Foto do blog: Mario Lamoglia

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Um(idade)



Caudaloso rio
esse teu branco corpo 
de águas doces-claras.
Dentro de si
arrasta mar
aberto-vivo
por entre
as pedras lisas.
Turbulento e revolto,
é úmido
teu bem-querer -
poesia-nua
de albatroz
em caça.
E eu,
sardinha,
 brilhante e estapafúrdia 
sardinha,
pronta
pra ser devorada
por ti.

Sylvia Araujo



"Se algum dia nos fosse dado mergulhar nesse oceano de minúcias e nus, no fundo, nos víssemos de perto e se suas mãos ásperas apertassem minhas coxas e abrissem minhas pernas e se sua boca sugasse de mim o que tenho de fluido e se você derramasse em mim sua seiva e me engendrasse seus mistérios e me amordaçasse com algas para que eu não gritasse e se seus dentes roçassem os meus mamilos e os marcassem e meus lábios lhe mostrassem outros caminhos e revelassem na minha língua seus segredos. Se algum dia nos fosse dado, seria preciso gemer baixinho para não acordar os peixes."

Adriana Versiani

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ousadia

Esfregam-se em meu olhar
todos os dias
infinitos olhos.
No fundo de todos eles
apenas um par
- e seu castanho-amendoado,
profundo mar -
que me olha
me estreita
molha
e espreita
que quase me cega
com seus tantos seres,
reféns-aprisionados
em duas íris só.

Dentro de mim,
dois olhos-chocolate.
Em você,
a bonita ousadia
de ser multidões
aqui.

(Tudo o que eu queria agora era poder sentir o cheiro do teu silêncio com a ponta dos dedos)


Sylvia Araujo

sábado, 27 de novembro de 2010

Drummond nos teus olhos


É dia de dizer coisas que não se diz a qualquer um, eu sinto. Enquanto você não vem, engulo as palavras uma a uma, bem enroladas, quase emboladas, e guardo-por-pouco-perco lá, bem lá no fundo do peito. No dia em que você chegar, muito perto, quase dentro, vou te saltar no pescoço largo e te encher dos meus melhores beijos, eu sei. E vou esquecer tudo aquilo que ia te dizer agora, nesse exato-angustiado momento, porque perto dos teus olhos de horizonte, toda a importância vira sopro e derrete - praticamente desaparece - bem no meio desse teu oceano lilás sem fim.

Sylvia Araujo



"Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa, do brinquedo que a gente não largava, do acalanto que o silêncio canta, de passeio no jardim. Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo. Corre em outras veias. Pulsa em outro lugar."

Carlos Drummond de Andrade



Pra Marte 
(Maurício Pereira)
http://www.youtube.com/watch?v=m5rTW1pBDyc

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Offline


Olhou no espelho depois de semanas ausente de si. A barba por fazer dizia das léguas de distância e da altura do muro que construiu ao redor. O fio branco e reluzente no meio da escuridão no alto da cabeça não era nada diante daqueles olhos sem vida. Eram seus, não havia dúvidas. Mas de quem seria aquela dor que não lhe doía, mas lhe havia matado? De quem seria toda aquela imensa falta de amor?


Sylvia Araujo

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Cíclico



Brotei
gota.

De um fino
filete
em nascente
de cachoeira
descendo o rio
virei mar.
Beijada de sal
ensolarou
evaporei
renasci
nuvem.

Hoje
choro
tenra chuva
na busca
da essência
de ser pingo
pequeno
e límpido
novamente.

Re-começar
em ciclo
pra sempre
outra

- gota.

Sylvia Araujo

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Borboleta nos trilhos


Caminhava, linda e delicada. Um passo após o outro - a ponta de um dos pés descalços, tocando cuidadosa o calcanhar seguro. Os braços abertos mantinham em equilíbrio o corpo leve e franzino, e davam a ela um quê de bailarina manca. Ela vibrava nos trilhos. E sorria inteira em sua falta de dentes, era pura inocência, menina. O sol rasgava o azul, e seus fiapos brilhantes atravessavam a seda dourada que voava ao vento. Um fio da trança quase solta beijava a flor meio murcha presa atrás da orelha pequena. Seus olhos seguiam o horizonte, como se lá estivesse guardado o maior de todos os tesouros. Ela comia o futuro com a avidez dos que carregam em si a certeza de nunca terem certeza de nada. O trem, suspirando fumaça em seu ritmo marcado pela rotina dos dias, vinha operário. A menina então, se afastou da rota e deitou no chão - os olhos cinzazulados cerrados, a respiração suspensa - sentindo subir pelas costas cada vagão, cada roda. Tocava toda pedrinha pontuda com a extremidade dos dedos e as levantava com um arco do fino braço, deixando cair uma a uma as notas da sua melodia. Era o trem, era ela, era a incerteza e a beleza do improviso em forma de criança ensolarada. Era a música dos dias, do cinza, do morto, e daquele amarelo brotado em tranças, escapulindo sorrisos pela janela da boca dela. Ela era casa aberta, sinfonia escorrendo pelas portas brancas. A locomotiva, altiva e certa em seu caminho indesviável, sem olhar pra trás, sorriu.


Sylvia Araujo

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Pequenezas

I.

Essa dor que carrego nas palmas das mãos - recém-nascida que grita de fome, enquanto eu não tenho mais peito que lhe alimente os medos. Ando paz. Caminho esperanças. Que grite, dor. Que berre. Que morra de fome enquanto eu vingo de amor.


II.

Ouvindo Vivaldi. E parece que os insetos também, em seu balé irretocável em volta das árvores. Sobem e descem, rodopiam - quase dão as mãos. E se separam, batendo as asas pequenas em Allegro. Por entre os bambus, a vida farfalha. O assobio do vento acompanha o mar que me corre por dentro. Cheiro a terra molhada. Encho enchente - barro(o)ca.


III.

No meio do mato, despertador é revoada de maritacas. Cantiga de ninar é grilo, que cisma em fofocar com sapo ao pé de estrelas. A música é o vento, que beija as folhas como se fosse seu primeiro e único amor. A beleza é a imensidão do nada - verde musgo com pitadas de azul-céu. E é pra lá que eu vou. Vazia, pra encher de tanto e voltar maior.


IV.

Trago no peito uma rosa em broto. Na mão, a faca - incapaz de decepar-lhe a vida.

 
V.

Vinha pairando - beira d´água. Os pés descalços assoprando ao vento a areia fina, as unhas vermelhas recém-beijadas de mar. Nos cabelos, trazia um cheiro de vida amanhecida - transparente poesia. Cruzei seus passos, a dois centímetros de tocar sua mão. Ela me olhou no susto do vácuo que o tempo fez atravessar seus dedos nus. E naquele mel, derretido, eu vi. E tive a certeza mais certa da abelha: o meu caminho era ali.


VI.

Tudo que queria era aquelas mãos de pianista, os dedos ágeis e longos desenhando o contorno dos seus olhos à meia-luz. Adormecer com a serenata das falanges compridas rascunhando suas sobrancelhas fartas. Sonhar com notas de marfim. E amanhecer melodia.


VII.

Os olhos sussurram. Silenciam, lamentam, sorriem. São janelas escancaradas ao pôr do sol morno e às tempestades enraivecidas. Jardins brotados, cores. Desertos - areia e vento. Pedras de gelo, diamantes. Brutos. Os olhos vão, me são, tensão. Eles estão - um fio. Fino, leve e vivo - ligação direta dentro-fora, aqui-além. Coração que escapa. Peito que vê. Sou toda olhares.


VIII.

No meio de um soluço, a iluminação. Foi um erro - broto do desespero por sentir-se vivo. Abraçou o violão e compôs um tango. Rascante. Que lhe cortou os dedos e lhe arrancou o sangue em suspiros mórbidos. Dez mãos de terra e o sepultamento - sorriu.


