Foto do blog: Mario Lamoglia

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Femina

A gente
arde
estala
enverga
mas não
queima

[assa é
a batata
o marshmallow
na brasa
quente
da fogueira]

- e canta.

Sylvia Araujo

domingo, 6 de novembro de 2016

Ponta de lança

Heróico
todo braço que
se estende
expande
coração
na mão.

Sylvia Araujo

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A relva crispada e úmida - sob os pequenos indecisos pés descalços - de um vivo verde amarelecido adocicado e pausado, transfere, calma indiscutível, uma sabedoria mansa e fresca de insistente grama crescendo altiva e matemática. Feito pequenos choques pernas magras acima, como quem sussurra, quase em grávido silêncio, expõe inequívoca a língua inexprimível e exata das ruivas formigas, dos grilos, dos vermes, das abelhas, corujas, leoas, das esperanças todas eriçadas invencíveis, douradas e esquentadas de sol. Além dos sentidos, ela ouve sem sequer ouvir. Os doces hipnóticos olhos observam, fixos plenos, uma retorcida folha alaranjada quase marrom que se desprende, como num delicado desatar de mãos, do alto da árvore sonolenta e dança, femininartística, por entre as luzes e sombras do amplo espaço, durante um esticado completo minuto - ele parece intencionar cessar de escorrer para também observá-la inteira, grandíssima bocarra escancarada em inchada admiração. Então, a suave folha pousa quase sem tocar a ácida terra enquanto, vivamorna, a terra - dona inconteste de tudo o que um dia foi - a abraça, e os brilhantes olhos e o entregue tempo, de imediato, em despedida ritualística e solene, desfocam.

O dia lilás - nu enviesado, aquecido por pinceladas espaçadas em vários tons de vermelho - se esvai em desmaio lento, vazio e sereno no horizonte estático, sem reverências maiores às ideias mesmas cansadas e aflitas que vagueiam, labirínticas, nos raciocínios vai-e-vem confusos e apocalípticos dos cegos homens partidos. Ele sabe, íntimo último das coisas que são e dos inesgotáveis tensos fios que sustentam a vida, em sua transparência cósmica, que tudo o que quiser com força alcança, no devido tempo e no constante espaço em broto além das aparências oásis, como se nada-nada tivesse de fato um fim, como não o têm, se se dedicar a apreender de maneira ampla e integral tudo o que é real. O dia, esse sempre o mesmo apesar de incansavelmente outro, gordo inteiro como em todos os inadiáveis e indecifráveis dias, não se pensa, não se confunde ou altera; ele abriga e não distingue segundos, escolhas, sentidos que a cada um pertencem, a mais ninguém, tampouco tortuosos passos e outros momentos aquém dos seus movimentos translúcidos, tempos indecisos, olhares além ou altos inescaláveis muros. Ele reflete; olha não julga, tudo guarda e certeiro usa sem nenhum abuso quando, no exato perfeito instante onde cabe, não sem alguma qualquer pequena dor, meticuloso atento reverbera, acima do denso chão e abaixo do etéreo céu e, insistente dedicado, constrói tudo aquilo com o que em conjunto vibra, enquanto ajusta as velas para ir - lento e sem nenhuma pressa - de encontro ao mar.

Vagando sem direção em impalpável fio de pensamento doído, Maria pensa - no fundo, quase sem nada pensar - no acaso sincrônico, desencontro certo, no gigante amanhecido amor tão distante e tão perto: porque irremediavelmente eterno; porque sempre bem fundo bem dentro, mesmo se ausente; porque inextrincável em jogos quaisquer de palavras, quais sejam elas. Quase inerte - a respiração perene ritmada e funda alteando em pequenos espasmos o frágil peito; o cotovelo pontiagudo apoiado, sem força ou peso, no rígido braço de ferro do banco azulado cheirando à ferrugem e mistura de tinta gasta - sustenta, em seriedade divertidamente astuta, a alegria urgente e resplandecente do orvalho quase esbranquiçado, estanque, que recobre os galhos secos no despedir alvoroçado do desprendido dia. Maria dói sem doer, escorrendo sentada, sozinha e quieta ali naquele ermo lugar. E se alegra, vazia, quando pensa coisa alguma e tudo observa sem qualquer fatia de futuro ansiar. Sem saber exatamente o quê e de quê, espera sem esperar e, desajeitada entregue, sorri. Sabe, não se sabe como, de um plano escrito à mãos vazias - sua sina -, de um lugar cativo entre as montanhas mansas - coloridas nos mais variados tons de vida, de onde a música não se cansa nunca de ritmada e amorosa escoar - resguardado e certo por qualquer coisa que não se pode tocar e, ainda assim, inexplicável simplesmente existe e é.

Faz frio, um frio fino e elegante, no limite estendido do morno se se olhar cauteloso de dentro pra fora. É que as coisas carregam em si vaporosa essência que por inúmeras vezes não se pode enxergar ou explicitamente arguir: porque nossa e muito íntima, porque centelha eterna, algo intocável, um quê de insondável inacessível reflexo. Sentada no descascado banco de ferro meio azul meio ferrugem, a pele umedecendo aos poucos ao agudo toque do macio orvalho, olhando perplexa a alaranjada folha caída, abraçadengolida pela úmida escura terra, os pés descalços acarinhando a relva tão viva tão viva tão viva, o coração a ponto de, aos pulos, sair pela boca, Maria atônita pensa, sem quase nada pensar: e isso, tamanho apaixonante imensurável mistério, é tudo-tudo o que há.

Sylvia Araujo

terça-feira, 27 de setembro de 2016

E nessa corda
bamba, que
não nos falte
música.

(dança!)

Sylvia Araujo

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Teologia da Libertação:
Santificado seja o nosso Não,
Amém.

Sylvia Araujo

terça-feira, 26 de abril de 2016

Cajuína

Quem somos além daquele que, intrigado, nos observa no espelho?

O que somos além daquilo que imaginamos que os outros esperam de nós?

(Ego
Bolha de sabão
- Pluft!)
Sylvia Araujo

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Foco, foco. Foco.

Ruína. Poeira, fumaça, spray de pimenta, dois corpos molhados sem vida, mosquitos sobrevoando a poça de lama, medo. Deserto. Pedaço, ausência, cavalos assustados, um braço, uma perna ao lado do muro, baratas e ratos sob os escombros, medo. Silêncio. Lamento, desamparo, coturno gasto desamarrado, rastro de lágrima no rosto descamado, cães esqueléticos revirando detritos, medo. Arame farpado, medo. Crianças famintas, medo. Bombas, dinheiro, ego, loucura, arranha-céus, veneno na raiz e no fruto, medo. Medo, medo. Medo.

Beleza. Melro, sorriso, nascente de rio, filhotes de gato espreguiçando ao sol, sombra comprida de um pescador na canoa, amor. Semente. Gesto, transparência, mão direita aberta estendida, terra vermelha úmida e fértil, menina correndo descalça na areia fina, amor. Leveza. Folha, poesia, cordas de violão, pincéis coloridos sobre o azulejo branco, cheiro de broto de manjericão florido, amor. Por do sol, amor. Brisa morna nas cortinas, amor. Geleia, alegria, vinil, lareira, vira-latas, café fresco no coador de pano, amor. Amor, amor. Amor.

Sylvia Araujo

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Viver intensamente uma realidade de projeções trágicas como se ela fosse a realidade presente nos faz esquecer e anular o infinito poder de criação do agora. Cada minuto é tempo de gerar um impulso, positivo ou negativo, que tem a força de interferir na consciência coletiva - todos somos como geradores de energia individuais interligados, frações inteiras que refletem o todo e responsáveis por ele. Adoecer, fisica ou psiquicamente, por causa de fatores externos nos torna vulneráveis a eles, uma luta que se luta fragilizado e doente se consolida em uma guerra perdida. Meditar, manter o controle sobre a mente, se alimentar e dormir bem, ouvir música, sorrir, estender a mão para os iguais que se pode alcançar, enxergar as belezas da vida e agradecer a tudo de grandioso que acontece a cada minuto, independente do caos sociopolítico em que o mundo se encontra, cria condições para que uma outra realidade se desenvolva e floresça. A luta, antes de tudo, é interna e depende dos passos de cada um de nós, de cada consciência desperta, os próximos passos da humanidade. O ódio e a revolta destituída de ação são como facas de dois gumes, bumerangues afiados. As leis imutáveis do universo não nos deixam esquecer a sua infalibilidade - tudo que vai, sempre volta em potência. Parece de importância secundária, besteira inútil no meio de tanto caos, mas cuidar e amar a si mesmo - e transbordar esse amor - é revolução.
Sylvia Araujo

terça-feira, 19 de abril de 2016

Caminho descalça sobre lava fervente
rasgo pântanos com os dentes

azulo.
Sylvia Araujo
As facas
ceguenferrujadas
apunhalam
golpeiam
fatiam
a própria sombra
o ar

(o azul
escaldado
não morre).
Sylvia Araujo

sábado, 9 de abril de 2016

Render-se à extasiante mágica do absurdo, soltar as rigidas rédeas dos instantes, permitir o derreter do agora entre o céu da boca e a ponta da língua, desvestir o não, experimentar o avesso, confiar no inexplicável, desconstruir, descontrair, não ser - nada nunca ninguém - e, então, inteirosúbito, florescer.

Sylvia Araujo

domingo, 3 de abril de 2016

Prenhe

Gesto o verbo como quem arranca eras de ferrugem de um cadeado à brutos golpes de faca cega. Tanto a dizer e  - ainda assim - nada que valha mais que o desejo imenso dos teus olhos vivos vivendo mudos dentro dos meus.

Sylvia Araujo

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Pretendo. Que talvez pretender seja uma forma de levar adiante a ruptura do ocaso, o susto do berro árido inexistente. A lâmpada acesa, incandescente, brilha nítida e apaga o sono. Desligo. Acendo a vela em ascensão, pavio incólume, e queimo. Um silêncio preenchido, um plano em intenção pulsa denso na fumaça abafada do incenso. Escuto. O fio tênue, transparência nua, me mantém intacta e me conecta, novelo de muitas pontas, em sincronia sutil - inspiro. Não há dedos que me despedacem o véu enquanto caminhar desconstrução descalça. No embaçado do espelho, expiro, um eu que não se basta sou eu - rua larga e deserta, povoada dos muitos invisíveis que me carregam nos braços até o topo claro da montanha alta. Chegando lá, mil horizontes. E o acerto de contas dos últimos tombos, a lei inexorável, o retorno. No fundo dos olhos e no peito, os pés - e o próximo passo, logo ali adiante.

