Foto do blog: Mario Lamoglia

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Recomeço



- É, fez sol.
(Inevitável o sorriso no canto da boca, secosarcástico)
Ela fez de tudo pra tempestade que vinha esperando cair. Acordou sem dar bom dia aos gatos negros, dos olhos melados. Tomou um banho gelado e se postou nua, de frente pro espelho, com cara de desgosto. Olhou. Se viu, se absorveu. Aborreceu.
- Vai chover. Torrencialmente. - desígnio que se deu antes mesmo de sequer abrir a fresta da janela.
Pegou a necessaire dos dias cinzas - aquela de tons arroxeados - e espalhou na mesa suas cores de dor. Era luto o que sentia, e os olhos, a boca e os medos também sabiam da chuva. Sentiam. Foram se transformando pretos, marcados, doídos.
Sorvendo um copo de água com limão, se olhou reflexo. Se endureceu.
- Vai chover, trovejar, alagar.
Abriu o armário e foi direto pra gaveta dos esquecimentos. Estavam todos lá, intocáveis, os tecidos mais duros e coniventes, de toda uma vida de entregas. Escolheu o que melhor combinava com as unhas vermelhas-descascadas, enormes e pontudas, cultivadas somente para o encontro dos raios e trovões.
De sobretudo preto, imenso, tampando metade dos rabiscos de morte multicores que gritavam na pele branca da batata da perna, sentou no canto do quarto. No chão. Colocou um coturno pesado, como quem se protege da guerra, como quem nunca mais viu leveza. Com a cara e os cadarços amarrados com força, se fez nó - indissolúvel, intransponível. Levantou, pegou a bolsa cheia de restos e trapos e bateu a porta, certa da despedida.
- Já tá chovendo, desaguando, desabando tudo; é assim...
Mesmo de óculosescurosmaisescurosimpossível, sentiu a claridade quando ouviu a primeira buzina, antes de ultrapassar o portão. E percebeu que, mesmo que queira e se prepare cuidadosamente para a chuva, quando o sol põe na cabeça de brilhar, ele vem. Não tem jeito. Fim.
Desordenada, encabulada e por fim divertida, largou os cinzapretos no canto da grade e saiu descalça, com a maquiagem pesada borrada pelos rios de incredulidade... Um sorriso de alívio, discreto, se fez notar nos lábios.
- É. Fez sol.

Sylvia Araujo

2 comentários:

Ana disse...

É, fez sol.

Você faz sol, nesse espelho que eu cismei de achar no seu Recomeço.

Espelho bom de se ler, até o final.

Poetinha danada! Te amo!

Sylvia Araujo disse...

Espelho coletivo, por sinal... rs Afinal, quem é que já não pensou em morrer no dia da ressurreição?
O sol, no final, sempre vem.
Pra vc e pra mim também!!!
Amo vc.