IX.

Andava vazio. Cada pedaço de mato, de riso, de espanto, fazia crescer a montanha no canto do peito. Até que um dia ela veio. E brotou bonito pelos olhos - seus galhos verdes anunciando a primavera. Então, ele ventou com força e espalhou seus cacos - abrindo espaço no coração - pra que ela pudesse espreguiçar seus sonhos e hastear, enfim, a bandeira da invasão.


X.

No início, parecia uma valsa. Aqueles rasgos vermelhos na boca do céu - dois pra lá, dois pra cá. Os gritos me remetiam a um coro, uma ópera, talvez. De olhos fechados, eu tentava afastar aqueles olhinhos brilhantes. Eles tinham a vida magnetizante de uma bala de fuzil e insistiam: por quê? Eu não sei, anjo. Eu não consigo entender porque um homem deste tamanho carrega nas mãos um brinquedo que mata. E esse sorriso idiota na cara.  


Sylvia Araujo

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Às moscas



Diante do álbum amarelecido pelos anos de clausura na gaveta dos esquecimentos, espantei-me ao ver radiante aquele garoto mirrado. Ostentava, do alto do trono da infância, um sorriso branco e sincero - ainda que incompleto e distante. Já não me recordava daquela felicidade sem pretensões. Daqueles olhos translúcidos, daquele peito aberto - daquele eu sem medo. Esbocei incrédulo, frente à fotografia gasta, um meio sorriso oblíquo. Não pelo que sou hoje - esse velho decrépito, lacrimejante de ontens em preto-e-branco - mas pelo menino inteiro do qual me vesti nos anos idos. Pelo que poderia ter sido e fracassei, acovardado. Por aquele que - pelo acaso dos passos na mata fechada dos sentimentos daninhos, que me atormentaram anos a fio - desencaminhou-se e perdeu-se para sempre de mim. Uma lágrima gorda atravessou-me os vales vincados do rosto. E apreciei, salivando, seu gosto amargo. Como quem arranca de uma vez um naco de vida dos dias mais verdes. Como quem inspira 50 anos de árvore em um só segundo. Eu não queria ter amadurecido. Poderia ter evitado as moscas asquerosas, flutuantes sobre a minha decomposição. Ainda assim, apodreci.


Sylvia Araujo

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Mãos ao alto


Enquadrou o meliante. Depois da revista geral, um tête-a-tête. Assaltante que se preze não desvia o olhar, nem se rende fácil à intimidações. Ele era profissional. Chegou bem perto até as respirações se fundirem. O ar saindo de um e entrando no outro, num enfrentamento cíclico e asfixiante. Com a pulsação acelerada, puxou o gatilho. A bala perdida acertou em cheio e derrubou a seus pés o ladrão de corações. Ela pressionou o salto quinze de leve no vale de sua traqueia - enquanto ele acariciava com as mãos ásperas sua batata branca da perna - e sussurrou entredentes, com um sorriso de canto: perdeu!

Sylvia Araujo

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Ao meu rei Arthur



Arthur vem chegando num sopro de brisa. Antes de beijar demorado sua testa rosada e abraçar em aconchego o seu corpo franzino, já lhe faço uma coroa. Todos os dias fio uma volta: hoje é carinho. Ontem, felicidade. Amanhã, começo a enfeitar o alto da cabeça com as nuvens mais fofas - azulbebê. Arthur vem chegando com todas as flores e cores do mundo. E sorte. Muita sorte de conhecer o amor, antes mesmo de receber o primeiro sorriso. Porque eu amo tanto, que não cabe em mim a felicidade de conceber o meu primeiro sobrinho. Arthur é meu rei, de pernas cruzadas, nadando gostoso no quentinho do ventre. Ele é mais uma estrela dessa constelação que faz minha vida brilhar todos os dias. E meu peito ansiar fevereiro - já é carnaval aqui dentro.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Oceano em brasa


Aquele mar aberto
no fundo dos olhos.
Aquele sem fim inteiro,
flamejante.
Aquele sempre
aquele nunca
 aquilo tudo escondido
e entregue.
Aquele verdeazulado que grita
sem dizer uma única palavra.
Aquilo tudo em mim:
um nada-tanto tatuado
a ferro quente
no corpo em brasa.



Sylvia Araujo

domingo, 26 de setembro de 2010

F(r)io



Amolou a lâmina fina na pedra gasta e atestou o fio da faca na palma da mão. O aço cortante fez brotar um rio vermelho entre as linhas da vida e da morte. Faltou sorte. E um coração no peito. Com o olhar perdido no reflexo do espelho, afundou a ponta brilhante na veia saltada do pescoço. O colo arfante suspirando o último ontem. O frio do medo, o frio da lâmina, o frio do fio - tênue. Sangrou todos os medos, escorrendo todas as dores. E acabou. Sorrindo.


Sylvia Araujo

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Um cisco



No broto manso
o pavor da foice.
Já se nasce
à beira da morte
- diz a noite.

O sopro pálido
leva a flor de goiabeira
pra longe.
O vácuo frio
engole a chama tremulante
da vela  
- o pavio, a cera
o toque do tambor, o uivo.

Um silvo longo
anuncia o tempo
que mingua
estreito 
antes um cisco
do horizonte corar
diante de tanta beleza:

A aurora em mim.


Sylvia Araujo


segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Navalha


(Alto mar no final do horizonte - Joca Libânio)



À Joca Libânio e sua música perturbadoramente silenciosa.

Entorpecida.
Violada. Rarefeita.
Violentamente (desman)telada.
E toda. Viva.
Um mundo inteiro dentro
a regurgitar belezas.
Tão grande-imenso. Tanto.
Tão pouco santo. O manto.
Jardins brotando em fúria
de flor em cacto. Seco.
Rompendo estéril. Um risco.
Asas me rasgando o peito.
Nu.
Completamente nu. Alado.
No céu da boca, o sal.
A gota - gorda.
E no minuto seguinte a morte.
O calabouço. O medo.
E o calor da sorte
a me acetinar o frio.
E o sabor do vento
a me saltar dos olhos.
Enlarguecida.
Emocionada. Liquefeita.
Amanhecidamente enluarada.

(entregue)

Sylvia Araujo


quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Neutrino



Amanheceu lentamente em olhos anoitecidos. O peito, enfaixado ponta a ponta de silêncios, chorou baixinho - como quem murmura ao vento frio sentimentos indizíveis. Na cabeceira, a vela acesa da noite escura resistia. Pequena e morna, em seu amolecido derretimento de vela. Aquelas sombras enormes a lhe pegarem pelas mãos geladas. Aquele mesmo conhecido medo a existir sem. Aquele mesmo sem. A resistir só.


Sylvia Araujo

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Flor *



O sol está brilhando lá fora. E ela não tira da cabeça o dia em que viu aquela flor. Jamais sentiu tamanha doçura no coração. Mas não é a flor, é ela. As cores se misturando e o cheiro adocicado, apenas despertaram em si o sentimento de ser. A flor é. Delicada, perfumada e com traços só seus, não saem da cabeça de quem se deixa tocar pela profundeza, da simplicidade e da pureza que carrega consigo. E ela se deixou tocar, acariciar, deliciar. Viu - e sentiu - o poder da vida em sua simples carapaça de vida.

O mundo está correndo lá fora. E ela não tira da cabeça a flor que um dia viu, esparramada sobre o muro cinza - rachado, imundo. Estava lá, resplandecente - deslumbrante em sua importância de flor. Viu - e sentiu - o sopro de amor que vinha, e se deixou acalentar, alimentar, sorrir. Guardou pra si a amplidão do que viveu, naquele mínimo instante em que se deixou tomar pelo belo.

