esperança ateia.

Nunca houve um amanhã. Nunca houve um logo mais, ao entardecer. Jamais se soube, naquela planície estanque, de um dia após outro dia, de uma fruta apodrecendo em seu ritmo, de um rio sussurrando nasceres, de um começo ou de um fim ou de agoras. O ontem é só referência pra morte, dali a lei diz, e ao que não vinga não cabe findar-se. A mesma luz abafada e perene rodopiou anos a fio em círculos concêntricos por um campo eternamente brotado de nada, dia após noite, noite após dia. Parecia existir apenas para dizer aos poucos que restaram que, ali, naquele início de fim de mundo, onde nada morre e nada vive, onde nada amanhece ou anoitece, não há finalidades e tudo é pra sempre, que não adianta sequer tentar morrer, pois não se pode terminar o que jamais se começou. Durante incontáveis gerações sem chuva, o dia foi um enlouquecido torturante repetir-se em si mesmo. Um não viver ainda que vivo, morto.

Aqueles olhos, escondidos atrás das janelas salpicadas de vida, observaram atônitos o nascimento das coisas e o ágil refastelar das heras nas paredes nuas. Segundo após segundo, terras se abriram e delas romperam, febris, frondosas árvores e brilhantes arbustos. Pequenos pássaros nasceram de asas abertas e, das fendas no chão rasgado, rumaram aos bandos ao encontro de borboletas e gaviões. Lambaris, lagartos, sapos e grilos, rios e mares, flores silvestres, grama nova, tudo borbulhando aos borbotões da terra enlameada. Os olhos, famintos em sua esterilidade inata, com a violenta força de algumas poucas lágrimas frouxas, choveram. Choveram por horas e horas para que, junto com a terra e seus recém-nascidos amanhãs, pudessem também fazer nascer e morrer o agora, dentro de si. Com um gosto adocicado e vermelho descendo suave garganta abaixo, abençoaram, sem um único piscar sequer, aquele primeiro e último alvorecer.


Sylvia Araujo

domingo, 3 de abril de 2011

Muda sinfonia




É longe, a noite.
Ainda que aqui
- em mim -
é braço inteiro de distância
mais dois sorrisos
murchos.

É dentro, o escuro
que engole a chama tremulante
e vara
os dois pontos brilhantes
- equidistantes -
do teu céu.

Fecha os olhos
e canta,
que amanhã
azulo.

Sylvia Araujo

sábado, 26 de março de 2011

Duro poema cru

Outoneço. Desverdeada, busco insana um porto onde espreguiçar o olhar - esse olhar que hoje me esparrama tristezas que até as palavras ir-reconhecem. De dentro, vem em golfos lava fervente que me escorre, abrupta. É súbita a destemperança que reveste de escureza esse tão cheio vazio que me carcome as tripas: é urgente o nada a dizer. Portanto, nada digo para que não se gaste o gesto - escoo em tortuoso e duro poema cru, o medo. Sozinho-me em desbotados instantes meus e anoiteço letra - ela há de empacotar com cuidado os miúdos haveres, há de dar fim ao que não se presta a ser sol.  No espelho trincado, aquela mesma conhecida imagem nuveada, cinza. Na ponta dos dedos, a desesperada poderosa transpiração dolorida dos enlouquecidos de amor. Ajeito, então, uma vaidade qualquer no corpo ainda rígido e sigo. Porque, do coração, já me escapuliram há tempos as rédeas das mãos.

Sylvia Araujo

quarta-feira, 23 de março de 2011

Maneco

Maneco é nomecarinho, apelido de Manuel dos Santos Anjos, dado por sua mãe de frágil raiz, ceifada poucas horas depois do sofrido parto. Doente do coração, desde nova dividia o peito com o vento morno que lhe soprava dentro e lhe fazia palpitar em arritimia a bomba falha. O quanto que de ar faltava era o mesmo tanto de amor que brotava, enquanto acarinhava embevecida a imensa barriga, morena e redonda feito lua inteira. Trazia Maneco no ventre e, com ele, seu eterno continuar em botão de flor. Maria sabia e ninava a certeza da poesia que crescia dentro de si, cantarolando baixinho seus intocáveis amanhãs.