Sylvia Araujo


sexta-feira, 26 de junho de 2015

As cores todas balançando ao vento nos varais da estrada. Serra acima, lentamente, a desenfreada pulsação abranda, impregnada do sussurro manso que ecoa sutil por entre as copas verdes. A vida pulsa, plena e viva, em seu próprio e descansado ritmo, a alma, leve, dança. Os anoitecidos olhos, intoxicados de concreto e medo, agradecem os multitons das matas densas pinceladas de delicadas flores. É bonita a umidade solene escorrendo prateada por entre as pedras lisas. É suave o amanhecimento paulatino do tão maltratado coração - os pássaros, o pasto, o gado, as incontáveis estrelas no céu, as Minas Gerais, o amor, ouro de puríssimo esplendor.
No caminho, deitado à comprida sombra de um umbuzeiro, um pequeno homem inteiro assobia cantigas baixinho, revirando nas mãos o chapéu em remendos. Não há pressa em suas longas horas mansas, não há lonjuras em seu hoje branco. Lá, o dia ignora sem dó os inúteis ponteiros e aponta, certeiro, a semente na terra. O tempo é só dela e ele, prendado, espera. Um pouco à frente, uma senhora de rosto queimado, lenço amassado e poucos dentes grita, da maltratada cerca, a meninada de pés poeirentos. Eles gargalham, meninos que são, enquanto correm atrás da mestiça galinha que, sem rumo, sacode as curtas asas como se, por um passe de mágica, pudesse voar. Galinhas não voam, mas a criançada de lá sempre me parece que sim.
Chegando à casa, olhos marejados, janelas e portas abertas, o sorriso liberto brota mansinho, o horizonte sem fim mais e mais se estende, o calor acolhedor do amor afaga, cuidadoso, as tantas cicatrizes fundas dessa dura vida, desse mundo louco, enraivecido cão. Os cheiros, os gostos, os planos, os sonhos cerzidos aos pares, os pequenos tão livres e inteiros, a música, os abraços, os passos, o coração aprumado e sereno, seguro no reconhecer-se em outros, espelho – e esse acreditar inesgotável e eterno que, na volta, sempre trago comigo palpitando no peito, de no amor e no bem jamais deixar de construir e ser.

Sylvia Araujo

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Ela não entende

Ela me chama de bombom. Parece meio ridículo falando assim, palavra solta ao vento sem nenhum contexto e, pensando de novo agora, soa mesmo pouca coisa, sem aqueles olhos mansos pra emoldurar todo o tamanho do sentido que essa palavra, quando ela fala, tem. Mas não é pouco não, é muito, você não faz ideia.
Conheci a Nega no baile charme, aqui mesmo no Complexo, lá em cima na quadra. Tá vendo os meus olhos brilhando esse tanto? É ela aqui dentro, rapaz, só de lembrar daquele dia dá vontade de chorar. Fazia uma noite bonita, de lua quase cheia, tipo essa assim de hoje. Verão carioca escaldante pede uma gelada, né? E era sexta-feira. Saí um pouco pra relaxar com a rapaziada depois de um dia de cão e dei com ela lá, quase deusa, flutuando no meio da multidão. Meu coração parou, faltou o ar, tudo rodou. No mesmo minuto eu disse pra mim mesmo: é ela! A partir dali, nunca mais soltei o avião, e lá se vão mais de dez anos.   
Ela me chama de bombom e ontem nós discutimos feio. Ela disse que eu não ia, eu bati o pé que ia. Aí ela chorou e falou que tinha medo. Eu respondi que também tenho, oras, desde que me entendo por gente, mas que, ainda assim, estaria lá. Ela gritou que eu não a amava, que era um irresponsável, baderneiro, que jamais teria um filho com alguém sem rumo feito eu.  Aí eu não aguentei e esbravejei que era uma questão de honra, porra! Pelos meus pais, meus avós - e pelos dela também! -, pelos filhos que queria ter e o futuro que sonhava em deixar pra eles, pela vida livre que sempre desejei levar e nunca pude, por essa minha silenciosa e sedenta alma negra aprisionada à margem de tudo, sempre, e pela dela também, que nem fazia ideia do quanto era oprimida, marginalizada e coagida todo santo dia. Antes de bater a porta, fiz a burrice de chamar a Nega de burra. Ela se emputeceu, claro, com toda razão. Ah, se arrependimento matasse...
Eu só queria que ela entendesse, mas ela não entende. Você sabe o que é passar a manhã de domingo inteira, anos e anos a fio, catando xepa na feira, pra ter o que comer durante a semana? Você sabe o que é andar por aí na rua e ver o medo estampado nos olhos das pessoas quando cruzam com os seus? Eles atravessam a rua; elas apertam as bolsas e o passo e abraçam os filhos quando me vêem. Isso é cruel, cara! Já pensei, moleque, em arrancar uma bolsa qualquer de madame, sair correndo e despejar tudo no lixão, sem nem abrir. Só pra justificar o medo e aquilo fazer algum sentido, sei lá, mas nunca tive coragem. Você sabe o que é ter que passar por isso toda vez que pisa o asfalto, só por causa da cor da sua pele? Se sentir diminuído, humilhado, mesmo se estiver com o salário inteiro no bolso? Eu já amaldiçoei esse amarronzado aqui muitas e muitas vezes, mas agora cansei. É justo, não é?
Tô cansado de perder amigos, de sempre ter que consolar quem perdeu alguém. Só essa semana foi tiro em trabalhador, em criança, em avó, tá cheio de militar aqui dentro. Eu tô é muito puto com essas rajadas pelo céu todos os dias, com as correrias inesperadas, com essa sufocante falta de paz, de não poder dormir à noite só porque sou preto e pobre. Eu sou preto e pobre. Não posso esconder minha pele, meu cabelo, não posso fingir ser quem eu não sou, entende? Você sabe o que é viver assim? Ela sabe, a Nega, mas não consegue entender a minha revolta. Ela acha que é assim mesmo, que deus dá o fardo certo e justo pra cada um, que nada na favela vai mudar com manifestação contra a violência aqui ou acolá, que eu tô é fazendo arruaça sem sentido, ao invés de deitar e descansar - todos os dias, às cinco tô de pé. Mas eu não acho nada disso, não. Acredito, de verdade, que a gente pode mudar muita coisa nesse mundo, sim, se tiver fé e não desistir no meio do caminho. Mesmo debaixo de bala eu tinha que estar lá. Mas ela não entende.

Sylvia Araujo

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

As importâncias todas esparramadas, lado a lado, sobre a gasta mesa. O estampido oco da queda brusca dos absolutos brutos - esparsas nuvens. Valores em xeque; partidas as meias histórias; sólidasbrilhantes aquelas que nunca na vida deixarão de ser e são. O que respira, hoje, é o que semeia e brota, suave tempo - adoçabranda tua corredeira louca, coração, quieto trabalha. E, por hoje só, sorri.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Engarrafado

Subo os degraus do ônibus com dez reais na mão. Sou a primeira a entrar e dou de cara com uma pequena e irritada fila à minha frente. Três passageiros do ponto anterior ainda aguardam o troco, impacientes. O motorista sua em bicas, sentado ao lado do motor fervendo, mangas de camisa e pernas de calças, feitas de um tecido barato e sintético, arregaçadas até as juntas cansadas. O sol de janeiro tem castigado e, apesar das promessas, o coletivo não tem ar condicionado, como em nenhuma linha dessa companhia, que atravessa inteira a esquecida zona norte da cidade. Aparentando pouco mais de 50 anos, vastas rugas penduradas pelo duro rosto retesado, diariamente dirige um carro com mais de trinta passageiros, aperta um botão que abre e fecha portas dianteiras e traseiras, outro que libera a roleta, dá trocos e informações de itinerários, regula a elevatória para cadeiras de rodas, faz um esforço medonho  para se manter atento ao engarrafamento insano das quase sete, aos sinais de trânsito, ao barulho insistente da cigarra a cada 300 metros, além de carregar na cabeça e no peito suas dores pessoais e intransferíveis - todos temos nossos próprios fardos, afinal, por mais que queiramos não dá pra fugir. Na minha vez de passar a roleta ele explode, as veias do grosso pescoço vermelho saltadas em alerta: "só fico mais essa semana aqui! Não aguento mais dar trocos e dirigir ao mesmo tempo! A vontade que dá é de largar o carro na rua e ir embora!" Eu lhe dou razão, todas do mundo. Digo que é desumano, que ele está certo, que R$ 3,40 é um roubo para a bosta de serviço que eles prestam, que o cartel das companhias de ônibus quer mais e mais lucros em cima da saúde física e mental de quem precisa do emprego, que demitir trocadores e sobrecarregar motoristas é realmente cruel e não tá certo, e tá tudo muito, muito errado mesmo, oras! Ele respira um pouco mais aliviado, parece, passa a pesada marcha com as mãos calosas e segue, determinado, o denso fluxo. Já sentada no banco colado à janela, observo distraída as vidas que passam lá fora e a minha respiração entrecorta. Não é mais tão difícil entender porque alguns motoristas do único ônibus que me serve para chegar ao trabalho passam direto do ponto cheio toda manhã, deixando alguns furiosos passageiros apressados e atrasados a ver navios. Decidi, então, andar alguns metros pra trás e esticar o braço de um ponto mais vazio. Eles sempre param lá.

Sylvia Araujo


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Manoelando eu sou mais feliz. Ele é daquela espécie de poeta que faz nascer plumas nas costas envergadas dos homens e vingar sussurro de riacho manso no meio dos automóveis enfurecidos. Ele é, e não foi - como disseram algumas notas de jornal -, porque a poesia não sabe ser mortal, não apaga quando se fecham os olhos ou se termina um livro. Ela fica lá, gravitando, vibrando dentro da gente, aquecendo as friagens da vida e embalando os sonhos no peito.