A partir daí, tornou-se a mais linda delas. Desencantou e se encantou com as sensações que o viver nos traz. Não é mais ela e sim flor, com todo seu encanto e ardor.

Sylvia Araujo

* Republicação



Queridos,
Mais uma vez peço mil desculpas pela ausência aqui, e nos jardins de vocês. Estou num momento conturbado, muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, e não posso desperdiçar as oportunidades. Quando não estou isolada nas minhas páginas em branco, apareço pelo facebook, pra rir um pouco e me distrair. Por enquanto, beijo vocês por lá. Em breve volto à ativa. Continuem torcendo por mim!
Beijoca enorme

terça-feira, 10 de agosto de 2010

B(r)aile


Sou
inteira
pedaços
fragmentos
cortantes
sílabas
impronunciáveis.

A lápis
me escrevo
à espera
de quem
me soletre
os relevos

- em braile.


Sylvia Araujo

domingo, 8 de agosto de 2010

Teatro

Ensaio de Marcia Medina para o meu monólogo Serial Killer. Em breve estreando em São Paulo.
Aguardem!

Parte I

Parte II




Arrepia a nuca ver um personagem teu criando vida dessa maneira tão intensa.
Obrigada, Marcia, pelo teu olhar profundo e pela tua entrega a essa mulher estranha!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Recomeço *


- É, fez sol. (Inevitável o sorriso no canto da boca - secosarcástico)

Ela fez de tudo pra tempestade que vinha esperando cair. Acordou sem dar bom dia aos gatos negros dos olhos melados, tomou um banho gelado e se postou nua - de frente pro espelho. Na cara, desgosto. Olhou. Se viu. Se absorveu. Aborreceu.

- Vai chover. Torrencialmente - desígnio que se deu antes mesmo de sequer abrir a fresta da janela.

Pegou a necessaire dos dias cinzas - aquela dos tons arroxeados - e espalhou na mesa suas cores de dor. Era luto o que sentia, e os olhos, a boca e os medos também sabiam da chuva. Sentiam. E foram, em ritual, se transformando escuros, marcados, doídos. Sorvendo em jejum o copo de água com limão, se olhou reflexo. Endureceu.

- Vai chover, trovejar, alagar.

Abriu o armário e foi direto pra gaveta dos esquecimentos. Estavam todos lá - intocáveis - os tecidos mais duros e coniventes de toda uma vida de entregas. Escolheu o que melhor combinava com as unhas vermelhas-descascadas enormes e pontudas, cultivadas especialmente para o encontro dos raios e trovões.
De sobretudo preto-imenso tampando metade dos rabiscos de morte multicores que gritavam na pele branca da batata da perna, sentou no canto do quarto. No chão. Colocou o coturno pesado como quem se protege da guerra, como quem nunca mais viu leveza. Com a cara e os cadarços amarrados com força, se fez nó - indissolúvel, intransponível. Levantou, pegou a bolsa cheia de dejetos e trapos e bateu a porta - certa da despedida.

- Já está chovendo, desaguando, desabando tudo; é sempre assim...

Mesmo de óculosescurosmaisescurosimpossível, sentiu a poderosa claridade assim que ouviu a primeira buzina, antes de atravessar o portão. E percebeu que - mesmo que queira e se prepare cuidadosamente para a chuva - quando o sol põe na cabeça de brilhar, ele vem. Não tem jeito. Fim.
Desordenada, encabulada e por fim divertida, largou os cinzapretos no canto da grade e saiu descalça, com a maquiagem pesada borrada pelos rios de incredulidade. Um sorriso de alívio, discreto, se fez notar nos lábios.

- É. Fez sol.

Sylvia Araujo



* Republicação com pequenas alterações.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Magia *


Suas mãos se assemelham a cansadas cordas de aço entrelaçadas. Quase sempre imóveis, só é possível vislumbrar as palmas - queimadas pelo calor das pedras - quando se rendem ao mímico diálogo com os pássaros pretos. Gestos ventados ao ar, os dedos desenham incompreensíveis contornos pouco acima da linha do horizonte, enquanto a boca seca cala.

Ela também é alada.

Seus cabelos, derramados ombros abaixo feito cachoeira prateada, têm como preocupação apenas seguir a inconstância do vento. Por vezes se embolam com as correntes ao longe e, de lisos, mimetizam em intermináveis vagas rebeldes. Eles vêm e vão, redemoinham e adormecem conforme a maré. Fios revoltos, não se distingue onde começa e termina seu corpo enquanto flutua.

Ela também é partida.

Sua pele é um conglomerado impreciso de retalhos que misturam rugas e cores aleatórias e marcadas. O corpo é delgado e frágil, e os ossos pontudos revelam por baixo do tecido duro e surrado uma silhueta friamente geométrica. Em postura triangular, mantém a espinha ereta e as pernas cruzadas - as rachadas plantas dos pés para cima. Com a cabeça voltada para o norte, tem os olhos sempre encobertos de névoa, mesmo nos tempos mais quentes, enquanto evapora.

Ela também tem segredos.

Sua vida segue sem que jamais tenha tentado transformar pura magia em meras palavras. Em seu mundo, letras são míseros rabiscos frente a imensidão gloriosa dos sentimentos que vibram. Ela não fala. Ela não escreve. Enquanto muitos a definem louca por inacessíveis e degradantes sinônimos, ela enxerga o vento e o beija.

Ela está muito além.

Sylvia Araujo



* Republicação

PS: Queridos, estou completamente atolada em textos inéditos e secretos rs e não estou tendo tempo para escrever posts fresquinhos e visitar vocês como gostaria. Um novo projeto está a caminho e logo-logo estarei de volta, firme, forte e presente, como sempre. Torçam por mim!

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Exaustão *


Depois de guerrear mais horas que preciso, vem afrouxando o nó da gravata puída e desabotoando os punhos amarelos, cambaleante a caminho de casa. Mete a chave na porta e, quando pisa na cerâmica quebrada, pressiona a ponta do sapato surrado no outro calcanhar. Ato reflexo. Pés descalços, larga a maleta lotada de papéis desimportantes em cima da única cadeira, puxa do bolso o maço amassado de cigarros e segue até a pia abarrotada de esquecimentos. Abre o frigobar vazio, apoia o copo de vidro lascado, enche de gelo até a boca e derrama o whisky de segunda - até cobrir a metade dos cubos. Seu conjugado mede exatos cinco passos número 43 até a janela. Mais dois pra cada lado. Espaço suficiente para abrigar seu mísero ego de filho terceiro de mãe sofrida. Sôfrego por uma lasca de ar, segura com as mãos trêmulas o cigarro aceso e a poção mágica, e apoia os cotovelos no parapeito do mundo para observar o nada. Abraça com força o silêncio pesado, enquanto rejeita todas as máscaras que se obrigou a usar durante o dia. Agora é noite. Já passou da hora de fazer alarde. Repete a sessão cigarro-copo-parapeito até perceber o início da íntima dormência na ponta dos dedos e a aproximação dos sonhos bonitos. Satisfeito, abre o chuveiro no máximo e se afoga inteiro na água gelada, ao mesmo tempo em que cantarola baixinho a lembrança gostosa com cheiro de infância. Quando deita no colchão antigo - exausto do tudo que foi, sem nunca ter sido - imediatamente encerra seus olhos turvos. Transbordando lágrimas secas e engasgos latentes, implora - com o peito aberto e os punhos cerrados - para não amanhecer vivo. Nunca mais.