Sozinho, filho de pai desaparecido e mãe enterrada, neto de avós distantes e sobrinho de não se sabe quem, cresceu aos trancos e barrancos no meio de incontáveis sementes ocas que não germinaram. Na terra árida e endurecida - não se faz ideia como - vingou. Inexplicavelmente, manteve-se firme e ereto sobre os estreitos caniços, que até hoje exibem distraídos mais marcas que sua própria pele azeitonada - lembrança irrefutável de Mariamorena. Cópia quase perfeita de sua mãe - exceto pela ausência de alguns poucos dentes - Maneco, em osso e pele, minuto a minuto resistiu. 

É março. Chove copiosamente em um Rio de Janeiro cinzento, e do asfalto esburacado brotam, a cada segundo, lagos amarronzados pontilhados das mais variadas imundícies metropolitanas. Entre guimbas baratas - carimbadas por carnudos lábioscarmim - e prisões plastificadas de espermatozoides malsucedidos, tem de tudo - uma variada gama dos dejetos humanos mais inúteis que se possa cogitar. Há quem pise em cheio nas fundas poças e maldiga dez gerações futuras mais seis passadas. Há quem simplesmente afunde e chore chuva. Maneco, aos vinte e poucos, em mangas de camisa e chinelos de dedo, sentindo as gotas beijarem seu corpo e cantarolarem no meio fio da vida, enternecidamente sorri.

Ele anda indiferente aos atropelos do centro da cidade apinhado de guarda-chuvas multicoloridos em pé de guerra. Eles se estapeiam, os mumificados ausentes donos dos para-águas. Ferem-se mutuamente com suas pontas afiadas cheias de ferrugem alaranjada, com seus cotovelos pontiagudos, com seus olhos vítreos - frios feito punhais. Maculam quem passa na medida exata com que arranham a si mesmos, todos os plúmbeos dias. Só ele vê. Com seus olhos de Midas - herdados de Mariamãe - só Maneco é capaz de ver a vidaviva que se pode viver, quando não se tem mais nada - coisa nenhuma a perder.
 
Sylvia Araujo

terça-feira, 15 de março de 2011

(Re)Para e Re-começa




Repara, amor, com cuidado, o som de veludo que ecoa das nuvens, quando escorregam as fofaspantufas no teto estrelado, escuta. Repara o halo azulado daquela com laço de fita e sente, ao longo da espinha, o calor que esparramam seus braços, enquanto rodopiam - imensos - de encontro ao dourado do sol. Repara, pequeno, o verdedoce gostoso dos dias, o poder da ínfima gota, a inteireza brilhante do extenuante caminho do broto, germina. Repara os dedos compridos da chuva que tamborila cantigas serenas, no embalo do teu justosono, acalenta. Repara, de olhos fechados, a imensidão do horizonte do mar - as negras ondas, a espuma farta, a luatoda em mergulho nu, submerge. Repara no roto, no feio, no sujo, no espelho - repara em si mesmo, alimenta. Repara o nada que vibra no fundo do peito, repara o vácuo, o liquefeito, revê.  Repara, meu filho, repara a vida que escapole da terra molhada e te acarinha - suave cetim. Percebe o sutil e inesgotável prazer que os rios têm em sempre recomeçar. E re-começa - todas as vastas manhãs.

