Foto do blog: Mario Lamoglia

quarta-feira, 5 de junho de 2013

O mundo, parte dele ou vice-versa

Andava cabisbaixo, voleando ao ido alguns frágeis esquecimentos pelas poucas frestas das longas manhãs cinzentas. Os ombros, displicentes, projetados em agudo ângulo sempre em frente, resultavam em uma discreta protuberância elíptica que saltava em sutil excesso sobre o cós avesso da calça jeans puída. Nos pés, uma firme crosta alaranjadendurecida gritava ausências a plenos pulmões. É que o tempo, o medo e o oco foram lentamente transformando - ano após ano – a envergada sola em bruto casco e os longos e presunçosos dedos em garras irreversivelmente tortas, de onde brotaram, inescrupulosas, escuras e defeituosas unhas. Sob cada uma delas, restos.

Os grossos e enegrecidos cabelos, alvoroçados pela ansiedade noturna dos próprios indicadores e polegares amarronzados em pinça, apontavam incertos para todos os lados, feito setas em labirinto de fauno. Era floresta de vastas matas aquela cabeça tão entupida de esteios. Era nó de marinheiro; mar bravio, após longo e inexorável anti-cio. Em seus longínquos olhos, ao fundobemfundo, morava em confundido eterno um vazio extremo – cheio desses nadas que não se preenche com alguns poucos brilhos ou qualquer rotineira existência crua. Tinha olhos de vento em tempestade, Olívia sempre me dizia. Joaquim trazia bem junto consigo uma densa correnteza inescapável de rio. Tinha peito amplo de mais viver - mas a vida vã não quis.

Joaquimiúdo vagava ansioso pelos arredores de seu pequeno mundo, como quem está sempre prestes a desencavar valiosíssimos tesouros. Eufórico, da hora em que seus atentos olhos se abriam à imensidão do tempo ao momento em que suas minúsculas pálpebras pendiam frouxas de cansaço, adicionava todo inédito e quase inaudível ruído à sua incompreensível e interminável playlist. Anotava, sem grandes pretensões, mas muita alegria, em um gasto caderno de folhas amassadas e encardidas, o inconfundível detalhe do gosto da terra umedecida pela surpreendente geada do outono; classificava os exclusivos odores dos acontecidos dias – categórico - em listas muito bem separadas: o acre seco do irremediável nunca, jamais, dividiria página com os adocicados poréns. Assim, minuto a minuto, ele bem-vivia.

Acontece que Joaquimiúdo cresceu, como toda criança que arrebenta no mundo sem pedir licença ou ser, quiçá, bem quista, que seja. Adulteceu lentamente diante dos incrédulos olhos vistos daqueles que nunca o compreenderam, mas viam nele uma espécie de santo entortado, de sonho etéreo, de elo para sempre perdido. Seus tesouros – sua tamanha reluzente riqueza sem-fim -, a cada breve dia que escorria, impávido, valiam, pouco a pouco, um pouco menos. Adultos desejam, planejam. E planos não cabem na amorosidade inédita de todo agora: se fazem amanhãs eternos que nunca vêm. Não fosse aquela irritante teimosia branca em ser do mundo um pedaço dele, tal qualquer outra microscópica parte sua, quase não teria sofrido neste aflitivo e torturante desdizer, insinuou dia desses, Olívia. Joaquim espichou. E o mundo encolheu.

Distraído completo das coisas mesmas dos dias, arrastando-se despropositado e mecânico pelos afazeres mais comuns da vida de sempre, surpreendentemente apaixonou-se, então, aos vinte e poucos. Desfez, sem nenhum esforço, todo mal entendido sobre a provável desaparição de seus tantos antigos desejos latentes, quando preencheu-se inteiro de um amor que muito bem lhe convinha. Ela, perfeita quase miragem, carregava, brilhando nos lábios, uma certa certeza implacável e, suave, cheirava docemente a jasmim. Por onde passava era raio de sol, radiante luminosidade que não cabia em si e, por isso, espontânea e leve feito teia recém tecida, toda inteira esparramava. Para ele, o mundo alargou-se, suspirava Olívia com os olhos úmidos. Nesse momento, em instinto, ela apertava com força os olhos para de imediato focar a atenção em qualquer inalcançável movimento ao redor. Nesse momento, ela sempre me dizia não ter absolutamente mais nada a dizer.

Talvez eu tenha visto de relance, um dia, uma constante pequena chama amarelecida sobressair quase incolor do meio do pálido e enregelado lilás que fazia reconhecer Joaquim há anos. Imaginei que, de fato, a partir daí, o mundo deixaria, enfim, de ser mero mundo para voltar a ser parte dele e vice-versa. Tudo parecia correr naturalmente bem com os cheiros, os gostos, os sons, os toques. Joaquim reavivava entusiasmado, um a um, seus valiosos tesouros de infância e, pouco a pouco, transformava, cuidadoso, o objeto de seu imenso e inexorável amor - e sua particular existência - em seu próprio e seguro habitat concreto. Até que, numa quinta-feira em que as folhas alaranjadas, levemente agitadas, voavam apressadas em círculos concêntricos pelas sujas calçadas, cansada de ser toda mundo e desejando a simplicidade do status de ser apenas uma microscópica parte dele - como toda e qualquer outra parte - ela se foi. E, mais uma vez, o mundo encolheu.

Joaquim manteve-se estático, sentado sobre as magras pernas em cruz no chão rachado da varanda sem teto, absorvido absorto por um horizonte mais estático ainda, por dias mais dias seguidos. Não comia, não dormia, não chorava – contei o desconhecido fato, sem alterações na voz, a uma emocionada e anoitecida Olívia. Aos poucos, foi largando em cada canto um considerável pedaço de mundo, até que nada mais restou além do que hoje e agora se vê. Esse homem, que deixou de ser o que foi há tempos para se tornar o inominável que o mundo retém em recusa, talvez mantenha ainda alguma pequena valia daquele miúdo Joaquim; talvez ainda carregue sonhos – não planos – como um tesouro escondido, do qual se perdeu o mapa para não deixá-lo escapar de vez.

Olívia, sem dizer palavra, aproximou delicada suas mãos em concha à minha boca seca e rachada. E, sentindo a trêmula quentura úmida que entrecortada me escapava, sussurrou baixinho em meus ouvidos por anos inteiros lacrados: ainda respira, vê? Estou de volta, para sermos os dois o mundo, crê, Joaquim? E, aninhando as minhas mãos calosas e imundas entre as dela, quase impalpáveis de tão mundanas, simplesmente sorriu.
                    
Sylvia Araujo

2 comentários:

márcia disse...

Maravilhoso! PQP!

Fabio Rocha disse...

Saudade. 0,20 ver ;)

beijos