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Sylvia Araujo
Apaixonada pelas sensações. Pelas cores, cheiros, texturas... Pelos sons e sabores da vida. Meu desejo (mais que secreto) é reinventá-los. Todos - Quiçá o mundo!
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Devora-me ou te decifro

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Mentira é verdade que se perde no atalho da vaidade.
  
Sylvia Araujo 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Das belezuras de ser

"o que se desenha
a partir daqui?
o quão redondo é o som
de uma porta que se abre?
que cadência e ritmo
tem o cheiro do capim cortado?
o que é velocidade?
ter mãos é para ver;
pés, é para sentir o chão?
ter ouvidos é para saber
do gosto salgado do mar
na concha da mão?
silêncio
de escutamento."


Marcia Cardeal semeia liberta assim aqui.
  

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Exaustão


Depois de guerrear mais horas que preciso, vem afrouxando o nó da gravata puída e desabotoando os punhos amarelos, cambaleante a caminho de casa. Mete a chave na porta e, quando pisa na cerâmica quebrada, pressiona a ponta do sapato surrado no outro calcanhar. Ato reflexo.
Pés descalços, larga a maleta lotada de papéis desimportantes em cima da única cadeira, puxa do bolso o maço amassado de cigarros e segue até a pia abarrotada de esquecimentos. Abre o frigobar vazio, apoia o copo de vidro lascado, enche de gelo até a boca e derrama o whisky de segunda - até cobrir a metade dos cubos.
Seu conjugado mede exatos cinco passos número 43 até a janela. Mais dois pra cada lado. Espaço suficiente para abrigar seu mísero ego de filho terceiro de mãe sofrida. Sôfrego por uma lasca de ar, segura com as mãos trêmulas o cigarro aceso e a poção mágica, e apoia os cotovelos no parapeito do mundo para observar o nada.
Abraça com força o silêncio pesado, enquanto rejeita todas as máscaras que se obrigou a usar durante o dia. Agora é noite. Já passou da hora de fazer alarde.
Repete a sessão cigarro-copo-parapeito até perceber o início da íntima dormência na ponta dos dedos e a aproximação dos sonhos bonitos. Satisfeito, abre o chuveiro no máximo e se afoga inteiro na água gelada, ao mesmo tempo em que cantarola baixinho a lembrança gostosa com cheiro de infância.
Quando deita no colchão antigo - exausto do tudo que foi, sem nunca ter sido - imediatamente encerra seus olhos turvos. Transbordando lágrimas secas e engasgos latentes, implora - com o peito aberto e os punhos cerrados - para não amanhecer vivo. Nunca mais.

Sylvia Araujo 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Ser flor

Magnânimo o deleite da flor sob a gota de chuva. Não deveria ser preciso mais, pra gargalhar profundo. Eu ainda arrisco que talvez lhe falte uma nesga de sol. Pequena. Sutil. Mas ela ri.
- A natureza não falha - melhor seria não ser tão humana.

Sylvia Araujo

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Cafeomancia

Como ousa? Como se atreve a me cuspir enganos, passar assim por cima dos meus planos? Vem me falar de flores, vem sussurrar amores... quanta insolência! - eu sou mil rancores. Não vê que a faca dos dias 'inda me sangra o peito? Que meus sonhos-poucos já escorreram? Cara de pau vir cantar futuro, esbaforir em lua, me hastear bandeira... Não adianta vir beijar minhas noites. Besteira muita vir me alar de azul. Caso perdido extrapolar meu peito de esperança-nua - ando vivendo crua.
Estúpida.
Maldita borra de café estúpida!

Sylvia Araujo 
 
 Carlos Drummond de Andrade

domingo, 31 de janeiro de 2010

Mais uns dias


Acordou com aquele gosto familiar de mel nos lábios. Tateou - depois de meses - o buraco que deixaram lá dentro as canções que ele sussurrava pros seus olhos vermelhos, naquelas noites tão secas de chuva. A ausência daquele incorruptível coração na bandeja - logo pela manhã - nunca lhe fez tanto mal. Ao menos isso ela sabe.
Fazia tempos que não remoía momentos. Nem recorda quando foi que o cheiro dos cubos milimétricos de manga madura deixaram de assaltar seus  bons-dias. Olhos no teto, se deu conta de que nunca antes havia pensado nisso tudo, desde que ele se foi.
Por isso, não conseguiu perceber com nitidez se as lágrimas gordas chegaram pra lhe dizer que ele faz falta, ou se era ela mesma que precisava urgente se despir na frente do espelho, pra se enxergar melhor.
Com as sobrancelhas grudadas uma na outra, se arrastou até o armário do banheiro, colocou umas três pílulas coloridas embaixo da língua e voltou a deitar.
Talvez fosse melhor esperar mais uns dias.

Sylvia Araujo 

Quem?

"- Seja sincera, Soninha!
- Claro.
- Como é que você veio parar aqui?
- Eu?"


Pedro Antônio de Oliveira faz mágica aqui

Pros pés


- Mãe, me empresta o seu chinelo?
- Te empresto as minhas asas. Serve?
Sylvia Araujo

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Hoje me exaurem os excessos.

Sylvia Araujo

Pois sim

Foto: Tiago Santana

"- Será que chove, Primo?
 - Capaz.
 - Ind`hoje? Será?
 - `Manhã.
 - Chuva brava, de panca?
 - Às vez...
 - Da banda de riba?
 - De trás."

Regionalismo brilhante de Sô Guimarães Rosa, em Sagarana.

O cheiro de cigarro de palha embolado com o de vento de chuva ficou impregnado nas minhas ventas. Nas suas, não?
Êta, hômi porreta!

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Santidade

" Sentada
com as pernas em cruz
largou-se feito louca
jurando que era santa,
e provava o milagre
a quem lhe pagasse pra ver:
tirava leite de pedra,
água de pau, melaço de carne,
e prometia o paraíso
a quem lhe alcançasse
o céu
da boca"
Raissa Bonfim

Renata Luciana entrega bonito assim aqui.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Sabedoria


Ele não decifra letras quando se agrupam, desde que nasceu. Me disse um dia - nos seus trinta e poucos - que sempre venerou a vírgula, mesmo sem poder chamá-la. Falou, com propriedade, que o ponto inspira a sabe-tudo - por isso lhe torce o nariz. O que não remete ao infinito, não quer mais pra si - só leva agora consigo o que tem cheiro de mar.
Quando lhe apontei as reticências, passou a vagar pelo mundo pintando três pontos em todo lugar.
Esse agora é o seu nome.
Esse se fez o seu lar.