Sylvia Araujo

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

- fenda, ferida funda -

Armada, armazena tocaias e arapucas. Foge. Esnobe, manda e desmanda. E sangra, e escorre, e grita - estapeia(-se?). Minimiza – máxima - e, tácita, entreolha ácida o que nunca foi. Assim, alheia, desmancha, deteriora -  em-pó-(p)rece. E chora – implora - se faz falta, evapora. Ela ama! Ah! É toda cama - ama como nunca na vida amou! Mas já é ontem quando o sol desiste. E ela sabe. E invalida, inválida. E insiste, arrasta o nunca, empurra, afasta. E se arranha inteira - metade arrancada. Não cabe! Ainda assim, buraco dentro – fenda, ferida funda - nunca cabe o que se ausenta. É um tanto de peito inteiro - é vácuo. É receio, névoa, neve derretida. Ela é partida. Sem linha de chegada, desejo: o suspenso etéreo desejo de um primeiro - e último! - beijo.
Sylvia Araujo

sábado, 8 de janeiro de 2011

Entredentes

Aquela boca - admirável talho carnudo engolidor de nuncas. Jamais me permiti o destempero de dizer nunca àquela boca, sendo. Ela é - inteira ela, e sempre, a boca - um corpo inteiro em arrepio etéreo, um quase-incêndio, fogo entredentes. Um mundo vivo e pulsante, a se dissolver lentamente no acentuado côncavo daquele céu - não há estrelas, mas mel.

Traz consigo, tatuada entre os talhos ressecados pelas jornadas de excessos - beijados por seus fartos pelos de aurora - a réstia de um beijo, eu sei. E o brilho pegajoso das máximas urgências que construíram ninho, ao longo dos anos, em sua delicada fenda rosada. Todos os dias ela amanhece em fresta, e se faz de ontens. Mas é inteira amanhãs, em mim.

Seu canto me enluara. Faz do meu sertão flor da pele, lua – inteira nua - por entre as nuvens fartas. E arrasta consigo - debruçado no contorno sutil dos lábios entreabertos - o resto das noites brancas em que me escorreu, entregue. Ainda que haja luz, abraça com a ponta da língua o sal dos escuros da chuva. Ela chove, a boca. É relâmpago, raio, trovão – alto-mar bravio, em zanga de furiosas águas. E sorrindo, - bonita sabedora de seus tantos encantos - ensolara, gargalha e geme, como quem esteve sempre vivendo ou sangrando.

A mando de dentro, brota. Em gotas. E – em inevitável destino-caminho – se encarrega, sozinha, de virar rio aqui.

Sylvia Araujo

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Um(idade)



Caudaloso rio
esse teu branco corpo 
de águas doces-claras.
Dentro de si
arrasta mar
aberto-vivo
por entre
as pedras lisas.
Turbulento e revolto,
é úmido
teu bem-querer -
poesia-nua
de albatroz
em caça.
E eu,
sardinha,
 brilhante e estapafúrdia 
sardinha,
pronta
pra ser devorada
por ti.

Sylvia Araujo



"Se algum dia nos fosse dado mergulhar nesse oceano de minúcias e nus, no fundo, nos víssemos de perto e se suas mãos ásperas apertassem minhas coxas e abrissem minhas pernas e se sua boca sugasse de mim o que tenho de fluido e se você derramasse em mim sua seiva e me engendrasse seus mistérios e me amordaçasse com algas para que eu não gritasse e se seus dentes roçassem os meus mamilos e os marcassem e meus lábios lhe mostrassem outros caminhos e revelassem na minha língua seus segredos. Se algum dia nos fosse dado, seria preciso gemer baixinho para não acordar os peixes."

Adriana Versiani

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ousadia

Esfregam-se em meu olhar
todos os dias
infinitos olhos.
No fundo de todos eles
apenas um par
- e seu castanho-amendoado,
profundo mar -
que me olha
me estreita
molha
e espreita
que quase me cega
com seus tantos seres,
reféns-aprisionados
em duas íris só.

Dentro de mim,
dois olhos-chocolate.
Em você,
a bonita ousadia
de ser multidões
aqui.