É emocionante ouvir a voz doce desse passarinho encantado lendo três das suas poesias no vídeo.

"No meu morrer tem uma dor de árvore." [Manoel de Barros]

terça-feira, 11 de novembro de 2014

 
Às vezes gasta, bruto remendo, partida, despedaçada, exausta, manca. Às vezes só suspiro fraco em meio a tanta distorção, pavões em transe, dor lancinante, susto, choro ou privação. Às vezes, um tímido talvez ou puro e cristalino não (às vezes sonho, asa, raiz, às vezes tudo ou nada, casa, às vezes chão). Mas tão resistente e plena por saber de si ser dona inteira que, mesmo pouco vistadmirada, brota, sem se cansar de ser, a poesia, o que a esperança desesperançada sempre e sempre cria: nos meus olhos, pó transmutado em companhia, nesse aqui cansado coração, denso orvalho úmido, pão.
Sylvia Araujo

domingo, 26 de outubro de 2014

Cronicamente Viável


Esse processo eleitoral brasileiro tem me feito pensar muito. Vivemos na última semana um clima de copa – dois países, duas bandeiras, uma só terra. Os ânimos acirrados, os punhos levantados e cerrados de ambos os lados, defendendo seus sonhos “opostos” com unhas e dentes, ainda têm deixado o clima bastante tenso, mesmo horas depois do apito final. “Memes” sobre término de relações de amizade surgem a toda hora, conhecidos e desconhecidos se agredindo por escrito em várias redes sociais ao mesmo tempo – o que agrava ainda mais a tensão da coisa: o pessoal passa a ser público e vice-versa.

Todo mundo precisou se posicionar, definir de que lado estava. Basicamente, uns defendendo o social, outros o mercado, como se esses dois caminhos não fizessem parte de um único objetivo: a construção de uma nação maior, mais sólida e forte, mais respeitada mundialmente, mas foi nos imposto escolher. Houve também um número bastante expressivo de pessoas que manifestou nas urnas a loucura dessa bipolarização e anulou o voto, ou votou em branco (que no final dá no mesmo, a gente viu nos vídeozinhos que circularam pela internet), eles têm o meu respeito. O povo brasileiro - primeira vez que vejo isso na vida! - se envolveu com a política do país, leu, se informou e votou consciente. Isso é incrível e histórico!

Li agora uma frase no facebook, compartilhada por um amigo de, provavelmente, uma amiga dele, que diz: “Dilma e Lula vestidos de branco. É sinal de construção da união nacional. Bonito de ver.” Vejo um pouco por aí. O Brasil - e o mundo - está vivendo um momento de reconstrução histórica. Já está claro que o capitalismo é um sistema falido, vide o resultado das eleições, não dá mais pra viver só do consumo. É preciso parar de mirar só o capital, o celular, o computador, os carros, a aparência das coisas e olhar mais demorado para a terra, para os rios, para o ar que respiramos, para as pessoas à nossa volta. É preciso recuperar o afeto, urgente. No entanto, sabemos também que não dá pra viver nesse mundo sem o mercado, que reforma agrária e igualdade social sem comércio exterior nos faz ser engolidos, virar marionetes políticas. Mas, convenhamos: não precisamos, aqui no Brasil, de um neoliberal nem de uma comunista.

Nós estamos subindo os muros, matando o planeta, derrubando a nossa própria casa e nos afastando dos nossos semelhantes, que são os únicos que podem nos ajudar. Milton Santos já previa, no seu maravilhoso “Por uma outra globalização”, que a humanidade entraria em colapso e flutuaria em uma espécie de vácuo, onde seria necessária uma profunda reformulação política mundial para que as coisas começassem a voltar para o eixo. O capital, com o seu total abandono social, beiraria a perversidade - e lá estão África e Palestina, em seus gritos recentes, pra não nos deixar esquecer.

É preciso que Cuba ofereça ajuda para o controle do Ebola, é preciso que a Bolívia se posicione contra os bombardeios na Palestina, que a Rússia faça transações com a Índia, que o Uruguai espalhe seu incrível exemplo de humildade e contamine o mundo. E é preciso que os Estados Unidos queiram dialogar (isso já é mais difícil e talvez vá pintar por aí, em algum momento, mais uma guerra mundial por um poder tão inútil), claro. Uma nova maneira de enxergar a globalização é extremamente necessária, senão nos extinguiremos – estamos matando os índios, os jovens negros de favela, gente! 

Somos capazes de construir um meio termo se abaixarmos as bandeiras e dermos as mãos. A América Latina está forte e unida, "chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor". Somos capazes de mostrar ao mundo como é que se faz política de verdade – eles estão de olho, estamos fazendo barulho! -, todos juntos, políticos e povo nas ruas cobrando as mudanças, construindo, em parceria, um vanguardista sistema político-econômico, inventando, enfim, um novo e mais justo modelo de estar humano no mundo, através do diálogo.

Que venham as próximas décadas com muitas pitadas latinas mais. E que o amor nos proteja, amém. 

Sylvia Araujo

segunda-feira, 30 de junho de 2014

E um dia a gente descobre que o destino depende somente de a quê e a quem nos destinamos; e de que maneira isso se dá. Aí o sol morno aquece, o vento suave sopra, o peito se enche de ternura, as sementes espalhadas germinam, o sorriso brota mansinho, enraíza fundo e fica.

(um dia a gente descobre que o amor é bumerangue).


Sylvia Araujo

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Vento

A encosta quase verde neon, o cheiro do vento morno dos dias, o estalar da madeira no fogo, as incontáveis estrelas no céu. Os gatos esparramados na sala, os cães bebendo água no açude, as crianças felizes aos pares, o pique pelas portas abertas. As pipas lá no alto do céu, o tilintar do mensageiro dos ventos, o cheiro de doce do tacho, as risadas na mesa comprida. O vinho seco-suave, a poesia dos hojes em branco, os erros, fracassos, lições. Os abraços, os sorrisos, os laços, reconhecidos os mormaços, os olhos fechar. Oferecer as desculpas, o beijo, a flor. E o amor. Seleto, raro, preciso - por isso inteiro e em paz. 

Sylvia Araujo



terça-feira, 20 de maio de 2014

Um quê de espinho, um cisco

Está um dia um tanto quente hoje, não? Muito, muito quente mesmo, bem mais quente que o previsto. Abafado à beça o pouco ar; mal respiro, arde, dói - bem aqui, ó. Uma fisgada funda, às vezes - ai! -, viu só? Que coisa incômoda isso, um quê de espinho, ponta fina quebrada, uma lasca, um rasgo, um cisco, cruz credo. Ontem teve susto de granizo, você soube? Ou foi anteontem? As horas se confundem nesse lugar, os minutos se embaralham, nos ponteiros, ímã, é tudo agora aqui: hoje, ontem, anteontem, seja lá qual for o quando, só sei que teve. Foi em São Paulo, eu acho, ou coisa parecida - no fundo, no fundo, perto ou longe, tanto faz o onde, quilômetros são só rasas fugas, enfim, deixa isso tudo pra lá, melhor assim. Descolou do teto essa coisa toda, despencou do céu, sem parcimônia alguma, uma puta surpresa de gelo, pois é. É o imprevisível dos dias, esses sonhos todos, sempre prestes a derreter no próximo segundo, um deleite desesperançado, percebe? Bonito de ver, até, mas eu não vi, nem senti, porque já estava aqui. Não, eu ainda não me movi, espera, se acalma, que pressa é essa? A natureza é sempre um esplendoroso espetáculo, um circo sem lona, um palco escancarado às incontáveis avarias da vida - é pra sentir. Ah, a vida! Dá só uma olhada, escuta esse barulho todo dentro do peito, presta atenção, observa. Sente esses pingos no rosto, lambe esse sal que, abusado, te cola nos cantos dos lábios e me diz: é ou não é tudo isso? Mais ainda, eu sei: ela é dona de infinitos segredos, precisamos, nós todos, de algum tempo sem dedos. E de certas chaves também, me parece. Isso não é nada engraçado, não sei porque você ri. Está mesmo um dia quente ou eu é que ando suando demais? Olha só essas marcas escuras na roupa, quanta umidade anti-estética, meu deus, quanta nódoa - vê aqui? E aqui também, embaixo dos braços, entre as pernas, esses pelos bizarros, esse rio tão quente que esvai entre os fios, um horror, um horror! Meus pés estão escorregando, reparou? Os dedos colados melando, que nojo. Essa pretidão derretida escorrendo pros lados, essa poça esquisita aqui embaixo e esse mar aí, todo ele bem aí - ê, marzão! Melhor ficar descalço logo, enfiar até o tornozelo nessa areia fina e morna e ir. Faz tempo que ando obcecado com esse próximo passo, me falta é coragem, confesso. Que suplício, que martírio esse ter sempre que ir além, meu deus! O gozado é que o sol está quase todo encoberto, essas tantas nuvens aí, vê só - leões, dromedários, bicicletas, medos, uma porrada de medos, e eu aqui suando. É uma tensão estranha, sabe? Repara como os meus ombros tremem, as minhas mãos tremem, os meus joelhos batem, um no outro um no outro, que sensação desconfortável essa, pois é. Eu sei, eu sei, mas não quero me arrastar, entende? Quando eu sair daqui vou galopar! É. Me dá até vontade de rir só de imaginar, escuta só: vou tirar os chinelos, bem devagar, e vou chegar ali, bem na pontinha, tá vendo? Mas bem na pontinha mesmo, só apoiando o calcanhar. Um balanço de leve e pronto!, meus pés já vão estar na areia, simples assim. Aí, eu vou correr muito, muito rápido, com os braços bem abertos e os cabelos voando. E quando eu chegar lá, bem pertinho, quando aquela água verdeazul encostar seu frio na ponta dos meus dedos e abraçar os meus calos, eu vou dar três pulos grandes e, de olhos bem abertos, vou me jogar. É sério! Mas calma, calma que eu ainda estou aqui, racionalmente, calculando tudo. Tem que ser um daqueles passos perfeitos que a gente dá na vida, sabe? Os pés, a areia, a água, o salto - ah, o mar, o imenso mar! Só um pouco mais de paciência, um pouquinho só, tem dó, que, por enquanto, estou daqui olhando, filmando tudo e surfando alto, muito alto, bem na crista desse filho da puta - ah, esse maldito medo!