Sylvia Araujo

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Almíscar



Numa noite quente de um Rio de Janeiro abafado e úmido, chegou como sopro de brisa fresca. Trajava roupas fluídas, muito claras - quase ofuscantes. O tecido transparente bailava no meio da pista lotada e ditava o ritmo da música. Aos poucos, seu magnetismo atraía os olhares incrédulos. Não era possível enxergar seu rosto, mas era fácil decifrar sua expressão. Ela sorria.
Com os braços abertos girando em torno do tronco - em movimentos de ondas - espalhava um perfume almiscarado, criando uma atmosfera em suspenso. Os corações pulsavam em um mesmo compasso - o que seus pés descalços marcavam no chão. Não se viam seus olhos, mas todos sabiam que estavam cerrados, ávidos pela energia que jorrava de dentro. Um a um - deixando de lado suas falsas histórias - os sorrisos foram nascendo, os cílios fechando, os braços se abrindo e os corpos rodopiando...
No auge do transe ela se foi, evaporando sutil em seu corpo de vento. Seus respingos de vida - cheirando a almíscar - pairavam agora entre as vagas que brotavam dos braços ondulantes, e beijavam cada lágrima liberta que escorria.
Ela sorria.
Mas dessa vez, de olhos e alma escancarados.
Sylvia Araujo 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Apreço



Quando as ideias escapolem às palavras,
Emudeço.
Recém inauguro um mundo seguro,
Sem tropeços traduzíveis.
As topadas que dou hoje
Não têm letras.
Nem som - nem cor -
Nem tampouco textura de dor.
Elas têm é cheiro de além -
Além-mar-azul-bem-doce-tenro,
Sem frases feitas ou efeitos crus.
Quando as palavras escapolem às ideias,
Não mais pereço.
Vivencio o apreço de estar enfim
Em mim.
Sylvia Araujo

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Saber Viver

"Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura...
Enquanto durar."
Cora Coralina

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Trilha sonora

Recipiente
[Maurício Pereira]

" Sou recipente não tenho forma
Porque sou areia do fundo do mar

Sou ilha, sou montanha
Que o navio perdido vai avistar
Flutuo, mergulho, sólido, interno
Secreto pesado sujeito a voar

Sou recipiente...

Sou o sol que bate na crista da onda
Que a lua noite vai abraçar
E quando a vejo lá no horizonte
Nosso amor a tarde afoga devagar

Sou recipiente...

Sou nuvem pousada no canto dos vales
Que o vento carrega
Deixando enxergar
A diferença entre o dia e a noite
A diferença entre a serra e o mar..."

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Cores de Almodóvar



Mesmo que Abraços Partidos, recém saído do forno, nos imprima as sensações controversas de que talvez tenha passado demais do ponto, ou ficado um pouco cru por dentro, não tem como dizer que o diretor espanhol perdeu a mão. A câmera pelos seus olhos faz mágica. Sempre. E mesmo ainda que não tenha me rasgado de amores por essa película - que não é nem de longe sua melhor direção - as cores de Almodóvar não largam minhas retinas, muitas horas depois de ter saído da sala de projeção. Seu olhar ousado e absurdamente criativo e detalhista tornam imortais cenas como a imagem refletida na íris de Lena, a lágrima escorrendo pelo tomate numa cena de Garotas e Malas, a praia lotada de pipas depois da recém cegueira de Mateo, as confissões de Judith vistas por fora da janela do bar, dentre tantos outros mimos à nossa alma.
Pedro Almodóvar é extraordinariamente genial. E eu aguardo sempre ansiosa sua próxima efervecente aparição.

Sylvia Araujo

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Alma de Noêmia



"Ela cantava. A voz me chegava de longe e se derramava no quarto como um bálsamo. Via então Noêmia tão simples, a falar com uma franqueza que não me chocava. Campos dizia que ela tinha alma de borboleta. Alma de quem não parava sobre as coisas e de quem corria livre ao sol, pelos campos, toda coberta de cores, como se fossem flores a voar."

José Lins do Rego, em Eurídice.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Nem mais um dedo

- Não me venha com esse riso frouxo dos alforriados, dos enlouquecidos! Eu não quero qu'essa alegria suja me corrompa os dias, me lambuze os beiços. Sobremaneira entenda que eu não tenho laços - não, não tenho traços. Está tudo acabado!

- José, não destrate tanto nosso amor de bodas... Não te quero entranhas, só teu riso fácil das camélias livres, das ervas de cheiro... Não rasgue assim meu peito, não arranhe os discos. Te suplico, amor, não assopre os sonhos!

- Eu não tenho sonhos. Eu não tenho medo. Sou o que me resta e nem mais um dedo.

Sylvia Araujo

Engasgo

Muitas das cores que hoje me margeiam vêm dos sorrisos engasgados do sol, em dias de nuvens muito cinzas - quase pretas. Esse luxo de simplicidade faz meu olhar crescer como as sementes que rangem aos pingos - que se abrem sorrisos ao alvorecer.

Muitos dos cheiros que me cirandam hoje vêm dos soluços engasgados da lua, em noites de nuvens muito brancas - transparentes, quase nuas. Essa luxúria de poesia faz meu coração saltar como os sonhos que florescem ao tempo - que abocanham sentidos ao entardecer.

E das desurgências hoje eu sinto o gosto, um sabor intenso que me toma inteira - tal qual engasgo de amor latente.

Sylvia Araujo 

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

“Viajar é isto, deslocar-se para um lugar onde possamos descobrir que há, em nós, algo que não conhecíamos até então”.
 José Saramago

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Pontual

E dentre maus tratos e destratos, fez-se um silêncio cortês. Brotou da estrutura doce do teu fel um mantra de paz. Talvez nem me queira mais, e eu ainda aqui, desarmando meu peito-armadilha fissurado em emboscadas.
Não é de hoje que me corrompe as idéias o teu caso obstinado com o vento. Sempre soube que tuas asas flanam onde meus braços não alcançam. Sequer tenho braços, quando teu calor aquece meu frio. Sequer tenho a mim.
Com ares de dama da noite, que só presenteia com sua beleza e suspiro em hora marcada, me frequenta quando convém. E o pior de tudo é que me contenta o sutil detalhe do minúsculo tempo que me oferta já partindo.
Você parte sempre.
E me reparte - poema insosso.
Sylvia Araujo

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Sem pudor

"Rezam as putas? O que diz Deus, dessas horas de orações sob a luz vermelha?
Sussuras pétalas à dentro. Alastram-se intimistas, perfumes suicidas pelo ventre.
Entre as pernas, escorrem estrangeiros líquidos, gritos roucos ainda soam entre as fronhas,
debaixo dos cálidos travesseiros.
Se agarram aos cabelos, de pervertidas esferas, inundando seus apelos.
Lábios de lua cheia, soltam carmins estrelares. E dança o corpo nos tapetes de areia.
Se enrosca nos braços lassos vindos do mar.
A sua benção é pecar. Lapidar.Trepidar - É deixar os dedos batucar os anéis do impuro."

