Foto do blog: Mario Lamoglia

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Vento

A encosta quase verde neon, o cheiro do vento morno dos dias, o estalar da madeira no fogo, as incontáveis estrelas no céu. Os gatos esparramados na sala, os cães bebendo água no açude, as crianças felizes aos pares, o pique pelas portas abertas. As pipas lá no alto do céu, o tilintar do mensageiro dos ventos, o cheiro de doce do tacho, as risadas na mesa comprida. O vinho seco-suave, a poesia dos hojes em branco, os erros, fracassos, lições. Os abraços, os sorrisos, os laços, reconhecidos os mormaços, os olhos fechar. Oferecer as desculpas, o beijo, a flor. E o amor. Seleto, raro, preciso - por isso inteiro e em paz. 

Sylvia Araujo



terça-feira, 20 de maio de 2014

Um quê de espinho, um cisco

Está um dia um tanto quente hoje, não? Muito, muito quente mesmo, bem mais quente que o previsto. Abafado à beça o pouco ar; mal respiro, arde, dói - bem aqui, ó. Uma fisgada funda, às vezes - ai! -, viu só? Que coisa incômoda isso, um quê de espinho, ponta fina quebrada, uma lasca, um rasgo, um cisco, cruz credo. Ontem teve susto de granizo, você soube? Ou foi anteontem? As horas se confundem nesse lugar, os minutos se embaralham, nos ponteiros, ímã, é tudo agora aqui: hoje, ontem, anteontem, seja lá qual for o quando, só sei que teve. Foi em São Paulo, eu acho, ou coisa parecida - no fundo, no fundo, perto ou longe, tanto faz o onde, quilômetros são só rasas fugas, enfim, deixa isso tudo pra lá, melhor assim. Descolou do teto essa coisa toda, despencou do céu, sem parcimônia alguma, uma puta surpresa de gelo, pois é. É o imprevisível dos dias, esses sonhos todos, sempre prestes a derreter no próximo segundo, um deleite desesperançado, percebe? Bonito de ver, até, mas eu não vi, nem senti, porque já estava aqui. Não, eu ainda não me movi, espera, se acalma, que pressa é essa? A natureza é sempre um esplendoroso espetáculo, um circo sem lona, um palco escancarado às incontáveis avarias da vida - é pra sentir. Ah, a vida! Dá só uma olhada, escuta esse barulho todo dentro do peito, presta atenção, observa. Sente esses pingos no rosto, lambe esse sal que, abusado, te cola nos cantos dos lábios e me diz: é ou não é tudo isso? Mais ainda, eu sei: ela é dona de infinitos segredos, precisamos, nós todos, de algum tempo sem dedos. E de certas chaves também, me parece. Isso não é nada engraçado, não sei porque você ri. Está mesmo um dia quente ou eu é que ando suando demais? Olha só essas marcas escuras na roupa, quanta umidade anti-estética, meu deus, quanta nódoa - vê aqui? E aqui também, embaixo dos braços, entre as pernas, esses pelos bizarros, esse rio tão quente que esvai entre os fios, um horror, um horror! Meus pés estão escorregando, reparou? Os dedos colados melando, que nojo. Essa pretidão derretida escorrendo pros lados, essa poça esquisita aqui embaixo e esse mar aí, todo ele bem aí - ê, marzão! Melhor ficar descalço logo, enfiar até o tornozelo nessa areia fina e morna e ir. Faz tempo que ando obcecado com esse próximo passo, me falta é coragem, confesso. Que suplício, que martírio esse ter sempre que ir além, meu deus! O gozado é que o sol está quase todo encoberto, essas tantas nuvens aí, vê só - leões, dromedários, bicicletas, medos, uma porrada de medos, e eu aqui suando. É uma tensão estranha, sabe? Repara como os meus ombros tremem, as minhas mãos tremem, os meus joelhos batem, um no outro um no outro, que sensação desconfortável essa, pois é. Eu sei, eu sei, mas não quero me arrastar, entende? Quando eu sair daqui vou galopar! É. Me dá até vontade de rir só de imaginar, escuta só: vou tirar os chinelos, bem devagar, e vou chegar ali, bem na pontinha, tá vendo? Mas bem na pontinha mesmo, só apoiando o calcanhar. Um balanço de leve e pronto!, meus pés já vão estar na areia, simples assim. Aí, eu vou correr muito, muito rápido, com os braços bem abertos e os cabelos voando. E quando eu chegar lá, bem pertinho, quando aquela água verdeazul encostar seu frio na ponta dos meus dedos e abraçar os meus calos, eu vou dar três pulos grandes e, de olhos bem abertos, vou me jogar. É sério! Mas calma, calma que eu ainda estou aqui, racionalmente, calculando tudo. Tem que ser um daqueles passos perfeitos que a gente dá na vida, sabe? Os pés, a areia, a água, o salto - ah, o mar, o imenso mar! Só um pouco mais de paciência, um pouquinho só, tem dó, que, por enquanto, estou daqui olhando, filmando tudo e surfando alto, muito alto, bem na crista desse filho da puta - ah, esse maldito medo!