(Tudo o que eu queria agora era poder sentir o cheiro do teu silêncio com a ponta dos dedos)


Sylvia Araujo

sábado, 27 de novembro de 2010

Drummond nos teus olhos


É dia de dizer coisas que não se diz a qualquer um, eu sinto. Enquanto você não vem, engulo as palavras uma a uma, bem enroladas, quase emboladas, e guardo-por-pouco-perco lá, bem lá no fundo do peito. No dia em que você chegar, muito perto, quase dentro, vou te saltar no pescoço largo e te encher dos meus melhores beijos, eu sei. E vou esquecer tudo aquilo que ia te dizer agora, nesse exato-angustiado momento, porque perto dos teus olhos de horizonte, toda a importância vira sopro e derrete - praticamente desaparece - bem no meio desse teu oceano lilás sem fim.

Sylvia Araujo



"Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa, do brinquedo que a gente não largava, do acalanto que o silêncio canta, de passeio no jardim. Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo. Corre em outras veias. Pulsa em outro lugar."

Carlos Drummond de Andrade



Pra Marte 
(Maurício Pereira)
http://www.youtube.com/watch?v=m5rTW1pBDyc

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Offline


Olhou no espelho depois de semanas ausente de si. A barba por fazer dizia das léguas de distância e da altura do muro que construiu ao redor. O fio branco e reluzente no meio da escuridão no alto da cabeça não era nada diante daqueles olhos sem vida. Eram seus, não havia dúvidas. Mas de quem seria aquela dor que não lhe doía, mas lhe havia matado? De quem seria toda aquela imensa falta de amor?


Sylvia Araujo

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Cíclico



Brotei
gota.

De um fino
filete
em nascente
de cachoeira
descendo o rio
virei mar.
Beijada de sal
ensolarou
evaporei
renasci
nuvem.

Hoje
choro
tenra chuva
na busca
da essência
de ser pingo
pequeno
e límpido
novamente.

Re-começar
em ciclo
pra sempre
outra

- gota.

Sylvia Araujo

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Borboleta nos trilhos


Caminhava, linda e delicada. Um passo após o outro - a ponta de um dos pés descalços, tocando cuidadosa o calcanhar seguro. Os braços abertos mantinham em equilíbrio o corpo leve e franzino, e davam a ela um quê de bailarina manca. Ela vibrava nos trilhos. E sorria inteira em sua falta de dentes, era pura inocência, menina. O sol rasgava o azul, e seus fiapos brilhantes atravessavam a seda dourada que voava ao vento. Um fio da trança quase solta beijava a flor meio murcha presa atrás da orelha pequena. Seus olhos seguiam o horizonte, como se lá estivesse guardado o maior de todos os tesouros. Ela comia o futuro com a avidez dos que carregam em si a certeza de nunca terem certeza de nada. O trem, suspirando fumaça em seu ritmo marcado pela rotina dos dias, vinha operário. A menina então, se afastou da rota e deitou no chão - os olhos cinzazulados cerrados, a respiração suspensa - sentindo subir pelas costas cada vagão, cada roda. Tocava toda pedrinha pontuda com a extremidade dos dedos e as levantava com um arco do fino braço, deixando cair uma a uma as notas da sua melodia. Era o trem, era ela, era a incerteza e a beleza do improviso em forma de criança ensolarada. Era a música dos dias, do cinza, do morto, e daquele amarelo brotado em tranças, escapulindo sorrisos pela janela da boca dela. Ela era casa aberta, sinfonia escorrendo pelas portas brancas. A locomotiva, altiva e certa em seu caminho indesviável, sem olhar pra trás, sorriu.


Sylvia Araujo

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Pequenezas

I.

Essa dor que carrego nas palmas das mãos - recém-nascida que grita de fome, enquanto eu não tenho mais peito que lhe alimente os medos. Ando paz. Caminho esperanças. Que grite, dor. Que berre. Que morra de fome enquanto eu vingo de amor.


II.

Ouvindo Vivaldi. E parece que os insetos também, em seu balé irretocável em volta das árvores. Sobem e descem, rodopiam - quase dão as mãos. E se separam, batendo as asas pequenas em Allegro. Por entre os bambus, a vida farfalha. O assobio do vento acompanha o mar que me corre por dentro. Cheiro a terra molhada. Encho enchente - barro(o)ca.