Sylvia Araujo

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Sopro dos pássaros

Com a lâmina fria e gasta enterrada bem fundo no peito, um suspiro. Dois, exaustos, e já me foge o ar - rascante, abafado, úmido. Seco e úmido. Seco de dar dó. O medo alarmante do barco tão frágil virar já sumiu no horizontehoje, desapareceu lentamente à turvas vistas, desde aquele anoitecer nublado irrepetível. O medo é monstro aborrecido, é âncora. Ninguém se lembra porque ninguém viu aquele tanto azul se esparramando, entregue, pelo chão gelado. Mas eu sentia que aquelas contas todas, aquele tanto mar, aquela bruta urgência era só vazio ensurdecedor, cheio de qualquer coisa pouca que conviesse agora. Eu sentia, cega.

Atiro pedrinhas redondasmiúdas no espelho do rio, os pés descalços sujos, o peito em luto, os olhos ardendo, enquanto o vento vem - insistente mansidão-frescor - me falar baixinho do amor. O vento sabe do amor. E a raiz, o broto, o sol que esquenta, a areia fina que escorre pedaços por entre tantos dedos, até virar inteira outra vez, incansável. É preciso nunca desistir de acreditar que ainda exista a beleza - a todo tempo os pássaros sopram. E a verdade, o bem sem amém, o abraço inteiro, o riso sem medo de ser apenas riso e nada além. É urgente acreditar para não sucumbir. Por isso aquelas tantas sementes guardadas no fundo da gaveta escura do armário sem uso, percebe? Porque sempre chega a hora, a vida já me explicou, em que é preciso preparar de novo a terra, escolher os melhores adubos e regar com calma e carinho um novo e mais bonito amanhã.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

(pelo) Vão



Teus olhos gritam um silêncio hercúleo. Daqui te ouço, Maria, sou só pedaços. O final da rota te entupiu de ecos, sob escombros treme esse teu peito murcho, já não há sorriso, a lembrança é rala, o amor é sépia, amanhã chegou? Onde está teu rio, tuas meias margens? Por qual das caixas, aquele teu lilás? E essas mãos aí, tão sedentas, imóveis; tão lacradas, sujas; e essas rugas vastas - todas rastros vãos? E esses teus olhos turvos, que eu não vejo e sinto? (nos teus olhos bebo o cheiroazul do mar). Não vá tão logo, que a esquina é perto, o coração é reino e muito mais suporta, o sol aquece sem nenhuma prece: não vá perder-se pra não mais voltar.

Teus olhos berram, Maria, é sede!
Sylvia Araujo

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Ajardinar

Lavra as palavras, feito terra, uma a uma - aduba. Escolhe a dedo o que te sai da boca, do peito, dos pés - caminha. Abraça os desvios, traça outros planos, em mil atalhos por aí, se encontra. Dos poros, permite só o escorrer do suor; é fevereiro, enfim, não há fuga. Já do amor, salgado e doce, exige nada - planta e rega e ama, claro, pra fazer germinar.  

Lava os sentires na corredeira do rio, os cabelos no mar - abre os braços, boia. Retém a maré do lado de dentro, escreve - escreve e canta, não esquece de cantar. Mas cala, também, que palavra é raiz e broto de asa sempre exige silêncio. E respira. Dança, salta, rodopia - escorre -; horizonte é feito de sonhos-nuvens, o dia a dia é hoje, irrevogável - vive.

Leva embora o que não te cabe, deixa sumir o que não te abraça - segue. Soluça as tristezas baixinho, observa os gatos, lambe as feridas. Cicatriz não mata, não mesmo - renova o foco, resiste. Escancara o peito pra esse sol que insiste em ser sempre o mesmo e ao mesmo tempo outro - transforma. Os medos, os cercos, os charcos - abandona. E lavra e lava e leva - que o deserto se ocupe em florescer por si. 

Sylvia Araujo    

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Aos exaustos, pérolas

Chove ainda, menos que antes. Daqui, pela janela escancarada, assisto, enlevada, ao incessante e sedutor desfile das translúcidas gotas em queda livre. A poesia abranda o som estridente do alarme abusivo que, de tempos em tempos, arranca pessoas de suas casasraízes para plantá-las em lugar nenhum. Vejo pérolas, por segundos, abotoadas ao longo dessa cortina esbranquiçada que se esparrama até onde minha turva vista alcança; escuto gritos. 

Uma criança chora, aflita com o rugido assustador da máquina que lixa a madeira recém colocada no chão da sala vazia. A mulher a sacode, imagino, impaciente com o pavor inútil do choro sentido e irritada com o denso pó que colore de ouro o abafado ar que mal respiram. Na rua enlameada, guarda-chuvas estampam estreitos rios multicores no cinzapagado do dia, que atravessam inteiros os impermeáveis tecidos para desembocar, todos, em uma rasa poça qualquer. 

Um homem vocifera impensáveis palavrões, enquanto uma buzina grita, furiosa e irascível, bem exato na esquina do hospital que nunca tem lençóis limpos ou leitos. Alguém acabou de morrer no segundo quarto do terceiro andar; sua cama de vivo, vazia, se mantém virada, impassível, para um descarnado e imenso muro cinza. Seu anoitecer fez a sorte sorrir para o próximo finito da infinita fila que se estende, resignada, ao longo dos pútridos corredores abarrotados de lonjuras. 

Do lado de fora, apoiada a um frágil arbusto que agradece a água depois dos tantos ontens a 40º, uma negra senhora, vestida de lenço e terço, embaralha, ao som de incompreensíveis orações, o sal que lhe irrompe das pálpebras frouxas às pesadas lágrimas que vazam dos céus; a chuva aperta, a dor dói. 

Num apartamento distante de raras mobílias, pequenas e regulares barras em pêndulo dedilham, alegres e isentas, a música que brota dos compridos e mornos ventos sem direção. Ao longe, a massiva voz da desgraça é ouvida em vários tons, grave uníssono escapulido das muitas bocas que habitam as polegadas das tantas caixas alienantes e suas falsas vazias sintonias. 

O dia chora, enraivecido por esse mundo imundo, de tanta cobiça e inveja, de tamanho desamor e abandono. Mas a beleza insiste e, quixotesca, resiste, implacável, no mergulho macio da reluzente colher em alva farinha, no acalento da cebola que abraça os dentes de alho no fundo oleado da antiga panela de ágata, no chiado baixinho do azeite que se mistura ao tamborilar quase eterno das gotas elípticas no chapéu gasto do fino teto. 

E o encanto renasce, a cada nova cor que explode no pequeno jardim; a cada coreografada revoada dos pássaros, que ensaiam rasantes ousados entre os úmidos blocos inertes de concreto; a cada dia que nasce e morre, enchendo de amanhãs, no fim, o peito de quem, por hoje, exauriu. 

Sylvia Araujo  

terça-feira, 22 de outubro de 2013



O dia se espreguiça lânguido, comprido, alongado e, mesmo cansado das tantas horas, dos muitos riscos, dos tantos inúteis conflitos, sorri resquícios lilases e se derrama inteiro quase azul em mim.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Com olhos de Portinari


Ir em frente semeia alguma esperança, mesmo que não tenha sobrado nada do que um dia houve, mesmo que não se tenha nada para levar adiante, além da fome, além da falta, além do homem - nome próprio em si mesmo, invisível-impróprio para quem vê de longe a sombra dos muitos ossos, dos poucos ofícios, das tantas ausências. Ir em frente é enfrentar teimosamente o que já é fim muito antes do início, é adiar o grave destino-erro com as reles forças, é retirar-se, retirante, do que, desde sempre, não há. 


Sylvia Araujo



terça-feira, 23 de julho de 2013

Dona Lourdes

Em mergulho profundo na comunidade do Escondidinho - escondida, mas bem escondida mesmo, entre Fogueteiro e Prazeres - encontrei D. Lourdes e seu sorriso imenso, que toma de assalto o corpo inteiro, dos olhinhos miúdos às artísticas mãos.

Cria da comunidade desde moleca, com os filhos já crescidos, vive hoje com o marido em uma casa pequena e muito humilde, onde, de porta aberta para o ar circular, junta retalhos multicoloridos em uma cansada máquina de costura. 

O mais bonito, além de observar estarrecida a transformação daqueles pequenos trapos em linda colcha, foi sentir o transbordar de tanto amor e alegria em cada ponto que dá na união das tantas texturas.

A recomendação da supervisão foi de que não tirasse foto das pessoas, mas não resisti ao olhar iluminado dessa senhora tão incrível e perguntei, meio tímida:

- Dona Lourdes, queria pedir uma coisa pra senhora, posso?
- Claro, minha filha, o que é?
- Eu queria levar a senhora comigo. Posso tirar uma foto sua?

E ela, com aquele sorriso que abraça apertado, beija e rodopia a gente a metros do chão, ajeitou os tecidos com todo carinho e me olhou bem assim:

Sylvia Araujo

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Palavra plena

é quando a imagem clara sobrepõe o verbo. 

Sylvia Araujo

quarta-feira, 5 de junho de 2013

O mundo, parte dele ou vice-versa

Andava cabisbaixo, voleando ao ido alguns frágeis esquecimentos pelas poucas frestas das longas manhãs cinzentas. Os ombros, displicentes, projetados em agudo ângulo sempre em frente, resultavam em uma discreta protuberância elíptica que saltava em sutil excesso sobre o cós avesso da calça jeans puída. Nos pés, uma firme crosta alaranjadendurecida gritava ausências a plenos pulmões. É que o tempo, o medo e o oco foram lentamente transformando - ano após ano – a envergada sola em bruto casco e os longos e presunçosos dedos em garras irreversivelmente tortas, de onde brotaram, inescrupulosas, escuras e defeituosas unhas. Sob cada uma delas, restos.

