Foto do blog: Mario Lamoglia

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Exaustão *


Depois de guerrear mais horas que preciso, vem afrouxando o nó da gravata puída e desabotoando os punhos amarelos, cambaleante a caminho de casa. Mete a chave na porta e, quando pisa na cerâmica quebrada, pressiona a ponta do sapato surrado no outro calcanhar. Ato reflexo. Pés descalços, larga a maleta lotada de papéis desimportantes em cima da única cadeira, puxa do bolso o maço amassado de cigarros e segue até a pia abarrotada de esquecimentos. Abre o frigobar vazio, apoia o copo de vidro lascado, enche de gelo até a boca e derrama o whisky de segunda - até cobrir a metade dos cubos. Seu conjugado mede exatos cinco passos número 43 até a janela. Mais dois pra cada lado. Espaço suficiente para abrigar seu mísero ego de filho terceiro de mãe sofrida. Sôfrego por uma lasca de ar, segura com as mãos trêmulas o cigarro aceso e a poção mágica, e apoia os cotovelos no parapeito do mundo para observar o nada. Abraça com força o silêncio pesado, enquanto rejeita todas as máscaras que se obrigou a usar durante o dia. Agora é noite. Já passou da hora de fazer alarde. Repete a sessão cigarro-copo-parapeito até perceber o início da íntima dormência na ponta dos dedos e a aproximação dos sonhos bonitos. Satisfeito, abre o chuveiro no máximo e se afoga inteiro na água gelada, ao mesmo tempo em que cantarola baixinho a lembrança gostosa com cheiro de infância. Quando deita no colchão antigo - exausto do tudo que foi, sem nunca ter sido - imediatamente encerra seus olhos turvos. Transbordando lágrimas secas e engasgos latentes, implora - com o peito aberto e os punhos cerrados - para não amanhecer vivo. Nunca mais.

Sylvia Araujo



* Republicação

25 comentários:

Ivan Bueno disse...

Nossa, Sylvia,
Que relato mais tocante e que retrata tanta, mas tanta gente por este mundo afora.
Eu adoro sua escrita, que me faz entrar na cena, como se estivesse vendo um filme em 3D. Sua narrativa é perfeita e os motes são sempre de calar fundo.
Beijo enorme,

Ivan Bueno
blog: Empirismo Vernacular
www.eng-ivanbueno.blogspot.com

Domingos Barroso disse...

Sylvia,

a leveza (lírica?) do "ainda bem"
e o fardo (lírico?) deste "exaustão" revelam-se ambos o íntimo cotidiano de cada ser. Lembranças. Que tu cristalizas com perfeição. O diamante escrito é desta forma: há brilho, também
há suores.


Parabéns,
carinhoso abraço.

Lua Nova disse...

Nossa... me senti dentro do quarto dele, dentro da vida dele, dentro da alma dele... senti todo o abandono e toda a desesperança desse homem. Maravilhosa sua capacidade de descrever as cenas que cria em sua mente. Uma narrativa intensa e dolorosa, e como disse Ivan Bueno, tão verdadeira para tantas e tantas pessoas nesse mundão.
Sylvia, parabéns.
Beijos.

Priscila Rôde disse...

Descreveu um cansaço maravilhosamente bem como só você sabe fazer!

Adorei o seu comentário, Sylvia. Espero que você descanse também e me visite mais vezes. rs

Um beijo, minha querida.

Luciana Marinho disse...

"tristes de nós, que trazemos a alma vestida!"



beijo, bela!

Valéria Gomes disse...

És demais, mulher!!!
Este texto está, impecavelmente, descrevendo a história de muitos.

Lindo fim de semana para ti!!!

Leo disse...

Que lindo! eu tava com saudade de vir aqui, às vezes me sinto exausto bem assim. :S

Beijocas querida!

Marcio Nicolau disse...

Wow! Que porrada! Surpreendente, Sylvia.

AC disse...

Ao ler o texto, vieram-me à memórias uns versos de Eugénio de Andrade:

Cansado de ser homem durante o dia inteiro
chego à noite com os olhos rasos de água.
Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,
entrar dentro de ti como num bosque.

É a hora de fazer milagres:
posso ressuscitar os mortos e trazê-los
a este quarto branco e despovoado,
onde entro sempre pela primeira vez,
para falarmos das grandes searas de trigo
afogadas na luz do amanhecer.

Posso prometer uma viagem ao paraíso
a quem se estender ao pé de mim,
ou deixar uma lágrima nos meus olhos
ser toda a nostalgia das areias.

Beijo

Í.ta** disse...

esse ritmo do seu texto. é tão tão bom. é difícil puxar o leitor assim. parabéns!

Erica Ferro disse...

Poxa... :S

Estória [que poder ser, facilmente, HISTÓRIA] sofrida. Senti a dor dele aqui, ó... No meu coração.
Ele foi sem nunca ser. Eu tenho medo de viver, viver e não viver de fato. Tenho medo mesmo.

Um abraço, Sylvia.
Sempre gosto de te ler.

Barbara disse...

"In extremis"

Bruna Maria disse...

Olá, Sylvia!

Texto inquietante... acho que prova o quanto também estamos sós, como a personagem descrita de forma tão desolada...

Um abraço!

El Bailaor disse...

Sylvia, que bela descrição! Mergulhei de cabeça no sofrimento da personagem, você é única!

Abraços!! :)

Tatá R. da S. disse...

Cara, Sy, você sempre surpreende, né?
Como escreve bem!
Sabe, já me senti "meio" assim. Mas a raison d'être nos leva a continuar.
Beijos!

Jorge Pimenta disse...

ruy belo referia-se a este síndrome "cigarro-copo-parapeito" (imagem belíssima, a propósito) como "o rolo frio das manhãs".
um abraço, sylvia!

Beta disse...

Exasperado jeito da solidão encontrar suas funduras, afogado o ser em superfícies desintegradoras de si. Bela a maneira de narrar tais pungências.

Beijo,

Luna Sanchez disse...

Adoro as doces maciças de realidade que leio aqui, Sylvia!

Beijo, beijo.

ℓυηα

Juan Moravagine Carneiro disse...

Certos "quartos" são sempre familiares...

belo escrito

abraço

Mary Pereira disse...

Deu pra ver a história acontecendo na minha frente. Assisti com carinho tuas palavras, sempre tão lindamente emaranhadas.

"- exausto do tudo que foi, sem nunca ter sido - "
E quantos de nós, existem (ou resistem) por aí, sem 'serem', de fato, não é?

Você (d)escreve a vida, Sylvia. Lindo demais!

um beijo.

Tania regina Contreiras disse...

E pronto: descreveste uma multidão que, agora, olhando-se questiona: nossa, até quando? Texto que dessassosega...
Beijos,
Tânia

Hector Parente disse...

que angústia..que manero! supinpão!!

Insana disse...

As vezes a vida cansa, pior é quando cansamos da vida.

Bjs
Insana

Tâmara disse...

Acho que também cheguei a exaustão. Ser, nos ultimos dias têm me cansado. E suportar o silêncio, me pesa os ombros até agora.

Beijos meus, Querida!

Sr. Eulálio disse...

Bravo, Srta. Araújo. Muito bom mesmo. Uma vida em preto-e-branco, como aqueles paletós listrados com um cheirinho de mofo no limite de incomodar (como lembrava uma infãncia, ou a casa da avó, era nostálgico e não repulsivo). O homem certamente viveu e sua vida não resume-se a esta manifestação. Ele ganhou o direito da eternidade.

Um beijo pra você.
Vou voltar mais vezes por aqui.

Sr. Eulálio