III.

No meio do mato, despertador é revoada de maritacas. Cantiga de ninar é grilo, que cisma em fofocar com sapo ao pé de estrelas. A música é o vento, que beija as folhas como se fosse seu primeiro e único amor. A beleza é a imensidão do nada - verde musgo com pitadas de azul-céu. E é pra lá que eu vou. Vazia, pra encher de tanto e voltar maior.


IV.

Trago no peito uma rosa em broto. Na mão, a faca - incapaz de decepar-lhe a vida.

 
V.

Vinha pairando - beira d´água. Os pés descalços assoprando ao vento a areia fina, as unhas vermelhas recém-beijadas de mar. Nos cabelos, trazia um cheiro de vida amanhecida - transparente poesia. Cruzei seus passos, a dois centímetros de tocar sua mão. Ela me olhou no susto do vácuo que o tempo fez atravessar seus dedos nus. E naquele mel, derretido, eu vi. E tive a certeza mais certa da abelha: o meu caminho era ali.


VI.

Tudo que queria era aquelas mãos de pianista, os dedos ágeis e longos desenhando o contorno dos seus olhos à meia-luz. Adormecer com a serenata das falanges compridas rascunhando suas sobrancelhas fartas. Sonhar com notas de marfim. E amanhecer melodia.


VII.

Os olhos sussurram. Silenciam, lamentam, sorriem. São janelas escancaradas ao pôr do sol morno e às tempestades enraivecidas. Jardins brotados, cores. Desertos - areia e vento. Pedras de gelo, diamantes. Brutos. Os olhos vão, me são, tensão. Eles estão - um fio. Fino, leve e vivo - ligação direta dentro-fora, aqui-além. Coração que escapa. Peito que vê. Sou toda olhares.


VIII.

No meio de um soluço, a iluminação. Foi um erro - broto do desespero por sentir-se vivo. Abraçou o violão e compôs um tango. Rascante. Que lhe cortou os dedos e lhe arrancou o sangue em suspiros mórbidos. Dez mãos de terra e o sepultamento - sorriu.


IX.

Andava vazio. Cada pedaço de mato, de riso, de espanto, fazia crescer a montanha no canto do peito. Até que um dia ela veio. E brotou bonito pelos olhos - seus galhos verdes anunciando a primavera. Então, ele ventou com força e espalhou seus cacos - abrindo espaço no coração - pra que ela pudesse espreguiçar seus sonhos e hastear, enfim, a bandeira da invasão.


X.

No início, parecia uma valsa. Aqueles rasgos vermelhos na boca do céu - dois pra lá, dois pra cá. Os gritos me remetiam a um coro, uma ópera, talvez. De olhos fechados, eu tentava afastar aqueles olhinhos brilhantes. Eles tinham a vida magnetizante de uma bala de fuzil e insistiam: por quê? Eu não sei, anjo. Eu não consigo entender porque um homem deste tamanho carrega nas mãos um brinquedo que mata. E esse sorriso idiota na cara.  


Sylvia Araujo

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Às moscas



Diante do álbum amarelecido pelos anos de clausura na gaveta dos esquecimentos, espantei-me ao ver radiante aquele garoto mirrado. Ostentava, do alto do trono da infância, um sorriso branco e sincero - ainda que incompleto e distante. Já não me recordava daquela felicidade sem pretensões. Daqueles olhos translúcidos, daquele peito aberto - daquele eu sem medo. Esbocei incrédulo, frente à fotografia gasta, um meio sorriso oblíquo. Não pelo que sou hoje - esse velho decrépito, lacrimejante de ontens em preto-e-branco - mas pelo menino inteiro do qual me vesti nos anos idos. Pelo que poderia ter sido e fracassei, acovardado. Por aquele que - pelo acaso dos passos na mata fechada dos sentimentos daninhos, que me atormentaram anos a fio - desencaminhou-se e perdeu-se para sempre de mim. Uma lágrima gorda atravessou-me os vales vincados do rosto. E apreciei, salivando, seu gosto amargo. Como quem arranca de uma vez um naco de vida dos dias mais verdes. Como quem inspira 50 anos de árvore em um só segundo. Eu não queria ter amadurecido. Poderia ter evitado as moscas asquerosas, flutuantes sobre a minha decomposição. Ainda assim, apodreci.