(Cris de Souza & Raimundo Lonato)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Primeiro amor

No meio de um dia turbulento, cheio de afazeres e dores, entrou na fila do ônibus, naquele ponto final infernal. Fazia um calor escaldante, e a chuva fina molhava seus pés sempre calçados em sandálias baixas de tiras. Vivia, nesses últimos dias, com os pés úmidos e sujos de lama. Vivia imunda.
Nunca se aborreceu muito com os pingos, porque nasceu avessa à guarda chuvas - melhor deixar que a água regasse seus dias, era o que sempre pensava. Andava árida. E estéril. De uma histeria heróica, que se mantinha até em dias de paz. Que as gotas lavassem seus ânimos e limpassem seus medos - ansiava aflita, a cada nódoa na roupa.
Em pé no ônibus lotado, atravessava a cidade de ponta a ponta, todos os dias, incansável. Nunca pensou que talvez não fosse seu destino cumprir essa cor em rotina - eram brancos seus hojes. Seguia no mesmo ritmo inalterado o cronograma enfadonho a que se destinou, sem ao menos desviar o olhar. Ou os pensamentos vazios.
No meio do esmagador engarrafamento da Avenida Brasil, às sete horas da noite - horário de verão - sentiu. Afim de confundir seus sonhos, cheirou a manga suada da camisa que pendia do braço levantado, mas, assim que levantou o rosto marcado, ele veio - avassalador. Aquele cheiro inconfundível. Aquele cheiro do primeiro amor.
Fechou os olhos e permitiu que as lembranças - uma a uma - dançassem sob seus cílios, envolvidas pelo odor estonteante da juventude. Se viu formada, com uma boa casa e com as contas em dia. Com sorriso fácil e o coração tranquilo.
Puxou a corda - que gritou estridente - e abrindo espaço entre o mar de gente com seus braços enormes, alcançou o mundo. Debaixo da chuva rala gargalhava enlouquecida, e correndo - com os passos mais largos que já deu na vida - foi atrás de si mesma e se encontrou.
Ela, o seu primeiro amor.

Sylvia Araujo

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Sonhos Soprados

Como esse blog começou a virar uma miscelânea de coisas que gosto, que ouço, que leio, que sinto e que escrevo, resolvi mantê-lo assim desse jeitinho mesmo, e criar um outro espaço pras minhas - e só minhas - palavras sopradas.

Vem ver meu novo cantinho, vem?

terça-feira, 6 de outubro de 2009

"A morte, por si só, é uma piada pronta. Morrer é ridículo! Você combinou de jantar com a namorada, está em pleno tratamento dentário, tem planos pra semana que vem, precisa autenticar um documento em cartório, colocar gasolina no carro e no meio da tarde morre. Como assim? E os e-mails que você ainda não abriu, o livro que ficou pela metade, o telefonema que você prometeu dar à tardinha para um cliente? Não sei de onde tiraram esta idéia: morrer. A troco de quê?
Você passou mais de 10 anos da sua vida dentro de um colégio estudando fórmulas químicas que não serviriam pra nada, mas se manteve lá, fez as provas, foi em frente. Praticou muita educação física, quase perdeu o fôlego, mas não desistiu. Passou madrugadas sem dormir para estudar pro vestibular mesmo sem ter certeza do que gostaria de fazer da vida, cheio de dúvidas quanto à profissão escolhida, mas era hora de decidir, então decidiu, e mais uma vez foi em frente... De uma hora pra outra, tudo isso termina numa colisão na freeway, numa artéria entupida, num disparo feito por um delinqüente que gostou do seu tênis. Qual é?
Morrer é um chiste. Obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém, sem ter dançado com a garota mais linda, sem ter tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida. Você deixou em casa suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha úmida no varal, e penduradas também algumas contas. Os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas, a apagar as pistas que você deixou durante uma vida inteira. Logo você, que sempre dizia: das minhas coisas cuido eu.
Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce, caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina, começa a falar e talvez não conclua o que pretende dizer. Não faz exames médicos, fuma dois maços por dia, bebe de tudo, curte costelas gordas, mulheres e morre num sábado de manhã. Se faz check-up regulares e não tem vícios, morre do mesmo jeito. Isso é para ser levado a sério?
Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o sono eterno pode ser bem-vindo. Já não há mesmo muito a fazer, o corpo não acompanha a mente, e a mente também já rateia, sem falar que há quase nada guardado nas gavetas. Ok, hora de descansar em paz. Mas antes de viver tudo, antes de viver até a rapa? Não se faz. Morrer cedo é uma transgressão, desfaz a ordem natural das coisas. Morrer é um exagero. E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das piadas. Só que esta não tem graça. Por isso viva tudo que há para viver. Não se apegue as coisas pequenas e inúteis da vida... Perdoe....sempre!!!"

(Pedro Bial)

sábado, 3 de outubro de 2009

"Cause every little thing is gonna be all right"

(clica no título pra ouvir Bob Marley)

Não há nada melhor no mundo do que estar rodeado de pessoas queridas, das mais importantes. O peso do mundo diminui pela metade, e você só se dá conta disso quando o sorriso insiste em escapar pelo canto da boca - sem o mínimo decoro - e vira gargalhada desenfreada. Mal dá pra acreditar que um segundo antes tudo parecia insuportavelmente insuportável.
A melhor receita de todos os tempos e pra todos os males é: tenha bons, grandes e verdadeiros amigos!
Mesmo sem perceber, eles te carregam no colo e te fazem acreditar que tudo vai ficar bem.
Mesmo sem perceber, eles fazem tudo ficar bem.
Sylvia Araujo

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Arte em areia



Meu mísero castelinho ficou na chón.

A lata premonitória

"Mensagem subliminar é a definição usada para o tipo de mensagem que não pode ser captada diretamente pelos sentidos humanos. Subliminar é tudo aquilo que está abaixo do limiar, a menor sensação detectável conscientemente" [Wikipédia]

Há quem afirme e defenda que a mudança no layout da latinha de pepsi ilustra - nada mais nada menos - uma campanha subliminar inserida no contexto da Teoria da Conspiração que diz: Barack Obama está morto.
Eu ainda não descobri a reação ideal para esboçar diante dessa informação. Me acabo de rir igual a uma hiena enlouquecida, ou choro copiosamente até meu rosto se transformar em u
m baiacu?
Tanta falta do que fazer, ops! digo, criatividade, é de se admirar:

Informação e imagem daqui.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Daqui ó.

Ação!

Vencedor do Festival de Gramado, com uma interpretação visceral e estonteante (e premiada!) da incrível Leandra Leal, Nome Próprio é o novo longa metragem de Murilo Salles. Mais que visto, este filme deve ser mastigado e digerido lentamente. Cada texto confessional de Clarah Averbuck (escritora do livro A Máquina de Pinball, que originou o filme) brota do íntimo da personagem Camila, ou corre pelas telas, com uma intensidade no mínimo asfixiante.
Como adoradora de dramas existenciais confessa que sou, indico. E aplaudo a poesia, o caos e a irreprimível atuação de Leandra nesse retrato dolorido de um vazio tão cheio de tudo.