Sylvia Araujo



* Republicação

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Ainda bem


Amanheceu verde - musgo fértil em ventre de pássaro brotado em horizonte. Antes de abrirem as janelas, lhe descortinou rebelde um sol redondo pelos olhos negros - os raios quentes lhe atravessando íntimos os poros abertos. Sorriu bem dentro, em céu da boca estrelado e dentes pequerruchos de marfim - as covinhas afoitas se debruçando enamoradas no parapeito das velhas rugas - e lentamente amareleceu. A brisa morna fez dançar de leve as cores vivas no varal, e veio delas em magia um cheiro adocicado e primaveril de campo em flor. Um gosto exuberante de tomilho lhe tomou de assalto a ponta da língua - sabor de lembrança que abraça apertado e não deixa partir. Permitiu então que brotasse em pura nascente uma lágrima bonita - perfeita em sua transparência arredondada - que lhe atravessou solene o rosto estreito, como quem mergulha de corpo inteiro em mar aberto, como quem assopra com toda a força dos pulmões um dente de leão - só pra ver a sua alma voar. Dia pleno, pediu ao marido-encantado que lhe escovasse com energia os brancos fios, pra sentir de olhos fechados mais uma vez o prazer do couro cabeludo se esparramando em cascata pelos lençóis trocados - a maciez de algodão a lhe afagar delicada os ombros cansados. Ao longe, uma melodia suave serenava - flautas transversas e violinos em dueto, conversavam poesia sobre rosas-chá. Falavam emocionados do brilho das estrelas e do coaxar dos sapos, como quem fala de champagne e caviar - ela embevecida, ouvia. Noite alta, pensando - o ar faltando e o amor sobrando no peito murcho - achou um bocado estranho tanta vida lhe assoberbar assim os minutos contados, fazendo toda essa batucada irrefreada no coração exausto. Então, em sussurro abraçado ao último suspiro - mastigando com calma todas as vezes em que pisou descalça a grama e dançou em par na chuva - agradeceu baixinho: ainda bem que em mim tudo sempre foi assim. E voou.

Sylvia Araujo

domingo, 25 de julho de 2010

Contramaré


Envolta no ar rarefeito das minhas noites vazias, cato - uma a uma - as recordações espalhadas pelos meio-fios imundos dos sonhos que sonho. Você está sempre lá, piegas em seu romantismo exposto, em seu peito aberto, em seu derretimento de pessoa que nasceu para amar - e não se importa nem um pouco em ser contra-mão. É sublime a entrega que me faz desse teu coração sem remendos, assim, na bandeja dos dias. E eu te nego, como nego a mim mesma, fazendo cara de nojo e cuspindo com força no prato em que comi. Não te quero inteiro-rastejante - fecha teus olhos e me escuta. Eu te quero não, entende? Te quero a negação dos meus desejos, dos meus planos de menina boba à espera do príncipe encantado, das minhas aspirações de mulher feita. Te quero o que não pode ser, porque só assim me rouba o sono e me deixa latejante à espera de um porvir. Só assim me tira o ar e os pés do chão. Não nasci pra ser pato em lago plácido, mas tubarão em mar revolto à espera da caça, camuflado na vastidão azul enegrecida das profundezas. Preciso nadar com fúria - contramaré furando as ondas - até me quedar exausta e sentir a vida viva pulsando em ária por debaixo da pele. Preciso que você me escorregue por entre os dedos, pra que eu vá enlouquecida ao teu encontro e te segure firme pelo pescoço - meu homem. Te quero arisco, imperfeito, falha. Te quero navalha no pulso, sussurro inclemente, sexo. Por isso hoje, em letras borradas, esse amor intocável arde. No cinzeiro cheio de cigarros fumados, os restos de uma carta* - cinzas de um nós que nunca existiu além de aí, dentro de ti.

Sylvia Araujo


* João Guimarães Rosa - A inspiração.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Amputada

No vaso
no centro da mesa
a flor
reinante
em amarelo
implora
em silêncio
torturante
a luz cálida
do dia.

Deseja
quase murcha
a terra
fértil
e restaurada,
os beijos
doces
e o sopro
torpe 
das borboletas.

não há quem
possa
lhe criar raízes
onde
a faca
cega 
lhe amputou
o talo.

Não 
há quem possa.


Sylvia Araujo

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Mergulho *

Caminham enlaçados pelas ruas sem destino, cantarolando a mesma música, às seis da manhã. Depois de uma noite inteira cheirando à sonho, mastigam pastéis de feira como se fosse rotina dividirem o mesmo tom. É como se o ontem virasse outra história, e as páginas começassem a ser preenchidas a partir do primeiro sorriso de cúmplices que trocaram, assim que o sol nasceu.
Se olham no fundo da alma, como quem identifica - como quem certifica - que não existe outro lugar pra se estar, além de ali, sentindo tudo aquilo.
Sem trocar uma palavra, se atiram. Juntos. De cabeça.

Sylvia Araujo



* Texto do início de 2009, republicado.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Lareira



Le mins (qui)na
Lê meus lábios
Lê meu corpo
Meus pelos
Meus braços
Lenha me
Na cabeceira dos dias
Abajur ligado
Me enluare
N(cr)ua.

Sylvia Araujo

terça-feira, 13 de julho de 2010

Free *


Depois de um dia inteiro regurgitando fracassos, junto com o pastel de vento e o copo de refresco aguado que colocou pra dentro às nove da manhã, chegou em casa quase rastejando e se jogou no único espaço da casa onde não havia roupas e tralhas espalhadas. Num ato reflexo, abriu a bolsa entupida de dejetos e pegou o maço de cigarros amassado. Vazio. Virou a bolsa no chão e encontrou mais dois maços. Também vazios. Entrou em pânico. No meio do monte de papéis cheios de números sem nomes, canetas quebradas e cacos de vida, viu quinze centavos reluzentes. Levantou tremendo e caramujou até o quarto. Esvaziou cada uma das nove bolsas multicoloridas e contabilizou: doze centavos em moedas de um e cinco. Faltavam três. Três míseros centavos pra que conseguisse enfim pregar os olhos. Pegou cada calça das enormes pilhas de roupas que se perdiam em cima da cama e das cadeiras - uma a uma, meticulosamente. Nada nos bolsos, além de lixo e areia. Nem se preocupou em verificar de onde veio a areia, o que provavelmente tentaria explicar - ou compreender - uma semana depois, quando resolvesse organizar sua vida de uma vez. A única coisa em que pensava era que precisava de três centavos pra conseguir voltar a respirar. Em desespero, depois de revirar cada caixa, cada bolso, cada canto mais improvável da casa, resolveu colocar as moedas pequenas no bolso do short mais velho e curto da adolescência, e sair cambaleando pela rua vasculhando o chão. Na primeira esquina vislumbrou cinquenta centavos. Antes de sentir o alívio percorrendo a espinha, percebeu que a moeda não valia mais, como a maioria das coisas na sua vida de merda. Durante a volta no quarteirão escuro e vazio, encontrou - no meio de uma pilha de folhas úmidas quase apodrecendo - um círculo cor de bronze. Cinco centavos quase irreconhecíveis. Com seus preciosos trinta e dois centavos nas mãos suadas de unhas mal feitas, apressou o passo até invadir o boteco mais imundo e degradante de Vila Isabel. Do meio de montes de seres cambaleantes e fétidos levantou um dos braços e pediu ao português de bigode engordurado, com a caneta atrás de uma orelha e o ramo de arruda murcho atrás da outra: Um cigarro varejo, por favor. Entregou as moedas que tilintaram nas palmas enormes do sujeito, quase ao mesmo tempo em que puxava o isqueiro preso na corrente, ao lado do balcão, sem se preocupar com os valiosos dois centavos de troco. Foda-se o troco! Antes de abrir a porta de casa, depois de quatro longos e inebriantes tragos, a fumaça terminou seu trabalho. Sem escovar os dentes, pra não perder nem um único segundo do adormecimento causado pela nicotina, afastou as roupas, os medos e os sonhos, se enfiou debaixo do lençol puído e fechou os olhos, torcendo pra que o sono dessa vez chegasse rápido, mais rápido que a fome do corpo e do coração.