Sylvia Araujo

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Mãos ao alto


Enquadrou o meliante. Depois da revista geral, um tête-a-tête. Assaltante que se preze não desvia o olhar, nem se rende fácil à intimidações. Ele era profissional. Chegou bem perto até as respirações se fundirem. O ar saindo de um e entrando no outro, num enfrentamento cíclico e asfixiante. Com a pulsação acelerada, puxou o gatilho. A bala perdida acertou em cheio e derrubou a seus pés o ladrão de corações. Ela pressionou o salto quinze de leve no vale de sua traqueia - enquanto ele acariciava com as mãos ásperas sua batata branca da perna - e sussurrou entredentes, com um sorriso de canto: perdeu!

Sylvia Araujo

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Ao meu rei Arthur



Arthur vem chegando num sopro de brisa. Antes de beijar demorado sua testa rosada e abraçar em aconchego o seu corpo franzino, já lhe faço uma coroa. Todos os dias fio uma volta: hoje é carinho. Ontem, felicidade. Amanhã, começo a enfeitar o alto da cabeça com as nuvens mais fofas - azulbebê. Arthur vem chegando com todas as flores e cores do mundo. E sorte. Muita sorte de conhecer o amor, antes mesmo de receber o primeiro sorriso. Porque eu amo tanto, que não cabe em mim a felicidade de conceber o meu primeiro sobrinho. Arthur é meu rei, de pernas cruzadas, nadando gostoso no quentinho do ventre. Ele é mais uma estrela dessa constelação que faz minha vida brilhar todos os dias. E meu peito ansiar fevereiro - já é carnaval aqui dentro.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Oceano em brasa


Aquele mar aberto
no fundo dos olhos.
Aquele sem fim inteiro,
flamejante.
Aquele sempre
aquele nunca
 aquilo tudo escondido
e entregue.
Aquele verdeazulado que grita
sem dizer uma única palavra.
Aquilo tudo em mim:
um nada-tanto tatuado
a ferro quente
no corpo em brasa.



Sylvia Araujo

domingo, 26 de setembro de 2010

F(r)io



Amolou a lâmina fina na pedra gasta e atestou o fio da faca na palma da mão. O aço cortante fez brotar um rio vermelho entre as linhas da vida e da morte. Faltou sorte. E um coração no peito. Com o olhar perdido no reflexo do espelho, afundou a ponta brilhante na veia saltada do pescoço. O colo arfante suspirando o último ontem. O frio do medo, o frio da lâmina, o frio do fio - tênue. Sangrou todos os medos, escorrendo todas as dores. E acabou. Sorrindo.


Sylvia Araujo

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Um cisco



No broto manso
o pavor da foice.
Já se nasce
à beira da morte
- diz a noite.

O sopro pálido
leva a flor de goiabeira
pra longe.
O vácuo frio
engole a chama tremulante
da vela  
- o pavio, a cera
o toque do tambor, o uivo.

Um silvo longo
anuncia o tempo
que mingua
estreito 
antes um cisco
do horizonte corar
diante de tanta beleza:

A aurora em mim.


Sylvia Araujo


segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Navalha


(Alto mar no final do horizonte - Joca Libânio)



À Joca Libânio e sua música perturbadoramente silenciosa.