Sylvia Araujo

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Sopro dos pássaros

Com a lâmina fria e gasta enterrada bem fundo no peito, um suspiro. Dois, exaustos, e já me foge o ar - rascante, abafado, úmido. Seco e úmido. Seco de dar dó. O medo alarmante do barco tão frágil virar já sumiu no horizontehoje, desapareceu lentamente à turvas vistas, desde aquele anoitecer nublado irrepetível. O medo é monstro aborrecido, é âncora. Ninguém se lembra porque ninguém viu aquele tanto azul se esparramando, entregue, pelo chão gelado. Mas eu sentia que aquelas contas todas, aquele tanto mar, aquela bruta urgência era só vazio ensurdecedor, cheio de qualquer coisa pouca que conviesse agora. Eu sentia, cega.

Atiro pedrinhas redondasmiúdas no espelho do rio, os pés descalços sujos, o peito em luto, os olhos ardendo, enquanto o vento vem - insistente mansidão-frescor - me falar baixinho do amor. O vento sabe do amor. E a raiz, o broto, o sol que esquenta, a areia fina que escorre pedaços por entre tantos dedos, até virar inteira outra vez, incansável. É preciso nunca desistir de acreditar que ainda exista a beleza - a todo tempo os pássaros sopram. E a verdade, o bem sem amém, o abraço inteiro, o riso sem medo de ser apenas riso e nada além. É urgente acreditar para não sucumbir. Por isso aquelas tantas sementes guardadas no fundo da gaveta escura do armário sem uso, percebe? Porque sempre chega a hora, a vida já me explicou, em que é preciso preparar de novo a terra, escolher os melhores adubos e regar com calma e carinho um novo e mais bonito amanhã.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

(pelo) Vão



Teus olhos gritam um silêncio hercúleo. Daqui te ouço, Maria, sou só pedaços. O final da rota te entupiu de ecos, sob escombros treme esse teu peito murcho, já não há sorriso, a lembrança é rala, o amor é sépia, amanhã chegou? Onde está teu rio, tuas meias margens? Por qual das caixas, aquele teu lilás? E essas mãos aí, tão sedentas, imóveis; tão lacradas, sujas; e essas rugas vastas - todas rastros vãos? E esses teus olhos turvos, que eu não vejo e sinto? (nos teus olhos bebo o cheiroazul do mar). Não vá tão logo, que a esquina é perto, o coração é reino e muito mais suporta, o sol aquece sem nenhuma prece: não vá perder-se pra não mais voltar.

Teus olhos berram, Maria, é sede!
Sylvia Araujo

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Ajardinar

Lavra as palavras, feito terra, uma a uma - aduba. Escolhe a dedo o que te sai da boca, do peito, dos pés - caminha. Abraça os desvios, traça outros planos, em mil atalhos por aí, se encontra. Dos poros, permite só o escorrer do suor; é fevereiro, enfim, não há fuga. Já do amor, salgado e doce, exige nada - planta e rega e ama, claro, pra fazer germinar.  

Lava os sentires na corredeira do rio, os cabelos no mar - abre os braços, boia. Retém a maré do lado de dentro, escreve - escreve e canta, não esquece de cantar. Mas cala, também, que palavra é raiz e broto de asa sempre exige silêncio. E respira. Dança, salta, rodopia - escorre -; horizonte é feito de sonhos-nuvens, o dia a dia é hoje, irrevogável - vive.

Leva embora o que não te cabe, deixa sumir o que não te abraça - segue. Soluça as tristezas baixinho, observa os gatos, lambe as feridas. Cicatriz não mata, não mesmo - renova o foco, resiste. Escancara o peito pra esse sol que insiste em ser sempre o mesmo e ao mesmo tempo outro - transforma. Os medos, os cercos, os charcos - abandona. E lavra e lava e leva - que o deserto se ocupe em florescer por si. 

Sylvia Araujo    

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Aos exaustos, pérolas

Chove ainda, menos que antes. Daqui, pela janela escancarada, assisto, enlevada, ao incessante e sedutor desfile das translúcidas gotas em queda livre. A poesia abranda o som estridente do alarme abusivo que, de tempos em tempos, arranca pessoas de suas casasraízes para plantá-las em lugar nenhum. Vejo pérolas, por segundos, abotoadas ao longo dessa cortina esbranquiçada que se esparrama até onde minha turva vista alcança; escuto gritos. 

Uma criança chora, aflita com o rugido assustador da máquina que lixa a madeira recém colocada no chão da sala vazia. A mulher a sacode, imagino, impaciente com o pavor inútil do choro sentido e irritada com o denso pó que colore de ouro o abafado ar que mal respiram. Na rua enlameada, guarda-chuvas estampam estreitos rios multicores no cinzapagado do dia, que atravessam inteiros os impermeáveis tecidos para desembocar, todos, em uma rasa poça qualquer. 

