Foto do blog: Mario Lamoglia

terça-feira, 3 de junho de 2008

Asas


Quando estava prestes a se atirar no abismo ela lhe deu a mão. E sorriu.
Ele pulou.
E ela voou.

Sylvia Araujo

4 comentários:

renato disse...

Ela sorriu quando estava (quem estava, ele ou ela ? o texto não esclarece) prestes (observe que o advérbio é proposital para não concordar nem com ele nem com ela, então continuamos na dúvida). Ela dá a mão, deve dar a mão a ele.

Ela voa, enquanto ele pula. Neste ponto a narrativa se interrompe, e nós ficamos aqui a pensar no que terá acontecido com o pobre-coitado que embarcou neste sonho louco de pular no precipício. Terá ela continuado a segurá-lo pela mão e ambos voariam num ato de amor e cumplicidade ? Ou ela simplesmente o impeliu ao suicídio (sim, se ele pula, ela não o empurra, logo...), pulando no precipício para o deixar arrebentar-se lá embaixo ??
Ter asas é liberdade.
Ave, Legião Urbana!

Sylvia Araujo disse...

Não gosto muito (na verdade, nada)de limitar a capacidade criativa de quem absorve meus textos. Normalmente eles são entupidos de reticências e frases descontinuadas, pra que o processo da leitura estimule as engrenagens a trabalhar mesmo depois do ponto final.
Então, nesse caso, quem faz o que é absolutamente irrelevante... até porque a graça da vida em si - pra mim - é exatamente captar as diferentes interpretações sobre determinada situação e perceber a incomensurável vastidão do pensar, do agir, do imaginar humano. Adoro os senões e poréns. E as variáveis então, ui!

renato disse...

Como assim, "quem faz o que é irrelevante" ? Estás a defender uma supremacia feminina. Não há muitas interpretações possíveis em um texto no qual ela voa, ele pula (ou se joga) num precipício..

Mas de toda forma aceitemos que ele se joque porque quer. Eu nunca faria isto, nem mesmo shakespeare apaixonado, mas fazer o que ? O amor perdoa todas as loucuras.

Dê mais espaço ao romantismo, você que adora os senões e os poréns. Ou tudo será uma pradaria neste coraçãozinho, onde cultivam lírios do campo.

Sylvia Araujo disse...

Vixi...
Acho que não sou romântica. Nem um pouco. Ou sou? Na verdade, meus passos são indiscutivelmente guiados pelo amor - pra mim, o mais puro dos sentimentos.
Mas no fundo, no fundo, meu desejo maior é experimentar todos os rótulos, sem me deixar rotular! Quero ser tudo, ver tudo, tocar, experimentar, fazer tudo - absolutamente tudo! - pra, no fim, optar - feliz - por não fazer nada! Delícia!
Continuo na mesma tecla, incansavelmente: adoro os senões e poréns! Eles me excitam!