Pra ler mais sobre a produção e a criação, clica aqui.
Sylvia Araujo

La Plata


Entrei no show "Pros que estão em casa" - vencedor do melhor dvd do ano, no Prêmio da Música Brasileira de 2009 - mais curiosa que outra coisa. Saí atordoada e de queixo caído. Fui completamente assolada pelo tornado furioso da inenarrável voz de Toni Platão e sua hipnotizante presença de palco. É impossível assistir o show ou ouvir o cd e não se apaixonar perdidamente pelas interpretações únicas, pela extensão vocal inacreditável e pela banda impecável do cara.
Platão é "la plata" do mês (ou do ano!), sem dúvida alguma.

Download aqui. Enjoy!
Sylvia Araujo

Primavera

Pa-lavra a terra, faz brotar novas sementes.
Sylvia Araujo

Amor,

Você é o suave beijo do silêncio que me afaga os cabelos.

Sylvia Araujo

Nome Próprio

Teu corpo, palavra - identidade.
Da lâmina fria no fio do medo, um corte. Inseguro, diagonal.
Teu desejo, sentido - inadvertido.
Do veneno pungente no copo de vidro, um caco. Pontiagudo, amarelo.
Teu sufoco, entrelinha - estanque.
Do socorro represa na voz de quem cala, um lago. Profundo, perverso.
Teu ensejo, plural - inóspito.
Da terra árida no deserto longínquo, um vazio. Dilacerante, sombrio.

Do corpo inerte, nenhum desejo são pulsa. Do sufoco, apenas o ensejo de uma identidade inadvertida. Estanque. Inóspita.
Da palavra dita, um sentido qualquer-que-seja, clama. Da entrelinha sucumbe o mais plural corte. Em cacos e lagos - vazio.

Da lâmina fria diagonal, o fio do medo inseguro.
Do veneno pungente amarelo, o copo de vidro pontiagudo.
Do socorro represa perverso, a voz de quem cala profundo.
Da terra árida sombria, o deserto longínquo dilacerante.

(Sentimento é jogo de palavras com nome próprio.)

Sylvia Araujo

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Tremendão é rock!


Pra quem achou que o Tremendão já era (e sofreu com isso), uma boa nova: o novo CD Rock'n'Roll, lançado pelo honorável cantor e compositor no meio do ano, é um sucesso!
Como o título da obra ilustra bem, Erasmo Carlos nos fez o magnífico favor de reunir o bom e velho rock n' roll em uma seleção impecável de músicas inéditas, que faz qualquer mal humorado de carteirinha mexer os quadris.
(Meus ouvidos suplicam, pelo menos duas vezes na semana. E eu atendo - claro - com o maior prazer...)

Aqui, o making of.
E aqui, o download.

Listen and shake, baby!
Sylvia Araujo

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Trilha sonora

(clica no título pra ouvir Clara Nunes)

Juízo Final

[Nelson Cavaquinho/Elcio Soares]

"O Sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
Do mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente

É o juízo final
A história do bem e do mal
Quero ter olhos pra ver
A maldade desaparecer

O Sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
Do mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente"

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Ah, Clarice... só você...

"Mas se eu gritasse uma só vez que fosse, talvez nunca mais pudesse parar. Se eu gritasse ninguém poderia fazer mais nada por mim; enquanto, se eu nunca revelar a minha carência, ninguém se assustará comigo e me ajudarão sem saber; mas só enquanto eu não assustar ninguém por ter saído dos regulamentos. Mas se souberem, assustam-se, nós que guardamos o grito em segredo inviolável. Se eu der o grito de alarme de estar viva, em mudez e dureza me arrastarão pois arrastam os que saem para fora do mundo possível, o ser excepcional é arrastado, o ser gritante."

[A Paixão Segundo G.H. - Clarice Lispector]

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Eu também! Eu também!

"Belchior. Te entendo.

Honestamente. Tem horas (e ultimamente não têm sido poucas!) que penso em escolher uma aprazível caverninha lá no Zimbabue, juntar meus panos de bunda e vazar."

Daqui ó.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Um quê de Alice


"... A senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu. (...) Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas mas não posso explicar a mim mesma."

[Lewis Carroll]

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O silêncio faz um barulho ensurdecedor.
Sylvia Araujo

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Ai, Vanusa... como assim?

Vergonha alheia. Muita. Mas muita mesmo. E como eu ainda não sei colocar o vídeo direto aqui (siiiiiiiiim, preciso de ajuda!!!), cliquem em Vanusa pra escutar o que ela conseguiu fazer com o Hino Nacional.

(Tô cho-ca-da! Em sua defesa disse que estava sob efeitos de remédios pra labirintite. Devia é estar perdida num labirinto enorme e cheio de feras sanguinárias, pra ter esquecido até a melodia...)

Brasiiiiiiiiiiiil, il, il, il, il!!!!
Sylvia Araujo

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

José Saramago

"As palavras são assim, disfarçam muito, vão-se juntando umas com as outras, parece que não sabem bem aonde querem ir, e de repente, por causa de duas ou três, ou quatro que de repente saem, simples em si mesmas, um pronome pessoal, um advérbio, um verbo, um adjectivo, e aí temos a comoção a subir irresistível à superfície da pele e dos olhos, a estalar a compostura dos sentimentos (...)"

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Magia

Suas mãos se assemelham a cansadas cordas de aço entrelaçadas. Quase sempre imóveis, só é possível vislumbrar as palmas - queimadas pelo calor das pedras - quando se rendem ao mímico diálogo com os pássaros pretos. Gestos ventados ao ar, os dedos desenham incompreensíveis contornos pouco acima da linha do horizonte, enquanto a boca seca cala.
Ela também é alada.

Seus cabelos, derramados ombros abaixo feito cachoeira prateada, têm como preocupação apenas seguir a inconstância do vento. Por vezes se embolam com as correntes ao longe e, de liso, mimetiza em intermináveis vagas rebeldes. Eles vêm e vão, redemoinham e adormecem conforme a maré. Fios revoltos, não se distingue onde começa e termina seu corpo enquanto flutua.
Ela também é partida.

Sua pele é um conglomerado impreciso de retalhos que misturam rugas e cores aleatórias e marcadas. O corpo é delgado e frágil, e os ossos pontudos revelam por baixo do tecido duro e surrado uma silhueta friamente geométrica. Em postura triangular, mantém a espinha ereta e as pernas cruzadas - as rachadas plantas dos pés para cima. Com a cabeça voltada para o norte, tem os olhos sempre encobertos de névoa, mesmo nos tempos mais quentes, enquanto evapora.
Ela também tem segredos.