Um homem vocifera impensáveis palavrões, enquanto uma buzina grita, furiosa e irascível, bem exato na esquina do hospital que nunca tem lençóis limpos ou leitos. Alguém acabou de morrer no segundo quarto do terceiro andar; sua cama de vivo, vazia, se mantém virada, impassível, para um descarnado e imenso muro cinza. Seu anoitecer fez a sorte sorrir para o próximo finito da infinita fila que se estende, resignada, ao longo dos pútridos corredores abarrotados de lonjuras. 

Do lado de fora, apoiada a um frágil arbusto que agradece a água depois dos tantos ontens a 40º, uma negra senhora, vestida de lenço e terço, embaralha, ao som de incompreensíveis orações, o sal que lhe irrompe das pálpebras frouxas às pesadas lágrimas que vazam dos céus; a chuva aperta, a dor dói. 

Num apartamento distante de raras mobílias, pequenas e regulares barras em pêndulo dedilham, alegres e isentas, a música que brota dos compridos e mornos ventos sem direção. Ao longe, a massiva voz da desgraça é ouvida em vários tons, grave uníssono escapulido das muitas bocas que habitam as polegadas das tantas caixas alienantes e suas falsas vazias sintonias. 

O dia chora, enraivecido por esse mundo imundo, de tanta cobiça e inveja, de tamanho desamor e abandono. Mas a beleza insiste e, quixotesca, resiste, implacável, no mergulho macio da reluzente colher em alva farinha, no acalento da cebola que abraça os dentes de alho no fundo oleado da antiga panela de ágata, no chiado baixinho do azeite que se mistura ao tamborilar quase eterno das gotas elípticas no chapéu gasto do fino teto. 

E o encanto renasce, a cada nova cor que explode no pequeno jardim; a cada coreografada revoada dos pássaros, que ensaiam rasantes ousados entre os úmidos blocos inertes de concreto; a cada dia que nasce e morre, enchendo de amanhãs, no fim, o peito de quem, por hoje, exauriu. 

Sylvia Araujo  

terça-feira, 22 de outubro de 2013



O dia se espreguiça lânguido, comprido, alongado e, mesmo cansado das tantas horas, dos muitos riscos, dos tantos inúteis conflitos, sorri resquícios lilases e se derrama inteiro quase azul em mim.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Com olhos de Portinari


Ir em frente semeia alguma esperança, mesmo que não tenha sobrado nada do que um dia houve, mesmo que não se tenha nada para levar adiante, além da fome, além da falta, além do homem - nome próprio em si mesmo, invisível-impróprio para quem vê de longe a sombra dos muitos ossos, dos poucos ofícios, das tantas ausências. Ir em frente é enfrentar teimosamente o que já é fim muito antes do início, é adiar o grave destino-erro com as reles forças, é retirar-se, retirante, do que, desde sempre, não há. 


Sylvia Araujo



terça-feira, 23 de julho de 2013

Dona Lourdes

Em mergulho profundo na comunidade do Escondidinho - escondida, mas bem escondida mesmo, entre Fogueteiro e Prazeres - encontrei D. Lourdes e seu sorriso imenso, que toma de assalto o corpo inteiro, dos olhinhos miúdos às artísticas mãos.

Cria da comunidade desde moleca, com os filhos já crescidos, vive hoje com o marido em uma casa pequena e muito humilde, onde, de porta aberta para o ar circular, junta retalhos multicoloridos em uma cansada máquina de costura. 

O mais bonito, além de observar estarrecida a transformação daqueles pequenos trapos em linda colcha, foi sentir o transbordar de tanto amor e alegria em cada ponto que dá na união das tantas texturas.

A recomendação da supervisão foi de que não tirasse foto das pessoas, mas não resisti ao olhar iluminado dessa senhora tão incrível e perguntei, meio tímida:

- Dona Lourdes, queria pedir uma coisa pra senhora, posso?
- Claro, minha filha, o que é?
- Eu queria levar a senhora comigo. Posso tirar uma foto sua?

E ela, com aquele sorriso que abraça apertado, beija e rodopia a gente a metros do chão, ajeitou os tecidos com todo carinho e me olhou bem assim:

Sylvia Araujo

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Palavra plena

é quando a imagem clara sobrepõe o verbo. 

Sylvia Araujo

quarta-feira, 5 de junho de 2013

O mundo, parte dele ou vice-versa

Andava cabisbaixo, voleando ao ido alguns frágeis esquecimentos pelas poucas frestas das longas manhãs cinzentas. Os ombros, displicentes, projetados em agudo ângulo sempre em frente, resultavam em uma discreta protuberância elíptica que saltava em sutil excesso sobre o cós avesso da calça jeans puída. Nos pés, uma firme crosta alaranjadendurecida gritava ausências a plenos pulmões. É que o tempo, o medo e o oco foram lentamente transformando - ano após ano – a envergada sola em bruto casco e os longos e presunçosos dedos em garras irreversivelmente tortas, de onde brotaram, inescrupulosas, escuras e defeituosas unhas. Sob cada uma delas, restos.