Sylvia Araujo




* Texto de 2008 parcialmente alterado.

domingo, 11 de julho de 2010

Securas


Ela sabe dos hojes. Antes que o sol desponte, que o calor aqueça, que a luz ofusque com tanto brilhar, levanta e repete incessante todos os passos de todos os dias. Ainda se assombra com a imensidão dessa sombra que lhe persegue os chinelos até o banheiro e de volta pra cama. Ainda tem medo da morte que ronda, que abraça e sufoca seus sonhos, seus planos, sorvendo seu ar de bailarina amputada com a lentidão malevolente dos carrascos. E ainda assim, tremendo, temendo, não revida; aperta estreito os olhos pequenos e franze com força a testa larga - os tantos fracassos rasgando estrada entre as sobrancelhas grossas. Camila costura desejos com linha solta desde que se entende por gente. E a cada passo um pedaço enorme de si despenca no chão - o corpo estremece. Espera ansiosa que a claridade desfaleça em rotina por detrás das cortinas e lentamente se esvaia, para que a escuridão se justifique em si mesma e não precise dar explicações pra tanto negrume que carrega no peito - pra tanto não no coração. Menina bonita em capa de chuva, respira ofegante entre insucessos e securas, porque nunca foi capaz de dar um laço. Jamais abriu sequer um tímido sorriso pra flor que desabrocha dançarina no jardim ou deixou que a brisa morna lhe beijasse os cílios e fizessem voar livres as mechas douradas dos cabelos soltos - é mais fácil viver de resmungos e não-ditos do que abraçar apertado as inconstâncias, e aprender vez ou outra com o dolorido das ausências. Cavando com as mãos compridas de unhas vermelhas roídas um buraco profundo e estreito, suspira cansaço e se deixa enterrar pela terra fecunda. Pra ver se um dia - quem sabe - vire raiz e renasça feliz; e seus hojes vazios-cinzentos desabrochem, enfim, em surpreendentes e coloridos amanhãs.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Fênix

Rasgou meus livros
Partiu meus discos
Arranhou os móveis
Quebrou o espelho
Juntou suas coisas
Nem um adeus

Dobrando a esquina
me ouviu sorrir
e lembrou que
esqueceu
de atear
fogo 
em
mim
X


Sylvia Araujo

terça-feira, 6 de julho de 2010

Semente


Ela vivia me dizendo que tinha asas - amarelas, enormes, emplumadas. Mas eu não botava fé. Nunca fui de acreditar em nada que meus dedos não pudessem sentir, ou meus olhos acompanhar. Se era mesmo alada, como é que não voava? Tanto céu por aí, dando sopa. Se fosse eu, dava rasantes por cima do verde do mar e escolhia as minhas estações preferidas, só mudando a direção do voo - norte-sul-além-azul. Um dia, lhe ofereci meu precipício mais alto - o maior dos buracos que trago no peito - só pra ver se ela se jogava lá de cima, corajosa, impetuosa, e flutuava. Mas nada. Ela me disse por trás de um sorriso, que saltar de cima de penhasco é suicídio, e quer mais é viver essa vida danada de boa e ser muito feliz. E disse ainda que as asas só funcionam mesmo na imaginação, quando a gente abre um livro, por exemplo, e vem dele um cheiro, um sentimento, que faz o coração ficar bobo e levantar do chão. Mas meu coração é pedra, eu disse a ela, pedra pesada não rola e nem sonha. E então, ela abriu a boca pequena e rosada e fez soprar lá de dentro aquele vento suave e morno de primavera em flor. E me fez brotar inteira - pétalas multicores me subindo aos montes pela cabeleira. Beija flores dóceis vinham me pousar nos olhos e tiravam levemente meu corpo do chão. Ela, bonita em seus montes de laços de fita, abriu suas asas compridas de sol e me levou pelas nuvens, bem longe dali. Lá, pertinho de onde a tristeza não mora e a beleza explode nos poros da gente, abri meus braços de penas e chovendo salgado, amanheci semente.

Sylvia Araujo

domingo, 4 de julho de 2010

Um tango na noite



regar o plexo com silêncio
soltar as feras da vontade
se à sede cedem
pois querer é grito
é berro incontível
é ponte é precipício
do abismo para o nada


Fabio Rocha e Sylvia Araujo




Nota: Poema a quatro mãos, em uma noite sem estrelas no coração, fez nascer a lua em grito. Pra quem ainda não conhece as belezuras que o Fabio sopra, vai lá no Da Busca e se encontre! 

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Pra puta que pariu


Vento na cara, a cabeça quase toda pra fora da janela e um sorvete de baunilha derretendo na mão. Exatamente essa foi a cena esdrúxula que me fez sentar ao lado daquele cara quase maltrapilho que escutava Roberto Carlos no último volume, num mp3 fodido de visor rachado e que ainda por cima fedia a cerveja choca. O mais inacreditável é que ele quase não se mexeu quando lhe dei um tranco na perna direita escancarada, como maneira educada de dizer chega pra lá, ô caralho! Fiquei intrigado, te juro. Quem é o retardado que meio dia - sol à pino - um calor da porra fundindo qualquer cérebro que efetue a mais mobral das adições, fica em pleno ônibus em dia de branco praticamente gritando "vou me agarrar aos seus cabelos, pra não cair do seu galope", enquanto aquele creme amarelado e espesso escorrendo em bicas pelos dedos caga a calça toda? Visão do inferno, né não? E ainda assim, com pelo menos doze opções de lugar pra sentar em paz, eu queria estar sentado ali. Você pode elaborar todas as teorias psicológicas embasadas em todos os estudiosos de mentes insanas que talvez nem tenham nascido, e com certeza não vai conseguir chegar a uma conclusão plausível. Nem eu. Nem ninguém. Porque é realmente impossível compreender o que pode atrair alguém feliz, bem sucedido, filho de pai e mãe equilibrados, carreira de administrador de empresas em plena ascenção em um ano e meio de formado, e um namoro de quinze anos sem qualquer tipo de estremecimento ou ruptura - e olha que eu só tenho 28 anos! - a um pulha desses. Um merda, um meia-boca, que provavelmente mora com os amigos em um muquifo qualquer, porque ninguém suporta nem merece limpar tanto vômito consecutivo nessa vida. Tô falando besteira? Acontece que esse filho da puta do André mudou a minha vida. Você deve estar aí se perguntando: peraí, como é que esse cara sabe o nome da figura? Pois bem, eu preciso te dizer uma coisa muito séria. A partir daquele dia que aquele cara levantou daquele banco cinza imundo, o cabelo todo desgrenhado por causa da ventania poluída, enfiou a mão gosmenta no meu ombro e falou foi mal aí, irmão, eu larguei aquele emprego de bosta, mandei todo mundo pra puta que pariu, troquei aquela anta por uma viagem de mochila pela Europa, tomei o maior porre da minha vida - tá, disso eu não me orgulho - e comprei um violão. Hoje eu te digo de coração, meu camarada: não tem nada melhor nesse mundo do que sentar com aquele merda numa praça, birita e cigarro do lado, sentir esse vento fedido na cara e tocar um blues até a lágrima cair.