Entorpecida.
Violada. Rarefeita.
Violentamente (desman)telada.
E toda. Viva.
Um mundo inteiro dentro
a regurgitar belezas.
Tão grande-imenso. Tanto.
Tão pouco santo. O manto.
Jardins brotando em fúria
de flor em cacto. Seco.
Rompendo estéril. Um risco.
Asas me rasgando o peito.
Nu.
Completamente nu. Alado.
No céu da boca, o sal.
A gota - gorda.
E no minuto seguinte a morte.
O calabouço. O medo.
E o calor da sorte
a me acetinar o frio.
E o sabor do vento
a me saltar dos olhos.
Enlarguecida.
Emocionada. Liquefeita.
Amanhecidamente enluarada.

(entregue)

Sylvia Araujo


quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Neutrino



Amanheceu lentamente em olhos anoitecidos. O peito, enfaixado ponta a ponta de silêncios, chorou baixinho - como quem murmura ao vento frio sentimentos indizíveis. Na cabeceira, a vela acesa da noite escura resistia. Pequena e morna, em seu amolecido derretimento de vela. Aquelas sombras enormes a lhe pegarem pelas mãos geladas. Aquele mesmo conhecido medo a existir sem. Aquele mesmo sem. A resistir só.


Sylvia Araujo

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Flor *



O sol está brilhando lá fora. E ela não tira da cabeça o dia em que viu aquela flor. Jamais sentiu tamanha doçura no coração. Mas não é a flor, é ela. As cores se misturando e o cheiro adocicado, apenas despertaram em si o sentimento de ser. A flor é. Delicada, perfumada e com traços só seus, não saem da cabeça de quem se deixa tocar pela profundeza, da simplicidade e da pureza que carrega consigo. E ela se deixou tocar, acariciar, deliciar. Viu - e sentiu - o poder da vida em sua simples carapaça de vida.

O mundo está correndo lá fora. E ela não tira da cabeça a flor que um dia viu, esparramada sobre o muro cinza - rachado, imundo. Estava lá, resplandecente - deslumbrante em sua importância de flor. Viu - e sentiu - o sopro de amor que vinha, e se deixou acalentar, alimentar, sorrir. Guardou pra si a amplidão do que viveu, naquele mínimo instante em que se deixou tomar pelo belo.

A partir daí, tornou-se a mais linda delas. Desencantou e se encantou com as sensações que o viver nos traz. Não é mais ela e sim flor, com todo seu encanto e ardor.

Sylvia Araujo

* Republicação



Queridos,
Mais uma vez peço mil desculpas pela ausência aqui, e nos jardins de vocês. Estou num momento conturbado, muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, e não posso desperdiçar as oportunidades. Quando não estou isolada nas minhas páginas em branco, apareço pelo facebook, pra rir um pouco e me distrair. Por enquanto, beijo vocês por lá. Em breve volto à ativa. Continuem torcendo por mim!
Beijoca enorme

terça-feira, 10 de agosto de 2010

B(r)aile


Sou
inteira
pedaços
fragmentos
cortantes
sílabas
impronunciáveis.

A lápis
me escrevo
à espera
de quem
me soletre
os relevos

- em braile.


Sylvia Araujo

domingo, 8 de agosto de 2010

Teatro

Ensaio de Marcia Medina para o meu monólogo Serial Killer. Em breve estreando em São Paulo.
Aguardem!

Parte I

Parte II




Arrepia a nuca ver um personagem teu criando vida dessa maneira tão intensa.
Obrigada, Marcia, pelo teu olhar profundo e pela tua entrega a essa mulher estranha!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Recomeço *


- É, fez sol. (Inevitável o sorriso no canto da boca - secosarcástico)

Ela fez de tudo pra tempestade que vinha esperando cair. Acordou sem dar bom dia aos gatos negros dos olhos melados, tomou um banho gelado e se postou nua - de frente pro espelho. Na cara, desgosto. Olhou. Se viu. Se absorveu. Aborreceu.

- Vai chover. Torrencialmente - desígnio que se deu antes mesmo de sequer abrir a fresta da janela.