Sua vida segue sem que jamais tenha tentado transformar pura magia em meras palavras. Em seu mundo, letras são míseros rabiscos frente a imensidão gloriosa dos sentimentos que vibram. Ela não fala. Ela não escreve. Enquanto muitos a definem louca por inacessíveis e degradantes sinônimos, ela enxerga o vento e o beija.
Ela está muito além.
Sylvia Araujo

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Adiante

Abriu um vinho. Tinto e seco. De shorts e meias, colocou no aparelho de som a inconfundível trilha íntima das noites vazias, enquanto o líquido encorpado suspirava - sutil - dentro da garrafa esverdeada.
Quando as primeiras notas começaram a escorregar pelos ouvidos, se enrodilhou no sofá puído de terceira mão, com as duas pernas dobradas por debaixo do corpo franzino. No mesmo canto de sempre - segurando o cachimbo amarelado e mordido, com o zelo próprio de quem se fez confidente - levou ao nariz a taça bordeaux pela metade.
Inspirou os aromas harmoniosos com a suavidade de quem está habituado a reter em si o que há de melhor nas coisas, e em um curto gole permitiu que aquela elegante maciez - rica e aveludada - inundasse a língua e envolvesse o corpo num prazer único e deliciosamente aconchegante.
Preencheu então as próximas horas com seus poucos pequenos prazeres, e se alimentou da sensação etérea de estar na melhor companhia. Sorriu um sorriso branco simplesmente por compreender, enfim, que acariciar sua própria alma era o bendito-santo-remédio pra tanto sofrimento sem laço. O nó se desfez. Pelo vinho, pelo fumo, pelo fundo do poço que desenredou em si mesmo, se fez abraço.
Nesse dia ele estava só. Mas apenas porque aprendeu a desfrutar da felicidade sublime de se perceber assim, sem ser dilacerado pela brutal e desumana solidão dos seus dias de morto.
Ele estava só.
Mas estava inteiro.
Sylvia Araujo

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Ouça Música

[Aurea Calcavecchia]

"Dias iguais.
E enquanto não é recuperado o juízo, ouça música.
Música para tudo e mais o que faltar. É o único remédio.
Para o cansaço, a música relaxante que encontrar.
Para o tédio, a mais animada que existir.
Para a tristeza, a mais bela, para curar a dor.
Para a felicidade, a mais clara e leve, para ilustrar.
Para a angústia, aquela que disser o que você procura ouvir.
Para solidão, a que te dê colo.
Para o medo, a que te salve pela melodia.
Para a incerteza, a mais revolucionária.
Para nenhum desses, a música que estiver tocando.
Não desista. Não se entregue.
Ouça música."


E dance...

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Trilha sonora

(clica no título pra ouvir Lenine e Julieta Venegas)

Miedo
[Pedro Guerra/Lenine/Robney Assis]

"Tienen miedo del amor y no saber amar
Tienen miedo de la sombra y miedo de la luz
Tienen miedo de pedir y miedo de callar
Miedo que da miedo del miedo que da

Tienen miedo de subir y miedo de bajar
Tienen miedo de la noche y miedo del azul
Tienen miedo de escupir y miedo de aguantar
Miedo que da miedo del miedo que da

El miedo es una sombra que el temor no esquiva
El miedo es una trampa que atrapó al amor
El miedo es la palanca que apagó la vida
El miedo es una grieta que agrandó el dolor

Tenho medo de gente e de solidão
Tenho medo da vida e medo de morrer
Tenho medo de ficar e medo de escapulir
Medo que dá medo do medo que dá

Tenho medo de acender e medo de apagar
Tenho medo de esperar e medo de partir
Tenho medo de correr e medo de cair
Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma linha que separa o mundo
O medo é uma casa aonde ninguém vai
O medo é como um laço que se aperta em nós
O medo é uma força que não me deixa andar

Tienen miedo de reir y miedo de llorar
Tienen miedo de encontrarse y miedo de no ser
Tienen miedo de decir y miedo de escuchar
Miedo que da miedo del miedo que da

Tenho medo de parar e medo de avançar
Tenho medo de amarrar e medo de quebrar
Tenho medo de exigir e medo de deixar
Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma sombra que o temor não desvia
O medo é uma armadilha que pegou o amor
O medo é uma chave, que apagou a vida
O medo é uma brecha que fez crescer a dor

El miedo es una raya que separa el mundo
El miedo es una casa donde nadie va
El miedo es como un lazo que se apierta en nudo
El miedo es una fuerza que me impide andar

Medo de olhar no fundo
Medo de dobrar a esquina
Medo de ficar no escuro
De passar em branco, de cruzar a linha
Medo de se achar sozinho
De perder a rédea, a pose e o prumo
Medo de pedir arrego, medo de vagar sem rumo

Medo estampado na cara ou escondido no porão
O medo circulando nas veias
Ou em rota de colisão
O medo é do Deus ou do demo
É ordem ou é confusão
O medo é medonho, o medo domina
O medo é a medida da indecisão

Medo de fechar a cara
Medo de encarar
Medo de calar a boca
Medo de escutar
Medo de passar a perna
Medo de cair
Medo de fazer de conta
Medo de dormir
Medo de se arrepender
Medo de deixar por fazer
Medo de se amargurar pelo que não se fez
Medo de perder a vez

Medo de fugir da raia na hora H
Medo de morrer na praia depois de beber o mar
Medo... que dá medo do medo que dá
Medo... que dá medo do medo que dá"


sexta-feira, 24 de julho de 2009

Viagem

As palavras partiram. Voaram pra longe pra devorar novas entonações, sem um único adeus. Elas normalmente me deixam quando têm fome - vez ou outra me escapolem.
Hoje não me tira o sono saber que foram. Nem se voltam. Ou quando chegam. Nosso amor é cativo, intimamente puro; e mesmo que pareça tão duro, é rio - desagua sempre em ritmo certo.
Por hora acordo vazia - de um vazio que não dói, afaga. Pre-encho então meus dias com frases feitas e outros excessos, que não meus. Virou rotina, neste destempero, muitas palavras estranhas se esfregarem em mim. E eu deixo. E rodopio com elas. Quando o som acaba, olho com olhos de despedida que acalenta, e sigo.
Me faz bem estar só.

Sylvia Araujo

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Quando tudo acabar vou correndo prum Spa. Bem longe, lá na lua, se possível.

Sylvia Araujo

Prosa que dança

"O sono pode ser música para qualquer dança e fazemos crianças toda vez que nos olhamos. Você sopra sussurros tristes, numa voz cansada, tudo cansando e meu abraço te enlaça. Você fica aí cheia de sede de vida e eu cheio de tempo pra te fazer voar, tanto tempo tenho para te fazer gritar, sorrir, gemer, sei lá. Faltava pouco para colocar aliança no seu dedo, subir no cavalo e te fazer minha noiva.

Minha mulher não chore nunca quando estiver sozinha, lembre-se que a gente podia ter tido o mundo, mas você rasgou minhas poesias no meio, freou com todos os seus receios e na nossa inexperiência absoluta, canina, cretina e burra, deixou nós dois assim, feito noite e alvorada, feito calor e lágrima, suor e frio. Nós dois tínhamos o mundo, sexo oral e outras alegrias, tínhamos até o que não era orgia, o que era prematuro, suave, comum. Nós tínhamos ventos estelares, gozos cavalares, danças engraçadas e uma calçada inteira de músicas nossas, músicas que não eram nossas, mas eram.