Sylvia Araujo



PS: Pra conhecer a alma livre, que fez com que esse texto me brotasse inteiro de uma só vez, praticamente sem pausa pra respirar, clique aqui e aqui. Valeu garoto, você é bom! ;)

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Neblina


Não, você não faz ideia do quanto é grande, do quanto eu sinto, do quanto eu quero e espero de nós. As tuas mãos nos meus cabelos, as tuas curvas entre os meus dedos, teu sol inteiro violando ávido os meus sentidos - um a um. Falta teu ar nos meus dias, amor. Me falta você. Dói feito punhal cravado no peito, esse torto amor reticente em tanta inteireza de entrega. Eu te amo louco, desvairado. E ainda assim, doído, parto. Refaço as malas que nem desfiz, e parto. Respiração suspensa, espero sempre que você se vire, que você me olhe, que você me peça que fique e te ame, desvairadamente te ame até o amanhecer. Mas você soberba e mulher segura, retoca com calma a máscara dos seus dias mornos e segue - intocável estátua de cera derretida dentro de mim. Hoje carrego a tua alma bonita em um porta retratos debaixo do braço. Tua imagem sorrindo naquele dia claro de sol é tudo o que resta do resto de nós. Cada vez que nos desatamos, envoltos em densa neblina, você leva contigo um pedaço enorme de mim. E nesse eterno despedir, anoiteço. Sozinho, estilhaçado, perdido pereço. Ando mil pedaços faltando, amor. Ando você inteira no peito. Ando sorriso amargo, coração cansado. Ando só - ando muito só com você aqui. Chove em barulho alto, folhas de outono voando, soluço engasgado. As gotas translúcidas batendo incessantes na janela dos olhos, são feito os poemas que te jorram em rios - madrugadas de lua. E meus braços se esticam no pranto da noite pedindo implorando teu colo, teus dedos. E com eles eu fico - horas e horas a fio - entregue e exausto dos nossos tantos nãos. Ninando meus beijos, ninando teu cheiro, adormeço abraçado ao seu travesseiro. E cantarolo baixinho aquela nossa canção, que por tanto tempo se fez ninho e hoje - nesse quarto opressor e vazio - é só, e somente pó, solidão.


Sylvia Araujo



PS: Do comentário lindíssimo do AC, do Interioridades, surgiu o final desse texto. O Link em nuvem fofa, bem aí em cima. 

domingo, 27 de junho de 2010

Indistinguível


Inerte. As mãos negras e disformes boiando flácidas em sangue frio. Sentia um fiapo de vida latejar no pulso esquerdo partido, e rosnava por dentro. Não era dor, mas ódio o fio tênue que mantinha seu coração cansado batucando frenético dentro do peito. Noite fria em beco escuro não é tempo de ficar estirado no chão feito dejeto. Ainda assim, lá estava ele abraçado ao meio fio, aos restos de madrugada pútrida e às ratazanas famintas - indistinguíveis. Sentia no rosto um constante fisgar, e do olhar em horizonte fugia apenas um vislumbrar leitoso de imagens retorcidas. Ao fundo, um poste apagava e acendia - ritmado. Ou seria uma lanterna? Ou seus tantos desmaiares? Tentou mover as pernas e não conseguiu. Em pânico, imaginou o revirar do pescoço, mas eram apenas os globos girando nas órbitas e a palavra queimando feito incêndio na garganta. Nem um som se ouvia, além das gotas gordas que escorriam dos seus olhos vítreos e pingavam quentes no chão de concreto. Chovia através das pálbebras inchadas, um gosto salgado fazendo arder os cortes profundos nos lábios. E ele ali, inerte, implorando emudecido ajuda ou morte. Como num filme, Margareth lhe saltou à frente em batom vermelho e seios fartos. Dançava linda, enevoada pela fumaça da cigarrilha ao som de um blues qualquer - olhos fechados. Ela sempre fazia isso enquanto ele apertava o espartilho ou afivelava o salto. E lhe enxugava as lágrimas com lenço de seda, quando ser mulher aprisionada em corpo de homem virava fardo pesado demais e lhe anoitecia. Margareth era feliz com o que se transformara e talvez isso a tenha salvado da solidão. Enquanto ele, mazela pura, expurgava sozinho naquela sarjeta imunda, o veneno amargo que o consumia. Já não sofria. Com um beijo doce da única e fiel amiga, evaporou enfim em uma paz lilás.

Sylvia Araujo




PS: Tomei emprestado o lilás da evaporação bonita do Marcelo Novaes, no incrível Prosas Poéticas. O link logo aí em cima, de mãos dadas com a paz.

Conversa com Marcelo

Marcelo Novaes me concedeu o prazer de mergulhar profundo dentro de mim, numa entrevista maravilhosamente instigante e deliciosa. Estou lá no seu Bloco de Notas, respondendo às suas perguntas sensíveis e perspicazes com toda verdade e integridade que me moram. Se quiser me conhecer um pouquinho mais, dê um pulo lá. Te espero com o coração aberto!

Beijoca

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Borrão


Nossas mãos se abraçaram. Apertado, feito menino com medo de escuro - não me envergonho. Aqueles cabelos compridos - fatia de franja beijando a bochecha com displicência - acalmavam meus nervos. Nunca na vida provei boca tão doce, mesmo quando cuspia impropérios. Ela era eloquente. E dia claro - soluço raro nas minhas noites insones. Seu olhar me entorpecia inteiro quando vinha lânguido, cheio de braços a me engolir. E o meu olhar suspirava por ela. Todas as manhãs eu derretia. Tinha dias acordava espinhos, e mesmo enraivecida cheirava a rosas - que tipo de magia ou encantamento tinha emanando pelos poros ou vertendo por entre as pernas, eu não sei. Só sei que eu era dela. Inteiro dela, enquanto me quisesse ao meio. Acontece que Marina era tanto - e tão tudo de uma vez só - que metade era muito pouco pr´aliança de eternidade. E derramamos lágrimas no fazer das malas, e dobramos juntos as meias brancas, e enchemos a cara de vinho tinto antes de fumar, cúmplices e esvaziados, aquele último baseado. No aeroporto - seu all star vermelho roçando de leve as minhas havaianas sujas, suas mãos suadas mastigando os meus dedos frios, eu indo pra perto e ela pra longe de mim - eu tive a absoluta certeza de todas as nossas incertezas. E desse momento em diante, a ausência dela choveu tanto dentro de mim, que o meu coração borrou.

Sylvia Araujo




PS: Poeta de mão cheia - das pequenezas que se sabem inteiras - Geraldo Barros, do lindíssimo Sem Catraca, empresta seu verso-chuva às minhas letras. O link, como sempre, borboleteando lá em cima.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Dos espantos


Na hora exata em que seus olhos vivos se preparam para se pôr - nem um minuto a mais a escorrer pela noite - Maria sorri em lábios de cereja madura, no alto de um galho esparramado de arbusto. Dançam serelepes - embonecadas em vestido de chita - as lembranças de um hoje feliz, embalado pra sonho em folhas de outono. Sonho de menina em travesseiro fofo de penas, é coisa que enche o peito e faz doer de ausência coração de adulto - por isso ela não usa salto. Não é que não queira ter abraçados os pés descalços com as tiras e as fivelas da estação. É que não vê mesmo sentido em crescer mais cinco centímetros que seja, além daqueles que forçosamente fazem sua pureza escorrer, cascateando pelas mãos. Maria "é adivinhação de criança, quase ciranda incandescida por uma estrela".
Faz tempo que aboliu os espelhos dos dias. Passou a medir sua meninice pela quantidade de laços de fita que cabem alvoroçados no meio dos babados fartos - encompridados de propósito até as canelas finas. Pra evitar que suas pernas esguias se descompassem e esqueçam da música que escoa do tempo, todas as manhãs ela pega pela mão as palavras, e as leva pra dançar. Assopra com força ao vento forte do inverno todos os porquês que carrega no estômago - é essa sua fome de espantos que faz com que todos os sentidos lhe dêem boa noite, todas as noites escuras sem lua. Ela não vive sem eles. Rodeados de cheiros, sons, cores, gostos e minutos felpudos, seus dias nada mais são do que presentes enormes e surpreendentes, embrulhados com o papel mais brilhante de todos, à sua espera em cada amanhecer na beirada da cama. Repletos de matizes e belezas, cheinhos de vida e alegria, eles se entregam inteiros a ela. Maria, bonita que só, carrega bem dentro um coração de criança. E é só por isso que ela sonha tão pequeno-enorme assim.