Os grossos e enegrecidos cabelos, alvoroçados pela ansiedade noturna dos próprios indicadores e polegares amarronzados em pinça, apontavam incertos para todos os lados, feito setas em labirinto de fauno. Era floresta de vastas matas aquela cabeça tão entupida de esteios. Era nó de marinheiro; mar bravio, após longo e inexorável anti-cio. Em seus longínquos olhos, ao fundobemfundo, morava em confundido eterno um vazio extremo – cheio desses nadas que não se preenche com alguns poucos brilhos ou qualquer rotineira existência crua. Tinha olhos de vento em tempestade, Olívia sempre me dizia. Joaquim trazia bem junto consigo uma densa correnteza inescapável de rio. Tinha peito amplo de mais viver - mas a vida vã não quis.

Joaquimiúdo vagava ansioso pelos arredores de seu pequeno mundo, como quem está sempre prestes a desencavar valiosíssimos tesouros. Eufórico, da hora em que seus atentos olhos se abriam à imensidão do tempo ao momento em que suas minúsculas pálpebras pendiam frouxas de cansaço, adicionava todo inédito e quase inaudível ruído à sua incompreensível e interminável playlist. Anotava, sem grandes pretensões, mas muita alegria, em um gasto caderno de folhas amassadas e encardidas, o inconfundível detalhe do gosto da terra umedecida pela surpreendente geada do outono; classificava os exclusivos odores dos acontecidos dias – categórico - em listas muito bem separadas: o acre seco do irremediável nunca, jamais, dividiria página com os adocicados poréns. Assim, minuto a minuto, ele bem-vivia.

Acontece que Joaquimiúdo cresceu, como toda criança que arrebenta no mundo sem pedir licença ou ser, quiçá, bem quista, que seja. Adulteceu lentamente diante dos incrédulos olhos vistos daqueles que nunca o compreenderam, mas viam nele uma espécie de santo entortado, de sonho etéreo, de elo para sempre perdido. Seus tesouros – sua tamanha reluzente riqueza sem-fim -, a cada breve dia que escorria, impávido, valiam, pouco a pouco, um pouco menos. Adultos desejam, planejam. E planos não cabem na amorosidade inédita de todo agora: se fazem amanhãs eternos que nunca vêm. Não fosse aquela irritante teimosia branca em ser do mundo um pedaço dele, tal qualquer outra microscópica parte sua, quase não teria sofrido neste aflitivo e torturante desdizer, insinuou dia desses, Olívia. Joaquim espichou. E o mundo encolheu.

Distraído completo das coisas mesmas dos dias, arrastando-se despropositado e mecânico pelos afazeres mais comuns da vida de sempre, surpreendentemente apaixonou-se, então, aos vinte e poucos. Desfez, sem nenhum esforço, todo mal entendido sobre a provável desaparição de seus tantos antigos desejos latentes, quando preencheu-se inteiro de um amor que muito bem lhe convinha. Ela, perfeita quase miragem, carregava, brilhando nos lábios, uma certa certeza implacável e, suave, cheirava docemente a jasmim. Por onde passava era raio de sol, radiante luminosidade que não cabia em si e, por isso, espontânea e leve feito teia recém tecida, toda inteira esparramava. Para ele, o mundo alargou-se, suspirava Olívia com os olhos úmidos. Nesse momento, em instinto, ela apertava com força os olhos para de imediato focar a atenção em qualquer inalcançável movimento ao redor. Nesse momento, ela sempre me dizia não ter absolutamente mais nada a dizer.

Talvez eu tenha visto de relance, um dia, uma constante pequena chama amarelecida sobressair quase incolor do meio do pálido e enregelado lilás que fazia reconhecer Joaquim há anos. Imaginei que, de fato, a partir daí, o mundo deixaria, enfim, de ser mero mundo para voltar a ser parte dele e vice-versa. Tudo parecia correr naturalmente bem com os cheiros, os gostos, os sons, os toques. Joaquim reavivava entusiasmado, um a um, seus valiosos tesouros de infância e, pouco a pouco, transformava, cuidadoso, o objeto de seu imenso e inexorável amor - e sua particular existência - em seu próprio e seguro habitat concreto. Até que, numa quinta-feira em que as folhas alaranjadas, levemente agitadas, voavam apressadas em círculos concêntricos pelas sujas calçadas, cansada de ser toda mundo e desejando a simplicidade do status de ser apenas uma microscópica parte dele - como toda e qualquer outra parte - ela se foi. E, mais uma vez, o mundo encolheu.

Joaquim manteve-se estático, sentado sobre as magras pernas em cruz no chão rachado da varanda sem teto, absorvido absorto por um horizonte mais estático ainda, por dias mais dias seguidos. Não comia, não dormia, não chorava – contei o desconhecido fato, sem alterações na voz, a uma emocionada e anoitecida Olívia. Aos poucos, foi largando em cada canto um considerável pedaço de mundo, até que nada mais restou além do que hoje e agora se vê. Esse homem, que deixou de ser o que foi há tempos para se tornar o inominável que o mundo retém em recusa, talvez mantenha ainda alguma pequena valia daquele miúdo Joaquim; talvez ainda carregue sonhos – não planos – como um tesouro escondido, do qual se perdeu o mapa para não deixá-lo escapar de vez.