Você experimentou minha língua, meu beijo com gosto de cereja, fez mousse de morango para me fazer feliz e deixou em mim todas as cicatrizes que seriam carinhos se não fosse o vazio, seriam felicidades se não fossem cortantes. Enlata todas as minhas palavras pra você e queime tudo, fuja do meu mundo, cante alto, grite alto, fale alto até não ter mais voz.

Primavera deixe eu dormir antes da dor de dente, e não me faça mais uma vez me sentir deprimente, só porque nunca mais vou parar de te amar. E vou."


Daqui ó.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Santa humanidade...




Mais ilustrações, aqui!

Amigos

Colo em trovoada.
Brisa no calor.
Flor na seca.
Girassol na chuva.
Cachecol na neve.
Patins na primavera.
Abraço na tristeza.
Sorriso na tensão.
Silêncio na palavra.
Soluço na dor.
Chegada no esperar.
A solução mais simples que se possa cogitar.
E é por eles que eu sou, é por eles que estou, é por eles que eu sigo. E vou longe: porque tenho os melhores amigos de todo o universo intergalático!

Amo vocês, meus nortes.

Sylvia Araujo

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Entre a razão e o coração

Deficiente

"Em que há deficiência; falho, imperfeito:
Pessoa que apresenta deficiência física ou psíquica." (Dicionário Aurélio)

"É aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono de seu destino." (Mário Quintana)

Louco

"Que perdeu a razão; alienado, doido, demente: Que está fora de si; contrário à razão ou ao bom senso; insensato: Dominado por paixão intensa; apaixonado, perdido: Que se porta de maneira pouco sensata, inconveniente; esquisito, excêntrico: Imprudente, imoderado, temerário: Estróina, extravagante, doidivanas: Travesso, brincalhão, folgazão. Fora do comum; incomum, enorme, extraordinário: Diz-se daquilo que revela loucura: Indivíduo louco" (Dicionário Aurélio)

"É quem não procura ser feliz com o que possui." (Mário Quintana)

Cego

" Privado da vista. Alucinado, transtornado; obcecado: Que impede a reflexão, o raciocínio; que perturba o julgamento, oblitera a razão: Total, absoluto; irrestrito:" (Dicionário Aurélio)

"É aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria e só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores." (Mário Quintana)

Surdo

"Que não ouve, ou quase não ouve; mouco. Pouco sonoro; pouco audível: Feito em silêncio ou sem ruído. Oculto, secreto, esconso: Feito, tramado, maquinado às ocultas, em surdina:" (Dicionário Aurélio)

"É aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês." (Mário Quintana)

Mudo

"Impossibilitado de falar; privado do uso de palavra por defeito orgânico.
Impedido de falar em virtude de inibição psíquica (emoção, medo, ódio, etc.).
Que se abstém voluntariamente de falar ou responder; calado, silencioso.
Que não se expressa por palavras:" (Dicionário Aurélio)

"É aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia." (Mário Quintana)

Paralítico

"Que ou aquele que sofre de paralisia. Perdeu a função motora em determinada parte do corpo. Perdeu a função sensorial." (Dicionário Aurélio)

"É quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda." (Mário Quintana)

Diabético

"Diz-se de, ou aquele que sofre de diabetes, esp. de diabetes melito. Aquele que sofre de síndrome caracterizada por uma eliminação exagerada e permanente de urina. Quem sofre distúrbio metabólico consequente a baixa produção de hormônio antiurético, e caracterizado por polidipsia, poliúria, e, muitas vezes, grande apetite e perda de força; diabetes insípida." (Dicionário Aurélio)

"É quem não consegue ser doce." (Mário Quintana)


Ah, o mundo sem os poetas... não sei não...
* Suspiro*

O que será que as ovelhas contam antes de dormir?


Mais legumes fofíssimos, aqui!

Ao trabalho

"É com gente miúda que lido... e não com coisas. E porque lido com gente, não posso negar a quem sonha o direito de sonhar"
[Paulo Freire]

"O maior bem que podemos fazer aos outros
não é oferecer-lhes nossa riqueza,
mas levá-los a descobrir a deles."
[Émile Louis Laveleye]

Vivendo, lendo e aprendendo


Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico:


No novo Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, diz-se do “estado de quem é acometido de uma doença rara provocada pela aspiração de cinzas vulcânicas”.

Pois é. Me sinto até mais culta depois que somei esse palavrão ao meu pequeno dicionário interno. O único problema é conseguir falar isso tudo sem gaguejar.

(Treinando)

PS.: Não lembro de onde tirei essa informação magnífica... se alguém souber, please, me diz, pra eu dar os devidos créditos aqui? Brigadim...

Petits gestes


Nada como rever O Fabuloso Destino de Amélie Poulain pra sentir o coração palpitando de novo no peito. Esse filme é um dos mecanismos que deveriam se tornar obrigatórios, sempre que cansamos de estar atentos ao poder vital dos pequenos gestos. Com uma simplicidade absolutamente deliciosa e comovente, encabula a irritante mania que todos temos - vez ou outra - de nos fingirmos de planta frente à dor dos outros.

Hoje acordei Amélie. E que ela esteja sempre presente nos meus dias mais reais. Amém.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Vai pra ver mais delicadezas!

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Transe


Namorado-brilhante, meu consultor vitalício para assuntos musicais, chegou um dia um muito mais eufórico do que o normal:
- Você pre-ci-sa ouvir esse som! É a sua cara!
E eu, com meus ouvidos-psicopatas atentíssimos, parei tudo pra tatear a boa nova, óbvio.
Morri. E revivi. Várias e várias vezes. E toda vez que coloco pra tocar, desfaleço e ressuscito de novo. É quase um transe hipnótico, juro.
Hoje eu digo com a mais concreta convicção que, de tudo de mais novo a que tenho sido apresentada nos últimos tempos, Beirut é o melhor de todos os mundos. Um arquipélago à parte.
Duvideódó alguém conseguir sair ileso depois de ser devorado por Elephant Gun.

Aproveitando o post musical, outra nova delícia que anda me afagando bastante os cabelos é o charmosérrimo indie de Belle and Sebastian.