Os grossos e enegrecidos cabelos, alvoroçados pela ansiedade noturna dos próprios indicadores e polegares amarronzados em pinça, apontavam incertos para todos os lados, feito setas em labirinto de fauno. Era floresta de vastas matas aquela cabeça tão entupida de esteios. Era nó de marinheiro; mar bravio, após longo e inexorável anti-cio. Em seus longínquos olhos, ao fundobemfundo, morava em confundido eterno um vazio extremo – cheio desses nadas que não se preenche com alguns poucos brilhos ou qualquer rotineira existência crua. Tinha olhos de vento em tempestade, Olívia sempre me dizia. Joaquim trazia bem junto consigo uma densa correnteza inescapável de rio. Tinha peito amplo de mais viver - mas a vida vã não quis.

Joaquimiúdo vagava ansioso pelos arredores de seu pequeno mundo, como quem está sempre prestes a desencavar valiosíssimos tesouros. Eufórico, da hora em que seus atentos olhos se abriam à imensidão do tempo ao momento em que suas minúsculas pálpebras pendiam frouxas de cansaço, adicionava todo inédito e quase inaudível ruído à sua incompreensível e interminável playlist. Anotava, sem grandes pretensões, mas muita alegria, em um gasto caderno de folhas amassadas e encardidas, o inconfundível detalhe do gosto da terra umedecida pela surpreendente geada do outono; classificava os exclusivos odores dos acontecidos dias – categórico - em listas muito bem separadas: o acre seco do irremediável nunca, jamais, dividiria página com os adocicados poréns. Assim, minuto a minuto, ele bem-vivia.

Acontece que Joaquimiúdo cresceu, como toda criança que arrebenta no mundo sem pedir licença ou ser, quiçá, bem quista, que seja. Adulteceu lentamente diante dos incrédulos olhos vistos daqueles que nunca o compreenderam, mas viam nele uma espécie de santo entortado, de sonho etéreo, de elo para sempre perdido. Seus tesouros – sua tamanha reluzente riqueza sem-fim -, a cada breve dia que escorria, impávido, valiam, pouco a pouco, um pouco menos. Adultos desejam, planejam. E planos não cabem na amorosidade inédita de todo agora: se fazem amanhãs eternos que nunca vêm. Não fosse aquela irritante teimosia branca em ser do mundo um pedaço dele, tal qualquer outra microscópica parte sua, quase não teria sofrido neste aflitivo e torturante desdizer, insinuou dia desses, Olívia. Joaquim espichou. E o mundo encolheu.

Distraído completo das coisas mesmas dos dias, arrastando-se despropositado e mecânico pelos afazeres mais comuns da vida de sempre, surpreendentemente apaixonou-se, então, aos vinte e poucos. Desfez, sem nenhum esforço, todo mal entendido sobre a provável desaparição de seus tantos antigos desejos latentes, quando preencheu-se inteiro de um amor que muito bem lhe convinha. Ela, perfeita quase miragem, carregava, brilhando nos lábios, uma certa certeza implacável e, suave, cheirava docemente a jasmim. Por onde passava era raio de sol, radiante luminosidade que não cabia em si e, por isso, espontânea e leve feito teia recém tecida, toda inteira esparramava. Para ele, o mundo alargou-se, suspirava Olívia com os olhos úmidos. Nesse momento, em instinto, ela apertava com força os olhos para de imediato focar a atenção em qualquer inalcançável movimento ao redor. Nesse momento, ela sempre me dizia não ter absolutamente mais nada a dizer.

Talvez eu tenha visto de relance, um dia, uma constante pequena chama amarelecida sobressair quase incolor do meio do pálido e enregelado lilás que fazia reconhecer Joaquim há anos. Imaginei que, de fato, a partir daí, o mundo deixaria, enfim, de ser mero mundo para voltar a ser parte dele e vice-versa. Tudo parecia correr naturalmente bem com os cheiros, os gostos, os sons, os toques. Joaquim reavivava entusiasmado, um a um, seus valiosos tesouros de infância e, pouco a pouco, transformava, cuidadoso, o objeto de seu imenso e inexorável amor - e sua particular existência - em seu próprio e seguro habitat concreto. Até que, numa quinta-feira em que as folhas alaranjadas, levemente agitadas, voavam apressadas em círculos concêntricos pelas sujas calçadas, cansada de ser toda mundo e desejando a simplicidade do status de ser apenas uma microscópica parte dele - como toda e qualquer outra parte - ela se foi. E, mais uma vez, o mundo encolheu.

Joaquim manteve-se estático, sentado sobre as magras pernas em cruz no chão rachado da varanda sem teto, absorvido absorto por um horizonte mais estático ainda, por dias mais dias seguidos. Não comia, não dormia, não chorava – contei o desconhecido fato, sem alterações na voz, a uma emocionada e anoitecida Olívia. Aos poucos, foi largando em cada canto um considerável pedaço de mundo, até que nada mais restou além do que hoje e agora se vê. Esse homem, que deixou de ser o que foi há tempos para se tornar o inominável que o mundo retém em recusa, talvez mantenha ainda alguma pequena valia daquele miúdo Joaquim; talvez ainda carregue sonhos – não planos – como um tesouro escondido, do qual se perdeu o mapa para não deixá-lo escapar de vez.

Olívia, sem dizer palavra, aproximou delicada suas mãos em concha à minha boca seca e rachada. E, sentindo a trêmula quentura úmida que entrecortada me escapava, sussurrou baixinho em meus ouvidos por anos inteiros lacrados: ainda respira, vê? Estou de volta, para sermos os dois o mundo, crê, Joaquim? E, aninhando as minhas mãos calosas e imundas entre as dela, quase impalpáveis de tão mundanas, simplesmente sorriu.
                    
Sylvia Araujo

terça-feira, 4 de junho de 2013

E espanta a tristeza dos peixes com o movimento suave das pontas dos curtos dedos. Respingazul.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Talvez

Talvez fosse árduo amparar com firmeza o seu corpo pesado - quase imóvel de tanto inchaço - por tantas horas seguidas, enquanto as palavras jorrassem aos montes de sua boca seca e cansada, rés-condenadas ao eco infindável do tempo. Talvez fosse estranho te encontrar aninhada sozinha no canto frio do chão descascado do quarto, soluçante feito humano estreante, minutos depois daquele sentimento opressivo, doído - ininteligível - te fazer remoer um bocado os tamanhos excessos. Talvez fosse inédito que arrancasse aos gritos os tão bem tratados cabelos em um inexperiente movimento de fúria; que arranhasse inteiros os curtos braços, o rosto impreciso, o rijo pescoço, em branco desespero, em mais pura, cristalina e inocente negação. Talvez fosse encargo, imposto, karma suposto ou coisa que o valha, o que me fizesse abraçar seus conflitos com a força de tudo o que eu sinto e não sei explicar. Bem no meio do olho oco da noite escura e voraz, exatamente no instante em que você não mais conseguisse dormir, pelo incansável fantasma da dura presença das suas tantas ausências, eu sucumbiria. Talvez. Cheguei a cogitar essa hipótese caótica dia desses, não ri. Recordo vagamente de te imaginar assim, tim-tim por tim-tim: trajada com aguçado esmero de um avesso que eu jamais conheci. Era batom cor de telha borrado, salto agulha, de espanto, partido e um vestido que nunca foi seu, todo-inteiro amassado, ostentando uma distinta e portentosa nódoa rubra, fruto sabe-se lá de que. Eu só sei, meu amor, que talvez eu morresse vezes sem conta se essa tamanha dor se alastrasse tal hera em muro sujo de escritos vazios. Que talvez eu ficasse por completo perdido se você se aventurasse tão longe; que talvez até o seu inigualável olhar de folha ao vento se apagasse irremediavelmente naquela fotografia gasta de um breve, recente e feliz inverno. Ou não.

Sylvia Araujo

quarta-feira, 20 de março de 2013

Frequento silêncios como quem busca.











(até encontrar).

Sylvia Araujo

terça-feira, 12 de março de 2013

Afluente-se


As tais flores, em sua delicada e perfeita miudeza de flor, são matizadas de um amarelo pálido - um tom abaixo do que reluz sempre quando o pequenogrande menino sorri. Vê-se - se bem se observar – por entre as microscópicas pétalas, escorrerem, contidos, estreitos e regulares afluentes alaranjados. Ela deságua - rio que é - sempre que abraça com os úmidos olhos o invisível jardim coalhado de operárias aladas. Enquanto beijam flor a flor, num amor de enlevar o mais carcomido e dolorido coração, ela deixa estourar no silêncio da sombra do arbusto um soluço inesperado e bonito de esperança. O menino, seu menino de poucos anos e muitos sonhos, há de pendurar seu sorriso mais puro na quina da mais alta estrela. Ele terminará por regar, cuidadoso, seus medos com os pingos da chuva, ela crê. Há de, feliz, florescer, desertar, amarelolaranjar! Para que enfim compreenda, sem esforço qualquer – e essa é a maior das lições, não lhe restam dúvidas - que nesse mundo de infinitas milagrosas surpresas, nada deve ser tão rijo a ponto de não permitir-se embevecer. Para que sempre carregue consigo, por todo o extenuante e longo caminho, as pequenas e delicadas sementes de seu próprio e colorido jardim.

Sylvia Araujo

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Vírgula

Cravou os olhos vermelhos-vidrados no dorso imponente do impossível de tal maneira que, dali, só seria capaz de lhe abduzir, vez por todas, o gosmento refastelar de uma molenga lagarta, prestes a abraçar os tons invisíveis do arco-íris e vestir, suave, o ar.

Sylvia Araujo

domingo, 11 de março de 2012

(no poço
no fundo do poço
no fim do poço sem fundo
a mola
gasta)

Sylvia Araujo

terça-feira, 6 de março de 2012

Campo minado

Quem ousasse aproximar-se - palmos diante desse teu invisível jorro de escuro - veria mais que o tal oceano simétrico que insiste em fazer arder, numa insana teima recorrente de horizontes: 

(assim, prenhe de nãos, tua imagem exausta a lubrificar cuidadosa os vagos dias e auscultar silenciosa as dobradiças das noites infindas - a respiração entrecortada aguardando em profunda aceitação a lufada de ar puro que nunca vem) 

ninguém.