Olívia, sem dizer palavra, aproximou delicada suas mãos em concha à minha boca seca e rachada. E, sentindo a trêmula quentura úmida que entrecortada me escapava, sussurrou baixinho em meus ouvidos por anos inteiros lacrados: ainda respira, vê? Estou de volta, para sermos os dois o mundo, crê, Joaquim? E, aninhando as minhas mãos calosas e imundas entre as dela, quase impalpáveis de tão mundanas, simplesmente sorriu.
                    
Sylvia Araujo

terça-feira, 4 de junho de 2013

E espanta a tristeza dos peixes com o movimento suave das pontas dos curtos dedos. Respingazul.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Talvez

Talvez fosse árduo amparar com firmeza o seu corpo pesado - quase imóvel de tanto inchaço - por tantas horas seguidas, enquanto as palavras jorrassem aos montes de sua boca seca e cansada, rés-condenadas ao eco infindável do tempo. Talvez fosse estranho te encontrar aninhada sozinha no canto frio do chão descascado do quarto, soluçante feito humano estreante, minutos depois daquele sentimento opressivo, doído - ininteligível - te fazer remoer um bocado os tamanhos excessos. Talvez fosse inédito que arrancasse aos gritos os tão bem tratados cabelos em um inexperiente movimento de fúria; que arranhasse inteiros os curtos braços, o rosto impreciso, o rijo pescoço, em branco desespero, em mais pura, cristalina e inocente negação. Talvez fosse encargo, imposto, karma suposto ou coisa que o valha, o que me fizesse abraçar seus conflitos com a força de tudo o que eu sinto e não sei explicar. Bem no meio do olho oco da noite escura e voraz, exatamente no instante em que você não mais conseguisse dormir, pelo incansável fantasma da dura presença das suas tantas ausências, eu sucumbiria. Talvez. Cheguei a cogitar essa hipótese caótica dia desses, não ri. Recordo vagamente de te imaginar assim, tim-tim por tim-tim: trajada com aguçado esmero de um avesso que eu jamais conheci. Era batom cor de telha borrado, salto agulha, de espanto, partido e um vestido que nunca foi seu, todo-inteiro amassado, ostentando uma distinta e portentosa nódoa rubra, fruto sabe-se lá de que. Eu só sei, meu amor, que talvez eu morresse vezes sem conta se essa tamanha dor se alastrasse tal hera em muro sujo de escritos vazios. Que talvez eu ficasse por completo perdido se você se aventurasse tão longe; que talvez até o seu inigualável olhar de folha ao vento se apagasse irremediavelmente naquela fotografia gasta de um breve, recente e feliz inverno. Ou não.

Sylvia Araujo

quarta-feira, 20 de março de 2013

Frequento silêncios como quem busca.











(até encontrar).

Sylvia Araujo

terça-feira, 12 de março de 2013

Afluente-se


As tais flores, em sua delicada e perfeita miudeza de flor, são matizadas de um amarelo pálido - um tom abaixo do que reluz sempre quando o pequenogrande menino sorri. Vê-se - se bem se observar – por entre as microscópicas pétalas, escorrerem, contidos, estreitos e regulares afluentes alaranjados. Ela deságua - rio que é - sempre que abraça com os úmidos olhos o invisível jardim coalhado de operárias aladas. Enquanto beijam flor a flor, num amor de enlevar o mais carcomido e dolorido coração, ela deixa estourar no silêncio da sombra do arbusto um soluço inesperado e bonito de esperança. O menino, seu menino de poucos anos e muitos sonhos, há de pendurar seu sorriso mais puro na quina da mais alta estrela. Ele terminará por regar, cuidadoso, seus medos com os pingos da chuva, ela crê. Há de, feliz, florescer, desertar, amarelolaranjar! Para que enfim compreenda, sem esforço qualquer – e essa é a maior das lições, não lhe restam dúvidas - que nesse mundo de infinitas milagrosas surpresas, nada deve ser tão rijo a ponto de não permitir-se embevecer. Para que sempre carregue consigo, por todo o extenuante e longo caminho, as pequenas e delicadas sementes de seu próprio e colorido jardim.

Sylvia Araujo

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Vírgula

Cravou os olhos vermelhos-vidrados no dorso imponente do impossível de tal maneira que, dali, só seria capaz de lhe abduzir, vez por todas, o gosmento refastelar de uma molenga lagarta, prestes a abraçar os tons invisíveis do arco-íris e vestir, suave, o ar.

Sylvia Araujo

domingo, 11 de março de 2012

(no poço
no fundo do poço
no fim do poço sem fundo
a mola
gasta)

Sylvia Araujo

terça-feira, 6 de março de 2012

Campo minado

Quem ousasse aproximar-se - palmos diante desse teu invisível jorro de escuro - veria mais que o tal oceano simétrico que insiste em fazer arder, numa insana teima recorrente de horizontes: 

(assim, prenhe de nãos, tua imagem exausta a lubrificar cuidadosa os vagos dias e auscultar silenciosa as dobradiças das noites infindas - a respiração entrecortada aguardando em profunda aceitação a lufada de ar puro que nunca vem) 

ninguém.