Sylvia Araujo




PS: Com um beijo na Luciana Marinho, do Máquina Lírica, que me soprou a ciranda incandescida, dando vida e poesia à minha Maria. O link dança no meio do texto, de mãos dadas com as outras letras bailarinas.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

(In)conjugável


As palavras me cicatrizam, instantâneas feito ópio. Ou talvez uma dose cavalar de morfina, que amortece displicente os lobos cerebrais - certeira como a lágrima que se arremessa impávida do alto da face, pouco antes do inevitável endurecer do coração. Não existem meios de me desnudar dos medos e anseios, sem permitir que frases inteiras-atropeladas me irrompam libertas do útero em chamas. Mesmo que eu as mantenha militarmente algemadas aos sentimentos mais inúteis, elas me jorram altivas e incontestes. Não há como manter o respirar cadenciado sem que a maldita tela, de algum maldito computador, seja lentamente preenchida pelas dores e os amores que me invadem e escorrem incessantes, todos os dias.
Escrever é minha libertação. E a mais sufocante das clausuras. Minha incoerência e militância. É ao mundo que esbravejo febril os gritos lancinantes, desesperados e insanos da fera enjaulada em seu próprio peito. É ao outro que suplico cuidado com o que me vaza e esvazia - porque isso é tudo o que me resta. É lá - bem lá no meio das tantas folhas soltas e desconexas que me revelam - que sucumbem exaustos os poucos pedaços mais preciosos de mim. Os que me são e os que me ausentam. E ainda aqueles que - não sendo nem um, nem outro - vivem de almejar uma identidade, qualquer que seja ela; como um vulto que aguarda ansioso o breve mas caloroso aceno, sentado imóvel diante da janela de um trem que parte sem olhar pra trás. E assim, como quem se resigna diante de um mal irremediável, segura constato que é, sim, no contorno delicado e dolorido dessas letras latejantes que me encontro - feito rosto que reconhece as suas próprias marcas em olhares alheios. E que, neste materno aconchego de ninho aquecido pelos verbos mais inconjugáveis - invariavelmente - me perco. Com os poros famintos e o peito escancarado.
Sempre sorrindo e sangrando.
Di  la   cer   ando.

Sylvia Araujo




PS: Com um beijo enorme na careca brilhante do Sara-Mago das palavras. Ficamos aqui abraçados com as suas deslumbrantes letras e com a saudade apertada dos muitos mundos que ainda estavam por vir. Ainda bem que palavra alada é imortal. 

"Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia."
José Saramago

terça-feira, 15 de junho de 2010

Pontual*


E dentre maus tratos e destratos, fez-se um silêncio cortês. Brotou da estrutura doce do teu fel um mantra de paz. Talvez nem me queira mais, e eu ainda aqui, desarmando meu peito-armadilha fissurado em emboscadas.
Não é de hoje que me corrompe as idéias o teu caso obstinado com o vento. Sempre soube que tuas asas flanam onde meus braços não alcançam. Sequer tenho braços, quando teu calor aquece meu frio. Sequer tenho a mim.
Com ares de dama da noite, que só presenteia com sua beleza e suspiro em hora marcada, me frequenta quando convém. E o pior de tudo é que me contenta o sutil detalhe do minúsculo tempo que me oferta já partindo.
Você parte sempre.
E me reparte - poema insosso.

Sylvia Araujo



* Texto republicado

PS: Essa novela do computador pifado já está se estendendo mais tempo do que eu gostaria de tolerar, mas como não tem jeito, sempre que posso posto novidades, vez ou outra republico alguma coisa e quando dá, dou uma voada pelas letras de vocês. Rezem-orem-peçam-qualquercoisa-pelamordedeus, pra que esse nó desate logo e eu possa, feliz, voltar a escrever. Porque do ponto que eu tô adiante, já deixa de latejar pra começar a doer.
Beijocas enormes

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Technics


Você não tem ideia de quanta coisa eu superei, abdiquei, passei por cima, fingi que não vi. Dizem que o amor é assim: a gente abre mão de tudo pra tentar evitar o inevitável. Eu já nem me importava mais com as suas calcinhas penduradas na torneira do box, te juro. Nem com os absorventes usados enrolados na beira da pia, ou a escova de cabelo entupida de fios compridos e dourados. Achava até bonito - acredita? - aquele sol brilhando pra mim por entre as cerdas pretas e finas, todos os dias pela manhã. As camisetas surradas e as cuecas sem elástico que eu adorava usar - antes de você liquidá-las - já nem me lembrava mais. E a caixa de ferro do whisky 12 anos, que abrigava a minha coleção de botões oficiais? Tudo bem que tenham virado depósito de esmaltes multicoloridos e apetrechos de manicure que você nunca usou - minhas poucas coisas ficam bem em qualquer lugar. Não me incomodava nem um pouco que todos os cabides do meu armário estivessem ocupados pelos seus vestidos. De verdade. Até consegui compreender que eles precisavam mesmo de mais espaço, e as minhas calças gastas não. Esvaziei as prateleiras dos meus enfadonhos livros de Economia para que os seus sonetos pudessem respirar melhor, e deixei de lado os meus planos - todos eles - pra satisfazer os teus caprichos. Alisei com progressiva os teus cachos largos, te levei na primavera pra Veneza e te enchi de sapatos de toda sorte - apesar de você só ter dois pés, como qualquer outro mortal. Estava mesmo tudo bem, Cecília, até que você ultrapassou o inultrapassável. Eu sempre te disse que você podia tudo, e que eu te amava com todas as minhas forças - talvez tenha sido esse o meu maior erro - mas que nunca, jamais encostasse na minha vitrola. E você, num dos seus ataques histéricos de menina mimada que não ganhou de presente a boneca do comercial - olhando desafiadora no fundo dos meus olhos incrédulos - enfiou o dedão imundo na ponta delicada daquela agulha. Por isso, minha querida, não há mais o que lamentar: engula esse choro pobre, pegue as tuas coisas vazias e vá se envenenar com cds baratos em outro lugar. Porque o meu Baby 1983, aqui, nessa Technics original, você não escuta nunca mais.

Sylvia Araujo

domingo, 6 de junho de 2010

A.Pimenta.do

Aproveitando o momento notebook furtado (ó dia, ó céus, ó azar!), andei vagando por aí - blog aqui, blog ali, algumas visitas aos queridos, umas poucas boas novas, outras já amores antigos - e dei de cara com o Henrique Pimenta, lá do Bar do Bardo. Inevitável não me apaixonar pelos sonetos atualíssimos, cheios de humor e malemolência e pela poesia ultra-desafiadora do sujeito. Eu, de lá da minha mesa de canto, caneca de vinho numa mão, bolinho de bacalhau na outra, soprei pra cá pra perto a maravilhosa leveza e irreverência dO Cara. Deliciem-se, que é coisa boa - garanto.