Quem chegasse muito perto - os pés tocando a margem desse teu profundo rio de entulhos - veria muito mais que as tais janelas cobertas de heras que insiste em abrir aos pares, numa obsessão descabida de quem rasga sóis com os dentes:

(assim, banhada de antigos véus, as ranhuras fundas a recenderem incontáveis medos, a loucura cega a te dilatar as veias secas, essa tua máquina muito gasta em ponto de eterna estafa, o labirinto fundo que te entontece e afoga nesse sem fim além)

mais,
ninguém.
Sylvia Araujo

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Nuvens, céus e sóis

Quando está em silêncio no meio do quarto, brincando com pedaços recortados de papelão sem uso, tenho a impressão de ver, no fundo dos seus olhos de criança, o despontar de uma reluzente estrela cadente. Às vezes sacudo a cabeça, de um lado pro outro, pra espantar a claridade que escorre da sua boca, entre barulhos de locomotivas e sirenes. Quanto mais desacredito, mais forte fica a luz. E tão quente, que o suor me escorre pelas pernas, mesmo enquanto me mantenho invisível atrás da porta azul. É bonito ver o que sempre acontece depois: ele fecha os olhinhos, e os braços pequenos se esticam em infinitude de pássaro. Um sorriso branco e levinho vai nascendo bem devagar, no canto direito da boca, e se esparramando feito pipa colorida em céu sem nuvens. Quando transborda, o rio toma inteiro seu corpo franzino e o umedece todo em gargalhadas nuas. Contenho o riso, pra não perder a miudeza do enrolar das transparentes contas de horizonte em seu pescoço de menino. Depois disso, quando já é todo nuvens, céus e sóis, me olha com aquele rosto puro de brisa e pergunta, resplandecente: quer brincar também, mamãe?

Sylvia Araujo

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Mantra


Fazer o bem, todos os dias, amém.

Sylvia Araujo

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Deslembrança

Num desses dias de verão, sentindo na pele escorregadia o calor viscoso que subia do asfalto durante o susto da chuva inesperada, fiquei parada ali, na esquina da rua vazia, com um dos calcanhares apoiado na quina imunda do meio-fio, os cabelos encaracolados já meio esticados encharcando aos poucos, a blusa de algodão quase sem cor prestes a admitir uma transparência beirando a indecência e as lentes dos óculos acumulando, impassíveis, um monte de micro-gotículas arredondadas cor-de-chuva. 

Não me lembro muito bem porque estava parada exatamente ali, naquele lugar, mas sei que observei horas a fio, quase compulsivamente, as gotas pesadas e urgentes formarem poças enormes e se esparramarem em rios, do meio pros cantos do chão esburacado. É impressionante como a prefeitura não dá a mínima, mas disso a gente já sabe, pras crateras enormes que se formam e aumentam a cada dia mais aqui onde eu estou agora, que é onde eu estava quando chovia e de onde não me movi nem um passo desde então, sei lá onde isso fica ou de que maneira eu vim parar aqui. 

A questão é que, assim como a prefeitura, os donos dos carros de todas as cores e tamanhos e anos, com IPVA quitado ou não, não importa, também não dão a menor bola pros buracos, muito menos pra chuva, forte ou só aquela finíssima cortina incolor, que se foda, e eu me lembro como se fosse hoje, que nesse dia passavam quase voando, com a ansiedade própria de quem tem aonde chegar. Eles, comprovadamente, pode observar, têm mesmo muita pressa quando chove e, como sempre diz a minha mãe, quando a tempestade resolve dar o ar da sua graça, naquele dia chovia à cântaros. 

Eu estava vendo tudo, desde o início, e me mantive muito atenta aos carros, todos eles, que corriam como loucos carregando pra longe uma ou duas pessoas, às vezes três, que inevitavelmente embaçavam os vidros fechados com as suas respirações asfixiadas e quentes como o verão. As rodas, que ninguém via porque estavam afogadas em tanta água, nem eu, que estava ali alerta há tanto tempo que nem me lembro quanto tempo foi, abriam apressadas uma estrada no meio do rio do meio da rua e, quando sumiam na esquina alagada, deixavam pra trás um rastro de cor, no tom exato da lataria do carro, misturado com o tom dos meus olhos marejados, mais o tom da chuva branca às vezes quase-azul. 

Eu não sei te dizer no que eu estava pensando enquanto me mantinha parada ali. Na verdade, nem sei te dizer se estava pensando em alguma coisa, qualquer coisa de concreto, ou se simplesmente eu era só um vazio em pé, debaixo da chuva forte, misturando as minhas lágrimas salgadas àquela água adocicada que caía do céu, esmaecendo as lembranças, deixando de ser qualquer coisa que um dia eu já tivesse sido por mim ou por alguém. 

O fato é que fiquei ali, com o meu all star branco lentamente acinzentando pra combinar com o céu que era muito cinza, que era quase preto nesse dia estranho, observando e vivendo a chuva, o asfalto, os buracos, os carros, e eu te juro que não me resta nada além de uma vaga lembrança de que talvez, e eu digo talvez porque os fatos me faltam e só me restar imaginar os porquês de todo esse equívoco, aquele tenha sido o dia em que eu finalmente decidi que iria me esquecer de vez.

Sylvia Araujo

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Pecadora e herege. Infeliz, nunca.

Quando você tem um problema dos grandes, as pessoas esperam te encontrar com a pele sem viço, com olheiras enormes, com dez quilos a menos e um monte de tristeza escorrendo pelos cantos dos olhos. Sorrir vira pecado. Cantar, então, se torna quase uma heresia. Parece que esperam que você cultive a dor e faça dela o seu jardim incolor, até que tudo se resolva - até que o problema não exista mais. Acontece que eu não vou fazer dos lamentos a minha música. Não vou deixar de amar, de dançar, de gargalhar, de aproveitar os mínimos momentos e ser feliz apesar de, ainda que. O problema não vai se transformar em fracasso, simplesmente porque eu não fui capaz de recomeçar, ou porque não tive a presença de espírito de zombar da cara dele, quando quis me derrubar - e desisti de seguir. O meu mundo não vai se espreguiçar cinza todas as manhãs e eu não vou me tornar um poço árido de rabugice e agressividade - não esperem por isso. Todos os dias, dou bom dia ao dia que levanta e vou. Pra que, quando no fim tudo enfim desanuvie, eu seja capaz de agradecer a mim mesma por ter conseguido mais uma vez e tenha alegrias  suficientes estocadas para superar os muitos mais, que infinitamente virão - até que a morte nos separe, amém.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Ruminante

Me faz falta dividir o silêncio com o teu não-dizer. O barulho das folhas virando, a fumaça dos cigarros dançando, o cheiro do café cor de piche - o baseado apertado, sempre à mão no cinzeiro. Caymmi ensolarando os dias chuvosos, Edu fazendo chover aqui dentro, os choros, os sambas, os jazz - você. Teu violão de cordas novas, tua voz liberta enchendo a casa, eu fingindo que nem via, pra deixar o teu momento inteiro - só pra te observar ser, comigo invisível ali. Aquela janela que adivinhava o azul do dia, enquanto a vontade de ficar estirada se espreguiçava no corpo exausto das tantas noites embaixo de ti. Eu esticava o olhar, de vez em quando, pra matar a saudade das horas seguidas em que a tua barba mal feita, tão linda, ficava sem roçar o meu corpo, enquando brilhava sob a nesga de sol. Você via? Eu só queria aquele quase-nada que era tanto, tanto!, que meu sorriso abria só de te ver dormir. Você roncava quando bebia demais. E falava sem parar, os olhos brilhando, as mãos bailarinas acompanhando de perto o raciocínio. A sua cara amarrotada, os seus montes de livros, o seu abraço apertado, as horas intermináveis em que dividíamos ideias e música. Eu era sua e você era o mundo. Não é fácil lembrar tudo isso, já faz um tempo que tento esquecer. Mas não deu. Porque muita coisa mudou depois de você. Porque descobri compartimentos aqui depois de nós dois. Porque você dividiu as minhas águas, foi o homem que eu sempre quis e se foi. E eu fiquei, latejando a poesia, a filosofia, a genialidade. E engoli tudo isso com um monte de saliva e lágrimas porque sei que assim, igualzinho assim, nunca mais aqui dentro de mim.

Sylvia Araujo

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O amanhã é mais bonito quando dói

Sentir é ultrapassar muros com asas imaginárias. É ter, bem dentro, um jardim inteiro e, nos olhos, os mares do mundo. É carregar consigo o cheiro das terras, o sopro do vento, as gotas de orvalho. E se deixar rodopiar pelo farfalhar delicado e fugaz de uma linda borboleta multicor. Sentir é viver, ser - embevecer-se. É mais do que muita gente poderia suportar. Mas pra quem dói - veja bem se não é assim - o renascer é como brotar sol, por detrás das enormes montanhas, em dia cinzento. É ter o azul se esparramando no peito bem devagarinho e nas pontas dos dedos guardar em segredo a doce magia de recomeçar.

Sylvia Araujo

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Súbito azul

E sobre a lucidez perene dos galhos, por entre as folhas verdes-modorrentas,  eu vi se esparramar exangue o  azul do dia - como se não soubesse que o seu fardo (por mais que pareça injusto, soturno e pesado) é ser vivido farto-inteiro, sem nunca, jamais, ter sido esperado.