Quem chegasse muito perto - os pés tocando a margem desse teu profundo rio de entulhos - veria muito mais que as tais janelas cobertas de heras que insiste em abrir aos pares, numa obsessão descabida de quem rasga sóis com os dentes:

(assim, banhada de antigos véus, as ranhuras fundas a recenderem incontáveis medos, a loucura cega a te dilatar as veias secas, essa tua máquina muito gasta em ponto de eterna estafa, o labirinto fundo que te entontece e afoga nesse sem fim além)

mais,
ninguém.
Sylvia Araujo

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Nuvens, céus e sóis

Quando está em silêncio no meio do quarto, brincando com pedaços recortados de papelão sem uso, tenho a impressão de ver, no fundo dos seus olhos de criança, o despontar de uma reluzente estrela cadente. Às vezes sacudo a cabeça, de um lado pro outro, pra espantar a claridade que escorre da sua boca, entre barulhos de locomotivas e sirenes. Quanto mais desacredito, mais forte fica a luz. E tão quente, que o suor me escorre pelas pernas, mesmo enquanto me mantenho invisível atrás da porta azul. É bonito ver o que sempre acontece depois: ele fecha os olhinhos, e os braços pequenos se esticam em infinitude de pássaro. Um sorriso branco e levinho vai nascendo bem devagar, no canto direito da boca, e se esparramando feito pipa colorida em céu sem nuvens. Quando transborda, o rio toma inteiro seu corpo franzino e o umedece todo em gargalhadas nuas. Contenho o riso, pra não perder a miudeza do enrolar das transparentes contas de horizonte em seu pescoço de menino. Depois disso, quando já é todo nuvens, céus e sóis, me olha com aquele rosto puro de brisa e pergunta, resplandecente: quer brincar também, mamãe?

Sylvia Araujo

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Mantra


Fazer o bem, todos os dias, amém.

Sylvia Araujo

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Deslembrança

Num desses dias de verão, sentindo na pele escorregadia o calor viscoso que subia do asfalto durante o susto da chuva inesperada, fiquei parada ali, na esquina da rua vazia, com um dos calcanhares apoiado na quina imunda do meio-fio, os cabelos encaracolados já meio esticados encharcando aos poucos, a blusa de algodão quase sem cor prestes a admitir uma transparência beirando a indecência e as lentes dos óculos acumulando, impassíveis, um monte de micro-gotículas arredondadas cor-de-chuva. 

Não me lembro muito bem porque estava parada exatamente ali, naquele lugar, mas sei que observei horas a fio, quase compulsivamente, as gotas pesadas e urgentes formarem poças enormes e se esparramarem em rios, do meio pros cantos do chão esburacado. É impressionante como a prefeitura não dá a mínima, mas disso a gente já sabe, pras crateras enormes que se formam e aumentam a cada dia mais aqui onde eu estou agora, que é onde eu estava quando chovia e de onde não me movi nem um passo desde então, sei lá onde isso fica ou de que maneira eu vim parar aqui. 

A questão é que, assim como a prefeitura, os donos dos carros de todas as cores e tamanhos e anos, com IPVA quitado ou não, não importa, também não dão a menor bola pros buracos, muito menos pra chuva, forte ou só aquela finíssima cortina incolor, que se foda, e eu me lembro como se fosse hoje, que nesse dia passavam quase voando, com a ansiedade própria de quem tem aonde chegar. Eles, comprovadamente, pode observar, têm mesmo muita pressa quando chove e, como sempre diz a minha mãe, quando a tempestade resolve dar o ar da sua graça, naquele dia chovia à cântaros. 

Eu estava vendo tudo, desde o início, e me mantive muito atenta aos carros, todos eles, que corriam como loucos carregando pra longe uma ou duas pessoas, às vezes três, que inevitavelmente embaçavam os vidros fechados com as suas respirações asfixiadas e quentes como o verão. As rodas, que ninguém via porque estavam afogadas em tanta água, nem eu, que estava ali alerta há tanto tempo que nem me lembro quanto tempo foi, abriam apressadas uma estrada no meio do rio do meio da rua e, quando sumiam na esquina alagada, deixavam pra trás um rastro de cor, no tom exato da lataria do carro, misturado com o tom dos meus olhos marejados, mais o tom da chuva branca às vezes quase-azul. 

Eu não sei te dizer no que eu estava pensando enquanto me mantinha parada ali. Na verdade, nem sei te dizer se estava pensando em alguma coisa, qualquer coisa de concreto, ou se simplesmente eu era só um vazio em pé, debaixo da chuva forte, misturando as minhas lágrimas salgadas àquela água adocicada que caía do céu, esmaecendo as lembranças, deixando de ser qualquer coisa que um dia eu já tivesse sido por mim ou por alguém. 