Técnica PN sem L

"Eu acordei num lugar muito estranho.
A cabeça estava por explodir.
Lembro-me de que saíra sozinho.
Bebidas, desejos, coisa e tal e,
depois, fomos passear pela rua.
Já longe do roteiro conhecido,
que estávamos bêbados demais, sem
medo, sem medo, sem medo, sem medo.
Resolvemos que seria melhor
dormirmos ali naquele chão. Sim,
loucura. Percebi que estava nu.
Percebi que havia uma cama sob.
Senti sobre o meu braço uma pressão,
cabeça, cabelos, olor
de sândalo
um
i n c e n s o . . .

mergulhei meditei-lhe nos desenhos produzidos pela
fumaça como que uma série de signos esotéricos
concentrei no mantra que me fora fornecido
secretamente e quase que
gratuitamente
por um site indiano desenvolvimento da intuição
mas no andar de cima
(ops eu estou no meu apartamento)
zeca pagodinho reinava absoluto
e eu não poderia ir de encontro ao absoluto
voltando
mentalizei a luz violeta
fluindo para dentro de meus chackras
elementais
era de aquário
o cifradíssimo perfume do fumo
analogias possíveis da matéria menos densa com
as sessões de psicanálise
180 (cento e oitenta) cada
sexualidade reprimida
parafilias casamento no fim
traição sem sal
auto-estima 0 (zero)
e então
indicador
e polegar se tocam levemente
energia prânica lótus de 1000 (mil) pétalas
pronto!
mais um poema sobre porra nenhuma!"



 liquefeito

"distraídos
porque nos beijávamos

distritos
expandiam-se em oceanos de pele e
cintilâncias galáxias de evanescência

por mim
o orvalho gotículas de saliva doce

hidromel que poreja
sumo de ambrosia para além psi

aleluia!"

sábado, 5 de junho de 2010

Gota

Tela de Salvador Dalí

Sai despenteada e apressada. Primeiro a filha na escola, depois o filho na natação. A Ioga fica pra depois. Volta pra casa, coloca a roupa na máquina, lava a louça da pia. Vassoura na sala, pano nos quartos, desinfetante no banheiro. Hora de buscar o filho na natação. Passa o uniforme, dá banho, comida, penteia os cabelos, deixa na escola com um beijo e um eu te amo. No ponto de ônibus lembra que precisa estender a roupa. Volta mais uma vez, pendura a roupa na corda, coloca as panelas na geladeira e, no portão - no exato momento em que as chaves caem no chão - percebe que está de chinelos. Verdes limão. Com a maquiagem já derretida entra de novo e coloca os saltos. Olha no relógio, já deveria estar na reunião. Desiste do ônibus, pega um táxi. Chega atrasada, dá boa tarde, escuta, organiza, propõe, resolve, indica. Fica aflita. É muita coisa e não há tempo. Delega, entrega e sai correndo. Hora de buscar os filhos na escola. Pega um ônibus, vai em pé. Hora do rush, engarrafamento. Abre um livro e vinte páginas depois desce na esquina. O salto quebra - estava demorando. Tira os sapatos, joga na lixeira e vai descalça. Pega os filhos, um beijo em cada um mais dois eu te amo, como foi o dia. Duas mochilas, mais bolsa de compras, laptop e pasta de couro. Quase não dá, mas tem que dar. Prepara a janta, ajuda no dever de casa, dá banho, conta uma história de dragões e princesas pra agradar os gregos e os troianos que dividem o mesmo quarto. Mais um beijo em cada um, dois eu te amo e um boa noite, durmam com os anjos. Apaga a luz. Respira. Descalça, caminha sem pressa até a cozinha. Abre a garrafa lentamente e escuta atenta o barulho do líquido estalando os cubos de gelo no fundo do copo. E aquela gota - não a mesma, outra - amarelada, reluzente, abrindo caminho pelo corpo transparente do vidro, caramujando em rolamentos circenses quase chegando ao rótulo avermelhado; aquela gota inteira, insistente, que magicamente a transporta para outro lugar. O lugar das maravilhas que, de tão mínimas, se tornam quase invisíveis aos olhos do tempo que escorre. E ela agradece por mais esse micro-poema que orvalha diante do seu rosto cansado. Porque enquanto a gota - aquela, não outra - estiver serpenteando garrafa abaixo e seu coração se mantiver atento à ela, sua vida já valeu a pena. E o amanhã será sempre outro dia.

Sylvia Araujo

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Adiante*

Abriu um vinho. Tinto e seco. De shorts e meias, colocou no aparelho de som a inconfundível trilha íntima das noites vazias, enquanto o líquido encorpado suspirava - sutil - dentro da garrafa esverdeada. Quando as primeiras notas começaram a escorregar pelos ouvidos, se enrodilhou no sofá puído de terceira mão, com as duas pernas dobradas por debaixo do corpo franzino. No mesmo canto de sempre - segurando o cachimbo amarelado e mordido, com o zelo próprio de quem se fez confidente - levou ao nariz a taça bordeaux pela metade. Inspirou os aromas harmoniosos com a suavidade de quem está habituado a reter em si o que há de melhor nas coisas, e em um curto gole permitiu que aquela elegante maciez - rica e aveludada - inundasse a língua e envolvesse o corpo num prazer único e deliciosamente aconchegante. Preencheu então as próximas horas com seus poucos pequenos prazeres, e se alimentou da sensação etérea de estar na melhor  companhia. Sorriu um sorriso branco simplesmente por compreender, enfim, que acariciar sua própria alma era o bendito-santo-remédio pra tanto sofrimento sem laço. O nó se desfez. Pelo vinho, pelo fumo, pelo fundo do poço que desenredou em si mesmo, se fez abraço. Nesse dia ele estava só. Mas apenas porque aprendeu a desfrutar da felicidade sublime de se perceber assim, sem ser dilacerado pela brutal e desumana solidão dos seus dias de morto.
Ele estava só.
Mas estava inteiro.
Sylvia Araujo





* Republicação por falta de tempo de postar um texto novo. Ainda sem computador. Ê, lerê! rs
Uma beijoca florida

domingo, 30 de maio de 2010

Pra ver Mateus feliz

Tela de Portinari

Pra ver Mateus feliz, basta um sonho. De padaria mesmo - doce de leite caseiro escorrendo pela fenda funda açucarada. Seus olhos grandes cintilam com o papel manteiga e a primeira coisa que faz quando recebe o embrulho nas mãos é abri-lo com toda a delicadeza e lamber com gosto o doce grudado na folha branca. A saliva escorre.
Pra ver Mateus feliz, basta um gato. Vira-lata mesmo - uma paleta inteira no pelo curto e um rabo grosso de espanador. Suas mãos pequenas afundam no pescoço magro do bichano dócil e não se sabe ao certo quem é que ronrona baixinho - o acarinhado ou o acarinhador. Seu colo estreito vira cama quente e sua voz pequena cantiga de ninar. O coração aquieta.
Pra ver Mateus feliz, basta uma pipa. Preta e branca mesmo - rabiola farta de jornal de ontem e carretel inteiro de linha vermelho-vivo. Suas pernas finas correm pela rua mansa, braço esticado e boca seca, testa franzida em concentração. Domingo é dia de dançar com o vento. A tarde toda é festa no céu - pintado inteiro, arco-íris alado. O olhar estreita.
Pra ver Mateus feliz, basta uma folha. Caída mesmo - pedaço seco despencado ao chão e carregado das histórias do céu. Seus dedos ágeis imprimem vida ao pedaço morto; um assopro e o marrom dourado se transforma em ave e voa de volta até o alto da árvore. Sua intenção não é que ela renasça, mas que vire ninho - casa de folha pra passarinho. O sorriso dança.
Pra ver Mateus feliz, basta o tudo. Cheio de nada mesmo - pra poder enchê-lo do que quiser. E não cabe carro, nem apartamento porque as asas da sua imaginação ocupam todo o espaço do coração. E o que sobra é mesmo só para o amor, que sempre dá um jeito de se espremer entre uma rosa e um bocado misturado de cor.

Sylvia Araujo