Pegou a necessaire dos dias cinzas - aquela dos tons arroxeados - e espalhou na mesa suas cores de dor. Era luto o que sentia, e os olhos, a boca e os medos também sabiam da chuva. Sentiam. E foram, em ritual, se transformando escuros, marcados, doídos. Sorvendo em jejum o copo de água com limão, se olhou reflexo. Endureceu.

- Vai chover, trovejar, alagar.

Abriu o armário e foi direto pra gaveta dos esquecimentos. Estavam todos lá - intocáveis - os tecidos mais duros e coniventes de toda uma vida de entregas. Escolheu o que melhor combinava com as unhas vermelhas-descascadas enormes e pontudas, cultivadas especialmente para o encontro dos raios e trovões.
De sobretudo preto-imenso tampando metade dos rabiscos de morte multicores que gritavam na pele branca da batata da perna, sentou no canto do quarto. No chão. Colocou o coturno pesado como quem se protege da guerra, como quem nunca mais viu leveza. Com a cara e os cadarços amarrados com força, se fez nó - indissolúvel, intransponível. Levantou, pegou a bolsa cheia de dejetos e trapos e bateu a porta - certa da despedida.

- Já está chovendo, desaguando, desabando tudo; é sempre assim...

Mesmo de óculosescurosmaisescurosimpossível, sentiu a poderosa claridade assim que ouviu a primeira buzina, antes de atravessar o portão. E percebeu que - mesmo que queira e se prepare cuidadosamente para a chuva - quando o sol põe na cabeça de brilhar, ele vem. Não tem jeito. Fim.
Desordenada, encabulada e por fim divertida, largou os cinzapretos no canto da grade e saiu descalça, com a maquiagem pesada borrada pelos rios de incredulidade. Um sorriso de alívio, discreto, se fez notar nos lábios.

- É. Fez sol.

Sylvia Araujo



* Republicação com pequenas alterações.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Magia *


Suas mãos se assemelham a cansadas cordas de aço entrelaçadas. Quase sempre imóveis, só é possível vislumbrar as palmas - queimadas pelo calor das pedras - quando se rendem ao mímico diálogo com os pássaros pretos. Gestos ventados ao ar, os dedos desenham incompreensíveis contornos pouco acima da linha do horizonte, enquanto a boca seca cala.

Ela também é alada.

Seus cabelos, derramados ombros abaixo feito cachoeira prateada, têm como preocupação apenas seguir a inconstância do vento. Por vezes se embolam com as correntes ao longe e, de lisos, mimetizam em intermináveis vagas rebeldes. Eles vêm e vão, redemoinham e adormecem conforme a maré. Fios revoltos, não se distingue onde começa e termina seu corpo enquanto flutua.

Ela também é partida.

Sua pele é um conglomerado impreciso de retalhos que misturam rugas e cores aleatórias e marcadas. O corpo é delgado e frágil, e os ossos pontudos revelam por baixo do tecido duro e surrado uma silhueta friamente geométrica. Em postura triangular, mantém a espinha ereta e as pernas cruzadas - as rachadas plantas dos pés para cima. Com a cabeça voltada para o norte, tem os olhos sempre encobertos de névoa, mesmo nos tempos mais quentes, enquanto evapora.

Ela também tem segredos.

Sua vida segue sem que jamais tenha tentado transformar pura magia em meras palavras. Em seu mundo, letras são míseros rabiscos frente a imensidão gloriosa dos sentimentos que vibram. Ela não fala. Ela não escreve. Enquanto muitos a definem louca por inacessíveis e degradantes sinônimos, ela enxerga o vento e o beija.

Ela está muito além.

Sylvia Araujo



* Republicação

PS: Queridos, estou completamente atolada em textos inéditos e secretos rs e não estou tendo tempo para escrever posts fresquinhos e visitar vocês como gostaria. Um novo projeto está a caminho e logo-logo estarei de volta, firme, forte e presente, como sempre. Torçam por mim!