O fato é que fiquei ali, com o meu all star branco lentamente acinzentando pra combinar com o céu que era muito cinza, que era quase preto nesse dia estranho, observando e vivendo a chuva, o asfalto, os buracos, os carros, e eu te juro que não me resta nada além de uma vaga lembrança de que talvez, e eu digo talvez porque os fatos me faltam e só me restar imaginar os porquês de todo esse equívoco, aquele tenha sido o dia em que eu finalmente decidi que iria me esquecer de vez.

Sylvia Araujo

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Pecadora e herege. Infeliz, nunca.

Quando você tem um problema dos grandes, as pessoas esperam te encontrar com a pele sem viço, com olheiras enormes, com dez quilos a menos e um monte de tristeza escorrendo pelos cantos dos olhos. Sorrir vira pecado. Cantar, então, se torna quase uma heresia. Parece que esperam que você cultive a dor e faça dela o seu jardim incolor, até que tudo se resolva - até que o problema não exista mais. Acontece que eu não vou fazer dos lamentos a minha música. Não vou deixar de amar, de dançar, de gargalhar, de aproveitar os mínimos momentos e ser feliz apesar de, ainda que. O problema não vai se transformar em fracasso, simplesmente porque eu não fui capaz de recomeçar, ou porque não tive a presença de espírito de zombar da cara dele, quando quis me derrubar - e desisti de seguir. O meu mundo não vai se espreguiçar cinza todas as manhãs e eu não vou me tornar um poço árido de rabugice e agressividade - não esperem por isso. Todos os dias, dou bom dia ao dia que levanta e vou. Pra que, quando no fim tudo enfim desanuvie, eu seja capaz de agradecer a mim mesma por ter conseguido mais uma vez e tenha alegrias  suficientes estocadas para superar os muitos mais, que infinitamente virão - até que a morte nos separe, amém.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Ruminante

Me faz falta dividir o silêncio com o teu não-dizer. O barulho das folhas virando, a fumaça dos cigarros dançando, o cheiro do café cor de piche - o baseado apertado, sempre à mão no cinzeiro. Caymmi ensolarando os dias chuvosos, Edu fazendo chover aqui dentro, os choros, os sambas, os jazz - você. Teu violão de cordas novas, tua voz liberta enchendo a casa, eu fingindo que nem via, pra deixar o teu momento inteiro - só pra te observar ser, comigo invisível ali. Aquela janela que adivinhava o azul do dia, enquanto a vontade de ficar estirada se espreguiçava no corpo exausto das tantas noites embaixo de ti. Eu esticava o olhar, de vez em quando, pra matar a saudade das horas seguidas em que a tua barba mal feita, tão linda, ficava sem roçar o meu corpo, enquando brilhava sob a nesga de sol. Você via? Eu só queria aquele quase-nada que era tanto, tanto!, que meu sorriso abria só de te ver dormir. Você roncava quando bebia demais. E falava sem parar, os olhos brilhando, as mãos bailarinas acompanhando de perto o raciocínio. A sua cara amarrotada, os seus montes de livros, o seu abraço apertado, as horas intermináveis em que dividíamos ideias e música. Eu era sua e você era o mundo. Não é fácil lembrar tudo isso, já faz um tempo que tento esquecer. Mas não deu. Porque muita coisa mudou depois de você. Porque descobri compartimentos aqui depois de nós dois. Porque você dividiu as minhas águas, foi o homem que eu sempre quis e se foi. E eu fiquei, latejando a poesia, a filosofia, a genialidade. E engoli tudo isso com um monte de saliva e lágrimas porque sei que assim, igualzinho assim, nunca mais aqui dentro de mim.

Sylvia Araujo

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O amanhã é mais bonito quando dói

Sentir é ultrapassar muros com asas imaginárias. É ter, bem dentro, um jardim inteiro e, nos olhos, os mares do mundo. É carregar consigo o cheiro das terras, o sopro do vento, as gotas de orvalho. E se deixar rodopiar pelo farfalhar delicado e fugaz de uma linda borboleta multicor. Sentir é viver, ser - embevecer-se. É mais do que muita gente poderia suportar. Mas pra quem dói - veja bem se não é assim - o renascer é como brotar sol, por detrás das enormes montanhas, em dia cinzento. É ter o azul se esparramando no peito bem devagarinho e nas pontas dos dedos guardar em segredo a doce magia de recomeçar.

Sylvia Araujo

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Súbito azul

E sobre a lucidez perene dos galhos, por entre as folhas verdes-modorrentas,  eu vi se esparramar exangue o  azul do dia - como se não soubesse que o seu fardo (por mais que pareça injusto, soturno e pesado) é ser vivido farto-inteiro, sem nunca, jamais, ter sido esperado.