Viver é feito de repentes.
Sylvia Araujo

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012


Eu só sei saber o que não se sabe: o desabrigo da pele, o descaso dos olhos, seu coturno - imundo - a esmagar as flores sem nenhum porém.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Até o nunca mais viver sem ti



Feriu-me irreversivelmente as retinas esse teu riso solto, branco, afiado - tão displicente, blasé. A pior das tuas armas, os dentes (sempre). E você bem sabe que assim, ligeiramente entortados, tão arte contemporânea - tão livres! - são sempre um forte agravo à minha condenação: querer-te imenso até o nunca mais viver sem ti. O golpe mais baixo - ainda mais baixo que a rebeldia dos dentes a fugir dos trilhos dessa tua boca bonita - é o tal meio-olhar de lado, também entortado, esse tanto-sarcasmo, meu deus! Essa santa transparência, aí, cor de mel que carregas; que me faz assim tão nua a mim, que ando bem vestida de medos nos últimos tempos; que ando incontáveis feridas abertas; que ando cega. (Vendou-me, o amor). E cega não enxergo as chagas, sou só planos: um dia, mistura homogênea-nós dois; um dia, um não saber inícios, nem fins - um dia nós.
Atados; eternos.
Um dia (a) sóis.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Mimetismo

Fechei os olhos e fui embora pro meu canto de pássaros e águas correndo. Me empoleirei na árvore frondosa, me espalhei em seus muitos braços, desapareci. Agora sou caule, folhas, seiva bruta - estou silêncio admirado da grandeza do verde, do profundo espelho do lago. Trago em mim os vazios do mundo inteiro, pra encher - gota a gota - dos mais delicados gorjeios. Sou ventre em asas, sou céu.

Soul
música
muda.

Sylvia Araujo

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Vácuo de repentinas faltas

Naufrágios. Fome de terra firme - ganas de ar queimando a garganta muda - afogamentos. Nas costas curvadas, milhares de quilos, ausências. No horizonte, milhares de pântanos, litros de vastos mares - nos cabelos, âncora. Um vácuo cheio de repentinas faltas, estúpidos faleceres e memórias rotas pulsando debaixo da pele: eu arranho a derme, arranco os vermes, soluço o vírus, o sangue contaminado, o pouco suspiro. O susto de um breve sorriso oblíquo, de quem não tem medo - e ainda assim treme (e teme o frio) - me enregela. A espinha eriça e as pupilas vagam, foscas. É pesado o punhal que atravessa o tanque e faz escorrer o viscoso óleo da vida. É brilhante a lâmina, é quase espelho. E quando a ferrugem se esparrama feito hera sobre a labiríntica maquinaria do coração, e a maresia emperra o respiro inconstante dos parcos desejos, são meus olhos chovendo sal - mais nada. Sou eu, desespero puro, me agarrando aos restos - as ondas crescendo, a cada segundo maiores, enormes, negras, pesadas, brutais. Sou eu, meus mesmos e inesgotáveis naufragares. Sou eu, insistente naufrágio em mim.

Sylvia Araujo

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Suspiro de uma nota só

Quarenta anos. Um pouco mais, talvez, mas não passava dos quarenta e cinco, disso estava certa. Os olhos diziam muito mais - eles sempre dizem muito mais do que a boca ou o corpo almejam - e traziam séculos dependurados nas bolsas escurecidas, que faziam moradia bem embaixo daquela beleza arredia. Eram bonitos sim, eram muito bonitos aqueles grandes espelhos cor de mel derretido. Mas por algum motivo, fugiam, perdidos, ela sabia. Escondidos detrás daquela cortina espessa e leitosa, eles sorriam uma tristeza bonita, de quem escorre e morre com fome de vida, de quem maldiz a sorte e deseja com todas as forças um amanhã reluzente de sol. 

Debruçado no balcão, de pé, ele virava um copo atrás do outro - as lembranças afogadas no líquido amarelado, o soluço asfixiado pela espuma branca. Ela, serena, de longe observava. Chegou até mesmo a ver, em uma micro fração de segundo, uma lágrima tímida e transparente que ameaçava, insistente, se lançar do parapeito ciliado. E acompanhou, atenta, os movimentos enérgicos imediatos dos braços, os gritos exasperados, a gargalhada enfurecida de quem descaradamente se aproveita da falta do meia-direita - em atacante do time de outro estado - para exorcizar seus próprios fantasmas, congelar seus próprios demônios. Ninguém percebeu o tanto de ausências que escondiam aqueles muitos excessos, mas ela, do meio do seu próprio buraco, assolada pelo dolorido reconhecimento da falta, avistou e doeu junto.

Em algum instante, que nunca-jamais saberão precisar, por conta do tamanho atordoamento daquele enfrentamento, se olharam. Subiu bailarino pelo pescoço esguio dela, tomando todo o seu corpo rígido, um cheiro  intenso e árido de desejo e medo. Um gosto de culpa, de auto-flagelo, de fracasso certeiro lhe amortecia a língua seca - ela virou o copo quase cheio, sem desviar dos olhos dele. Queria engolir aquela dor. Queria tomar pra si, fazê-la abraçar-se à sua, se derramar inteira. Queria dizer do amor. Levantou da mesa e se aproximou - os olhos mudos e úmidos a denunciar seu gesto contido. Bem perto, enquanto os cansaços se fundiam em um único suspiro de uma nota só, abraçaram-se com força - dois desconhecidos que se sabiam como ninguém. Olhando-se bem dentro, os dois precipícios amedrontados a entrelaçarem as lembranças e os futuros incertos, brindaram o amanhã - hasteada, tremulava a esverdeada esperança bonita, em um sorriso branco e feliz.

Sylvia Araujo

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011



Que a minha falta de ausências nunca afete os meus afetos.

(é tudo sempre o tempo todo em mim)

Sylvia Araujo

Bisturi




O pudor castra(a)dor de ser.

Sylvia Araujo

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Cantare


Cantava, invisível. Da garganta oca escapulia um blues rasgado, a dor imensa a evaporar dos muitos vincos. Pés descalços, no meio-fio andava - a pele escura em cacos; os sonhos, poucos. Arrastava os curtos passos e cerrava firme os olhos, enquanto o grave gravitava fundo na caixa ecoante e rompia em fúria os poucos dentes-muros. Toda uma vida de ausências sacolejava dentro da pequena bolsa em remendos. Tantos desditos-incertos explodiam no fundo daqueles olhos tão secos. Nas mãos rachadas, os rabiscos de todos os ontens. Eu senti seu medo, seu desespero, seu desconforto - confesso: eu me afoguei. E entendi, depois dos intermináveis minutos em que estive ali, observando, inerte, que todos somos invisíveis uns dias, muitas, várias vezes. A diferença é que alguns de nós cantam - a melodia a marcar, canina, o breve território da existência - enquanto outros apenas seguem, exasperados com o próximo passo, incapazes de ouvir sequer os seus próprios lamentos.

Sylvia Araujo

domingo, 27 de novembro de 2011

Carmim


Eu não sei. É que alguma coisa tá fora de ordem, tá fora de órbita, tá fora do rumo - sem prumo - me ajuda. Alguma coisa é muito longe assim, tão perto-dentro e eu não sei. Eu juro que não sei, me explica? Não, não tenho medo do escuro, é sério. Essa luz carmim, acesa o tempo todo, enfim, é só pra ver arder o muro alto - medir seu destamanho, enfrentar meu desconcerto. Você pode apagar o facho, se me envolver bem apertado nos teus braços, beijos: e eu te prometo nunca mais tentar fugir de mim.

Sylvia Araujo

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Crença, bença

Não. Não há cheiro, não. Há só um medo esparramado e morno que me diz das coisas que nunca me foram. É só um frio na espinha curva que sobe e desce, me tonteia, escapa. É caso sério esse amor tão grande. E ele ri quando respiro o não, cria covinhas se desacredito. Um riso livre, de fazer barulho, gargalhada pura de criança nua - a boca toda lambuzada - é mel. E eu lhe dou as mãos numa ciranda a sós, nos revelamos luas sem usar desfeitos. Ele sabe ser - o amor - maior! Eu pra sempre aprendo seu enlarguecer. Lá, no meu coração, danado faz ninho, caminho, soluço, maré-lua-cheia, me faz ser inteira. Longe ou bem perto, me oferece no cálice um sopro, um gozo danado de bom: nunca deixe de me acreditar. E vá.
Sylvia Araujo

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Ânsia


Chove
na rua
na carne
aqui dentro.

(e essa novembrância
a me arrebatar 
silente
feito 31
em final dos tempos)

Sylvia Araujo

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

(In)existência


Me impulsionam pelas matas densas pés descalços de curta vida. Pouco mais de trinta anos me embrulham frouxos o corpo sedento.  Sobre os dedos calosos, cortados, equilibra-se em patético malabarismo o expressivo peso da minha vontade - cambaleando, sigo. No início do caminho estreito, uma encruzilhada e um hoje-branco, estatelado em oferenda. Então, me deixo arrebatar pelo perfeito momento-presente eternizado em nesga de sol e aqueço. Esqueço os medos e esvazio dos meus tantos vãos. Sou agora só desejo escancarando os poros e esfregando pelo corpo inteiriço a felicidade suprema de estar exatamente naquele lugar. E estar quem estou. Da grama úmida, a certeza do incerto borbulha, amortecendo os passos. Sorrio. Inexisto na lembrança de uma veracidade inventada e desconstruo. Um suspiro rodopia altivo nas entranhas do nariz e me assopra curto recado do rio: siga. Frágil, pressinto aturdida o arrebatamento das águas negras- revoltas, mas os planos já estão desfeitos. Não há meias-voltas - me resta ir além. O rio que lateja em mim murmura: é pouco ainda, eu estou em toda parte. E quando irrompe inteiro nas veias, arrastando em enfurecida pororoca minhas tantas exatas exatidões, me faz rio. Inundada, so(u)rrio em incurável e irreversível deságue.

Sylvia Araujo

segunda-feira, 24 de outubro de 2011



Viver.

(do verbo cachoeirar-se)

Sylvia Araujo

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Fotografias

Engoliu o gesto ávido com pressa - o coração enxovalhado gritando o atalho que não deveria seguir. Um desconhecido e frio suor sulcava riachos, escorrendo em volúpia pelas mãos trêmulas. Na garganta, emparedada, uma estranha sensação de reconhecimento e intimidade formigava. Não é possível - pensou. Os olhos negros giravam nas órbitas durante o dolorido e profundo suspiro, que inchava lento e pausado a caixa toráxica lotada de impotências. Os dedos largos quase arrancando furiosos os fios ondulados e escuros sobre a testa. As pernas compridas, frenéticas em espasmos, entonteciam, escorraçando o desejo latente. Não é possível - grunhiu.  Cerrou os dentes, disposta a assustar os fantasmas. Não se permitiria exacerbar em seu mundo tão concreto e passível. Não se disporia a sonhar - que de sonhos já havia morrido demais. Fechou os olhos na intenção de negar os próximos passos, mas instintivamente estendeu os braços, enquanto o vento morno e suave atravessava as cortinas fluídas e lhe acariciava sutil o pescoço esguio. Sentiu o beijo, o toque, o sexo úmido. E aquela presença maciça a dedilhar profundo seus mais inalcançáveis segredos. Num rompante, cravando as unhas afiadas no dorso largo e viril do impossível, gemeu.