Ficadica.
Sylvia Araujo

Igualitando

"Tolerar a existência do outro e permitir que ele seja diferente ainda é muito pouco. Quando se tolera, apenas se concede, e essa não é uma relação de igualdade, mas de superioridade de um sobre o outro."
[José Saramago]

Não entendo como, em pleno 2009, ainda possam existir pessoas capazes de julgar o outro pelas suas diferenças. Homossexuais, simpatizantes, negros, pardos, ateus, budistas, obesos, anoréxicos, egoístas, solidários, militantes, acomodados, portadores de necessidades especiais, atletas... são tantas diferenças, tantas singularidades - particularidades pra distribuir e vender!
Cada um é cada um, sujeito singular e multifacetado - cheio até a boca dos seus próprios senões e poréns - e não, não existe um unicozinho par idêntico nesse mundo-vasto-mundo pra contar história.
Juro que me esforço, mas não consigo administrar tanto dedo em riste que vejo por aí. Por que não se pode simplesmente respeitar (e respeitar é muitíssimo diferente de tolerar) a direção de cada atalho? Por que não se pode olhar o dentro de cada ser humano ao invés de tachá-lo, rotulá-lo, de simplesmente excluí-lo? Pra mim, é pequenez demais se achar tão grande a ponto de anular a importância da vida do outro. (grande, imenso mesmo, é aquele que absorve todas as matizes e cria a partir delas sua própria nuance)
Quer dizer então que só heterossexuais-brancos-magros-lindos-ricos e saudáveis se edificam em alegrias e tristezas? Só eles têm um coração que pulsa? Ah, pode parar, que eu vou descer é já!
Num mundo em que é preciso haver lei pra punir discriminação, pra coibir desrespeito, pra garantir direitos de cidadãos contribuintes, eu não tô afim de caminhar não. Estanquei.
É por essas, e muchas outras coisitas, que prefiro mil vezes reverenciar o submundo idílico dos sonhos que sonho. Pelo menos lá - mesmo que seja só lá - toda diversidade é.

Sylvia Araujo

Pororoca


Tenho mesmo esses repentes de virar rio sem avisar, confesso. Já tentei autocontenção e represália. Não adianta.
Quando transbordo - bote em punho - pratico rafting.
Encontrei a solução perfeita pra sempre me querer bem.

(Nada como uma pitada de aventura, quando a vida insiste em virar lago.)

Sylvia Araujo
"Eu sou essa gente que se dói inteira porque não vive só na superfície das coisas..."

[Marla de Queiroz]

Pra florescer

Mas que mania que os dias têm - todos os dias - de me anoitecer!

(Pra me distrair, eu pinto sonhos e planto sóis pelos atalhos e jardins afora.)

Sylvia Araujo

terça-feira, 14 de julho de 2009

Empatia

Ela perde o bebê. Aos oito meses de gravidez. E mesmo que não faça mais parte da minha vida, nem nunca mais vá fazer, isso dói em mim. Como se fosse meu o diminuto fruto arrancado.

(meu coração pede que, apesar do peito dilacerado, ela siga em frente, em paz. e que nunca desista da alegria dos momentos únicos com que a vida nos brinda, incansável)

Sylvia Araujo

Ninho

Cá no meu mundo, soluço é ocre-alaranjado. Com um quê de tenro, outro de azedo, se assemelha a brisa silenciosa sobre mar revolto.
Já tristeza é macia e úmida. Mesmo com tantas nuances desnudas-carnudas, dourada se desfaz em inocente e avermelhado botão.
O lamento, esse é agridoce. Hesitante, entorpecido entre lascas de secura estéril e um bocado acetinado de miragem esmaecida, desfila na língua que insiste em se refletir sensível.

Cá no meu dentro, o sofrer se desfaz e se distrai em mim. Enquanto beija flor descansa - asas pro alto - correnteza baila descompassada e girassol sussurra letras rimadas, eu desmeço e me despeço do tempo anoitecido, para ser livre-liberta em horizonte infindo.
Desejo, então, à lânguida estrela-ardente, uma pilha de poesia soprada ao vento e um imenso monte charco-vivo de sentimento.

Cá no meu tempo, minhas asas flanam sol-a-pôr-do-sol. E no meu mundo, tão vasto e descabido mundo, tudo é beleza e estranhamento-cúmplice. Até lágrima que escapole seca, me amarela, me irradia.

Nesse meu canto - pros meus encantos! - rodopiam desembestadas palavras efêmeras-cruas. Elas sorriem embriagadas e me desmontam - dor após dor - com um frenético - e intrépido! - mi bemol intenso de armaduras nuas.

Sylvia Araujo

Tal borboleta

Daqui de dentro eu azulo - faço do cinza casulo.
E quando saio, ah, quando pairo...
é tanta cor que entontece!

Sylvia Araujo

Indolor

Você pode ser quem quiser. Fazer o que quiser, dizer o que quiser, sentir o que quiser!
Só não me machuca... por favor, não me machuca...

Sylvia Araujo

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Um sopro de singelezas

"Não gosto de dar confiança para a razão. Ela diminui a poesia."
[Manoel de Barros]

"Não quero viver como uma planta que engasga e não diz a sua flor."
[Ana Jácomo]

"Eu sempre sonho que uma coisa gera."
[Adélia Prado]

"Abramos o coração para a beleza, até nos tornarmos a própria beleza."
[Pierre Levy]

"Quero a delícia de sentir as coisas mais simples."
[Manoel Bandeira]

"Sou doutras coisas. Fiz o meu barco com guitarras e com folhas; e com o vento fiz a vela que me leva. Sou pescador de coisas belas, de emoções. Sou a maré que sempre sobe e não sossega."
[Fernando Tordo]

"Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além."
[Paulo Leminski]

"Alguma coisa em mim vai longe. Alguma coisa em mim não tem mais fim..."
[Alice Ruiz]

"Vivo tão intensamente o momento presente que quase chego atrasada ao momento seguinte"
[Rita Apoena]

Previsão do tempo pra hoje

Forte tempestade pela manhã. Nevasca ferrenha à tarde. Geada enregelante à noite.

Enquanto o tempo não desanuviar, não saio de dentro de mim.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Pra levar na mochila:

Pra dias nublados, um pocket sun.
Pra horas de engarrafamento, um frasco de gargalhadas.
Pra momentos tristes, duas ampolas de mel.
Pra noites estreladas, um espelho (pra que elas multipliquem).
Pra tempo frio, uma caixa de abraços mornos.
Pra usar no trabalho, um fio de criatividade.
Pra dias de chuva, dois braços abertos.
Pra encontrar os amigos, meu chocalho.
Pra viagens mais longas, um colar com um pingente enoooorme de saudade.
Pra namorar, uma dose generosa de cumplicidade.
E pra ir na esquina, um maço de cigarros, um isqueiro e as chaves de casa.

Sylvia Araujo


Clarice e eu. Eu e Clarice.

(clica no título pra ver a fonte!)


Esse blog é uma delícia! Vale a pena viajar por lá.

Eu sou! Eu sou!

"Nefelibatas são aqueles que vivem nas nuvens, donos de mentes aéreas, imaginativas. Perdem-se em sonhos, ainda que acordados. Entregam-se às suas fantasias e utilizam-se dessa forma de escapismo, evasão. Vivem em um mundo próprio, alheios à realidade; julgam-na enganosa, fruto de um imaginário coletivo. Discursos enganadores, alienismo adestrado, palavras, promessas que se perdem no vazio. Elaborando teorias da conspiração, acham suas idéias revolucionárias e progressistas. No fundo, tal maneira de viver é fruto de uma profunda insatisfação com este mundo, estimulada por um coração intrinsecamente sonhador. Na literatura, diz-se do escritor que não obedece às regras literárias, despreza processos simples, fáceis de construção textual, preferindo a excentricidade de processos."

(texto extraído da descrição da comunidade Nefelibatas, do Orkut)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Inteligente, bonita e gostosa. Ah! E modesta, claro...

Eu nunca tive paciência pra sessões de embelezamento. Só de pensar em passar mais de 40 minutos em um salão, já me dava calafrios. Ouvir pessoas falando sobre a novela, como se estivessem discutindo o fim trágico de um ente querido, me dava nós horrendos no estômago. E quando o tema é celebridades - cometas ou não, não há distinção - e o povo chora junto, ri junto, toma partido e entra em depressão profunda (e coletiva!) pelo galã? Tortura crudelíssima!
Sessões de corta-hidrata-pinta-escova-agoraapiastra, lixa-dábrilho-colore-esperasecar, pernainteira-virilhacavada-axila-buço-tudosempelos, lava-esfolia-cremenoturno-cremediurno... respira... praáreadosolhos-olhaoprotetor, entranaloja-olhaasararas-experimentadez-sóentramcinco! Aff! Só de escrever já cansa a beleza.
Hoje continuo achando tudo isso um pé no saco. Mas ao invés de fugir das artimanhas femininas para valorização do layout, levo um mp3, ou um livro, ou fico alheia olhando a TV e até me divirto - vejam só! - com as figuras mirabolantes que vêm e vão, e fazem do salão seu analista, seu confessionário, sua compulsão, no mínimo semanal. Tudo em prol da imagem que quero ter.
Deixei faz tempo de achar que mulher bonita é necessariamente burra, e que mulher inteligente precisa cuidar do intelecto, e pode se dar ao luxo (de vez em quando) de passar um gloss básico nos lábios.
Saí correndo do instinto de gata borralheira que sempre se fez sombra nos meus passos e fui de encontro ao amor próprio. Porque, hoje eu sei, que cuidar de si mesma, se sentir bela e atraente é maravilhoso, quando não se precisa disso para ser quem se é. Imagem é muito. É através dela que você atrai pessoas afins, que você faz amigos, que você arruma um emprego que te caia bem... mas não é tudo. Por isso, quando cuido da fachada, aproveito sempre pra dar uma olhada na casa. Só pra me certificar de que tudo vai bem com as fiações e os encanamentos, pra que não corra jamais o risco de desempalavrar de frente pro espelho.

Sylvia Araujo

Essa coisa de ctrl C + ctrl V em texto alheio, sem dar os devidos créditos é feio, minha gente, muito feio...
Ai, ai, ai!

terça-feira, 7 de julho de 2009

Brincando de viver

Em trabalho novo, tudo é novidade. Sempre. E agora, até agosto - quando vou começar com adolescentes (ri, ri mesmo...) - estou observando e acompanhando um grupo de faixa etária até 12 anos. Crianças não são mole. E quando a realidade delas é infinitamente diferente e distante da sua então, é surpreendente o tempo inteiro. O aprendizado é inumerável.
Hoje fiz uma "atividade de reações" com eles. Todos tiveram colados em suas costas papéis com uma ordem, sem saber do que se tratava : me abrace!, me ignore!, me olhe nos olhos!, vire as costas pra mim!, etc. Cada um ia ter que obedecer e reagir à ordem que estava escrita nas costas do outro. No início eles ficaram confusos, mas aos poucos foram percebendo o espírito da coisa, e participaram da brincadeira. As ordens de distribuição de afeto foram quase que 100% ignoradas. E as ordens de repulsa, quase que 100% executadas.
Na roda, depois da atividade, pedi que cada um tentasse identificar que ordem tinha nas costas, baseado nas reações que recebeu dos colegas. A maioria acertou, porque arrumou um jeito qualquer de burlar as regras, claro.
Depois, o papo foi sobre o que cada um sentiu com as reações dos outros. Os que tinham ordens de repulsa, em sua maioria, disseram que ficaram tristes e solitários; já os que tinham ordens de afeto, acharam engraçado. Quando perguntados sobre que ordem gostariam de ter nas costas, todos eles optaram pelas de distribuição de carinho e atenção.
Então a questão levantada foi: se vocês querem receber abraços, beijos e cuidados, porque não fazem isso com quem gostam, com seus amigos, com a sua família? Porque não demonstram o quão importantes e queridos eles são pra vocês? Branco. Total. Um olhava pro outro com aquele risinho sem graça preso no canto da boca, e disparavam comentários eufóricos e atropelados: a gente fica sem graça!, eu não abraço menino!, ela é chata!, etc e tal.
Não sei se os meus questionamentos e a falta de resposta deles vai servir de alguma coisa ou ficar pra semente. Eu espero que ao menos uma luzinha, bem pequenininha que seja, eu tenha podido acender dentro de cada um, mas o caminho a ser trilhado depende de escolhas e oportunidades que eles vivenciarão por si mesmos durante toda uma vida. E esse, infelizmente, já não depende de mim.
No fundo, lá no fundo-nem-tão-fundo-assim, o que todo mundo queria mesmo era ser capaz de amar e ser amado sem tanto preconceito, sem tanto pudor, sem tanta regrinha de comportamento empacotado.
O que me comove muito - e não sei por que cargas d'água ainda me deixo tocar, mas ainda bem que é assim - é que são apenas crianças, pequenos serezinhos em formação que em breve se tornarão adultos egoístas, distantes, frios, sozinhos, quiçá maldosos, nesse mundo cão.

Sylvia Araujo

Óhnnnnn

(clica no título pra conhecer a fonte!)

Sô Cartola!

"Deus me inventou pra desespero do diabo
Eu fiz do samba Catedral do Inferno
Louca, muito louca, endoidecida
Vou fazendo desta vida
Tudo aquilo que bem quero"

Incredulidade

Ele coleciona palavras que não tem coragem de usar.
Ela usa palavras que não tem coragem de colecionar.

As palavras sorriem. Um sorriso engraçado - meio de lado.

Sylvia Araujo

De "O Anjo Bêbado"

"Quem coleciona selos para o filho do amigo; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se detém no caminho para ver melhor a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso sentimental; quem procura na cidade os traços da cidade que passou; quem se deixa tocar pelo símbolo da porta fechada; quem costura roupa para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar: Meu pai só gostava desta cadeira; quem manda livros aos presidiários; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem escolhe na venda verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias do amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe deram de presente, o isqueiro que não mais funciona; quem, não tendo o hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque a fim de conversar com amigo ou amiga; quem coleciona pedras, garrafas e galhos ressequidos; quem passa mais de dez minutos a fazer mágicas para as crianças; quem sabe construir uma boa fogueira; quem entra em delicado transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se acanha de achar o pôr-do-sol uma perfeição; quem se desata em sorriso à visão de uma cascata; quem leva a sério os transatlânticos que passam; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da armadilha terrestre."

[Paulo Mendes Campos]