Sylvia Araujo

domingo, 16 de outubro de 2011

Cálice

Dão rasantes sobre minha cabeça palavras-asas abertas. Montes delas, de todas as cores, em letras garrafais ou miúdas, sobrevoam inquietas em silêncio cúmplice, olhando-se pasmas, reverenciando suas ralas verdades, bajulando e lambendo seus reles saberes. Desdenham de mim - pobre de mim - que não lhes dou ouvidos. Acredito que queiram me dizer algo, mas não há bocas para expressá-las no meio desse céu cinzento. E não desejo que falem. Calem-se! Que me saboreie o silêncio do mundo. Eu me quero cega. Nesse instante em que grito e dilacero por dentro, me desejo entranhas. Não me venham falar de flores, enquanto rumino espinhos. As letras são minhas agora - só minhas, saibam - e somente as que escolho a dedo povoarão meu cálice. Nelas estão a cura de todas essas feridas abertas. São minhas, e é de meu direito permitir que queimem, que ardam, que sangrem. De onde escorre o fel, brota também o antídoto de todo o mal que me corrói. Eu sou a lama e o sol que endurece o charco. Eu sou o medo e a coragem de ir além. Eu sou a dor e o maior amor que já tive na vida. E não descansarei um segundo sequer, enquanto em mim não reinar a paz e o seu absoluto e incontestável vir a ser.

Sylvia Araujo

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Luminescência

Não é preciso mais que pés no chão - a terra úmida fazendo vingar o amor por entre os dedos. Do mundo, em mim, lateja a inspiração eterna da simplicidade em flor. Do que necessito pra me encher de coragem e ir: do mar sem fim, desse imenso céu brotado de estrelas, do verde mato alumiando os dias, do vento morno e nu - que leva embora pra sempre tudo que não me cabe e sobra. No peito, bem guardado, carrego o segredo do tanto em quase-nada. E a certeza de que sou a revolução que hasteia minha própria bandeira. De que sou o vivo amor - e que, por ele, respiro e pulso.     
Sylvia Araujo

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Ah, Clarice...

"O caminho que eu escolhi é o do amor. Não importam as dores, as angústias, nem as decepções que vou ter que encarar. Escolhi ser verdadeira. No meu caminho, o abraço é apertado, o aperto de mão é sincero. Por isso, não estranhe a minha maneira de sorrir e de te desejar tanto bem. Eu sou aquela pessoa que acredita no bem, que vive no bem e que anseia o bem. É assim que eu enxergo a vida e é assim que eu acredito que vale a pena viver."

Clarice Lispector


Enquanto emudeço, ela diz por mim. E como diz bonito, a danada!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Oferenda aos ventos


Obrigada, minha nova estrelinha, por ter sido o ser humano especial que você foi. Criatura querida, zelosa - figura amiga. Uma das pessoas mais íntegras, justas e incríveis que já conheci - de quem sempre tive orgulho, por ter o mesmo sangue correndo nas veias. O meu "eu te amo" pra você é eterno.

Abra as asas, meu primo, que a imensidão dos céus agora é toda sua.


À Renato Scher - in memorian.

sábado, 17 de setembro de 2011

Amém.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A velha e a puta

Esticou o braço delgado para o ônibus e, ao mesmo tempo, em um improvável malabarismo, tentou encontrar as moedas perdidas no fundo da bolsa enorme de couro cru. Além do peso no ombro esquerdo, todos os dias ela carrega na outra mão uma pasta  cinzenta cor de chumbo que, pela sensação desconfortável de ardência na lombar, deve pesar, no mínimo, uns três quilos e meio. Clara é recém formada no curso de Letras da Universidade Católica e, além do trabalho em três escolas municipais, revisa e traduz textos em inglês. Sua vida, nos últimos tempos, tem sido levar papéis para todos os lados, o tempo todo.  Mas existe um porquê:  seu apartamento próprio de dois quartos na zona sul, de frente pro mar, estará quitado em dois anos, de acordo com os seus cálculos, graças ao seu esforço e à mesada gorda que o pai ausente deposita na sua conta poupança todo dia cinco.

Sentada no banco do meio, do lado do motorista, todos os dias repete o mesmo ritual. Apoia a pasta pesada no colo, abre a nécessaire bege, tira dela o pequeno espelho rosa em formato de coração e se olha nos olhos com complacência. Ajeita os fios loiros e finos na trança comprida meticulosamente repartida, passa pó compacto no rosto  branco com um pincel largo de cerdas curtas e espalha um batom quase imperceptível nos lábios rosados. Um suspiro. Dois. Guarda tudo na bolsa, puxa a meia calça na altura das coxas, ajeita a saia nos joelhos e a gola da blusa impecavelmente passada, esfrega a ponta dos dedos nas laterais dos sapatos lustrosos e abre um livro, que só é fechado na esquina de casa.

Nesse dia, no ponto seguinte, na altura da Voluntários, subiu  as escadas do ônibus, com  considerável dificuldade, uma senhora obesa de cabelos  curtos ensebados, trajando um jardim de maxiflores multicoloridas, do pescoço atarracado até o meio das canelas cabeludas. Depois de se arrastar lentamente pelo corredor estreito, desabou ao seu lado, ofegante. Lambendo os fios do bigode escuro lotado de gotículas de suor amarelado, perguntou, numa fala entrecortada e ríspida, se Clara poderia fazer o obséquio de ocupar menos espaço, para que ela pudesse caber também no banco. Solícita, Clara fechou o livro com o indicador marcando a página e, timidamente, se desculpou, tratando de espremer seu corpo franzino de miss entre a velha e a meia janela rachada imunda.

Sem agradecer, a mulher observou por alguns instantes a capa do livro em suas mãos de dedos finos e esmalte transparente e, com um olhar que fez a espinha da garota gelar e seu corpo tremer inteiro em um arrepio incontido, perguntou:

- Bukowski?
- É... - respondeu Clara, quase com medo.
- Gosta?
- Sim.
- Puta. - grunhiu a velha, entredentes.
- Como?
- Puta. Vagabunda, perdida, biscate, rameira.
- Desculpa? A senhora está me ofendendo? - perguntou, sem conseguir acreditar no que ouvia.
- Se lê Bukowski, e gosta, é puta. - cuspiu enraivecida a gorda, já se levantando para sentar duas cadeiras atrás.

Com as ofensas inesperadas rodopiando dentro da cabeça, Clara segurou o espelho de novo e se olhou demoradamente. Deixou que cada uma daquelas palavras preenchesse todo o espaço da boca e as repetiu para si mesma, uma a uma, observando, cautelosa, cada movimento labial no reflexo do coração rosado: Puta. Vagabunda. Perdida. Biscate. Rameira. E sorriu. Arrancou o elástico que prendia a ponta dos cabelos sedosos e soltou a trança perfeita com os dedos compridos. Limpou a boca insossa com as costas das mãos e tirou da nécessaire o batom vermelho, aquele que tinha comprado na revista da Avon mas nunca teve coragem de usar. Abriu os dois primeiros botões da camisa e encurtou a saia, dobrando o cós até que ela chegasse ao meio das coxas bem torneadas. Levantou do banco exalando um cheiro rascante de fêmea e, consciente do poder que carregava nos quadris, ao avistar a velha senhora piscou um dos olhos, a língua úmida desfilando abusada entre os lábios carmim, enquanto puxava a corda presa no teto. Em cima do salto, desceu e seguiu. Inteira puta. E magnanimamente feliz.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Tratado das Pequenas Grandes Coisas

Sentados na borda do rio, bem em cima do arremate verdinho de grama molhada, Cecília e Antônio sorriam com as cócegas da água translúcida nos seus tornozelos-meninos. Há algumas rugas atrás, decidiram de comum acordo se fazerem rotina: um pra outro, outro pra um. Pra isso, assinaram no papel manchado do pão doce da Dona Norma que, despencassem canivetes ou balas de goma - ou seja lá o que caísse do céu - todos os dias se encontrariam depois da escola na terceira árvore, dois suspiros depois do barranco do Zé.

Nessa terça de céu azul, o Tratado das Pequenas Grandes Coisas precisou ser esticado na copa da árvore mais alta do campo e ficou por lá dois dias seguidos secando ao sol, porque Antônio não resistiu e lambeu até com as bochechas todo o creme que estava grudado na parte de baixo da folha, bem pertinho do rabo do "o" da palavra silêncio. Cecília achou graça da cara de sem graça de Antônio e riu pra valer, afinal, o item mais importante do combinado dos dois carregaria para sempre a marca da lambida do amigo - a ausência de palavras seria úmida e doce, até que deixassem de ser crianças e brotasse neles a necessidade de dizer coisas e mais coisas para serem entendidos - um dia sempre deixa de bastar o não-dizer.

Aproveitando o muito que é o quase nada dos poucos anos, Cecília e Antônio seguiram os dias com a falta de regras das suas novas regras debaixo do braço. Davam-se as mãos aos meios-dias e, sem trocarem uma única frase, seguiam sem pressa pra beira do rio, onde sol após chuva, chuva após sol, mergulhavam os pés descalços na água gelada e aproveitavam cada um seu próprio mundo, com todo aquele enorme e excitante mundo em comum.

Hoje - Antônio ao sul, Cecília a noroeste, os corações suspirosos da mesma curva - desembrulham as lembranças com todo o cuidado, em pontas de pés, pra não fazer nenhum pequenino barulho; pra não acordar o silêncio que plantaram no peito tão bem plantado e regaram, dos seis aos doze, com aquele precioso papel lambido de pão e pureza.

Sylvia Araujo