Viver é feito de repentes.
Sylvia Araujo

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012


Eu só sei saber o que não se sabe: o desabrigo da pele, o descaso dos olhos, seu coturno - imundo - a esmagar as flores sem nenhum porém.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Até o nunca mais viver sem ti



Feriu-me irreversivelmente as retinas esse teu riso solto, branco, afiado - tão displicente, blasé. A pior das tuas armas, os dentes (sempre). E você bem sabe que assim, ligeiramente entortados, tão arte contemporânea - tão livres! - são sempre um forte agravo à minha condenação: querer-te imenso até o nunca mais viver sem ti. O golpe mais baixo - ainda mais baixo que a rebeldia dos dentes a fugir dos trilhos dessa tua boca bonita - é o tal meio-olhar de lado, também entortado, esse tanto-sarcasmo, meu deus! Essa santa transparência, aí, cor de mel que carregas; que me faz assim tão nua a mim, que ando bem vestida de medos nos últimos tempos; que ando incontáveis feridas abertas; que ando cega. (Vendou-me, o amor). E cega não enxergo as chagas, sou só planos: um dia, mistura homogênea-nós dois; um dia, um não saber inícios, nem fins - um dia nós.
Atados; eternos.
Um dia (a) sóis.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Mimetismo

Fechei os olhos e fui embora pro meu canto de pássaros e águas correndo. Me empoleirei na árvore frondosa, me espalhei em seus muitos braços, desapareci. Agora sou caule, folhas, seiva bruta - estou silêncio admirado da grandeza do verde, do profundo espelho do lago. Trago em mim os vazios do mundo inteiro, pra encher - gota a gota - dos mais delicados gorjeios. Sou ventre em asas, sou céu.

Soul
música
muda.

Sylvia Araujo

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Vácuo de repentinas faltas

Naufrágios. Fome de terra firme - ganas de ar queimando a garganta muda - afogamentos. Nas costas curvadas, milhares de quilos, ausências. No horizonte, milhares de pântanos, litros de vastos mares - nos cabelos, âncora. Um vácuo cheio de repentinas faltas, estúpidos faleceres e memórias rotas pulsando debaixo da pele: eu arranho a derme, arranco os vermes, soluço o vírus, o sangue contaminado, o pouco suspiro. O susto de um breve sorriso oblíquo, de quem não tem medo - e ainda assim treme (e teme o frio) - me enregela. A espinha eriça e as pupilas vagam, foscas. É pesado o punhal que atravessa o tanque e faz escorrer o viscoso óleo da vida. É brilhante a lâmina, é quase espelho. E quando a ferrugem se esparrama feito hera sobre a labiríntica maquinaria do coração, e a maresia emperra o respiro inconstante dos parcos desejos, são meus olhos chovendo sal - mais nada. Sou eu, desespero puro, me agarrando aos restos - as ondas crescendo, a cada segundo maiores, enormes, negras, pesadas, brutais. Sou eu, meus mesmos e inesgotáveis naufragares. Sou eu, insistente naufrágio em mim.

Sylvia Araujo

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Suspiro de uma nota só

Quarenta anos. Um pouco mais, talvez, mas não passava dos quarenta e cinco, disso estava certa. Os olhos diziam muito mais - eles sempre dizem muito mais do que a boca ou o corpo almejam - e traziam séculos dependurados nas bolsas escurecidas, que faziam moradia bem embaixo daquela beleza arredia. Eram bonitos sim, eram muito bonitos aqueles grandes espelhos cor de mel derretido. Mas por algum motivo, fugiam, perdidos, ela sabia. Escondidos detrás daquela cortina espessa e leitosa, eles sorriam uma tristeza bonita, de quem escorre e morre com fome de vida, de quem maldiz a sorte e deseja com todas as forças um amanhã reluzente de sol. 

Debruçado no balcão, de pé, ele virava um copo atrás do outro - as lembranças afogadas no líquido amarelado, o soluço asfixiado pela espuma branca. Ela, serena, de longe observava. Chegou até mesmo a ver, em uma micro fração de segundo, uma lágrima tímida e transparente que ameaçava, insistente, se lançar do parapeito ciliado. E acompanhou, atenta, os movimentos enérgicos imediatos dos braços, os gritos exasperados, a gargalhada enfurecida de quem descaradamente se aproveita da falta do meia-direita - em atacante do time de outro estado - para exorcizar seus próprios fantasmas, congelar seus próprios demônios. Ninguém percebeu o tanto de ausências que escondiam aqueles muitos excessos, mas ela, do meio do seu próprio buraco, assolada pelo dolorido reconhecimento da falta, avistou e doeu junto.

Em algum instante, que nunca-jamais saberão precisar, por conta do tamanho atordoamento daquele enfrentamento, se olharam. Subiu bailarino pelo pescoço esguio dela, tomando todo o seu corpo rígido, um cheiro  intenso e árido de desejo e medo. Um gosto de culpa, de auto-flagelo, de fracasso certeiro lhe amortecia a língua seca - ela virou o copo quase cheio, sem desviar dos olhos dele. Queria engolir aquela dor. Queria tomar pra si, fazê-la abraçar-se à sua, se derramar inteira. Queria dizer do amor. Levantou da mesa e se aproximou - os olhos mudos e úmidos a denunciar seu gesto contido. Bem perto, enquanto os cansaços se fundiam em um único suspiro de uma nota só, abraçaram-se com força - dois desconhecidos que se sabiam como ninguém. Olhando-se bem dentro, os dois precipícios amedrontados a entrelaçarem as lembranças e os futuros incertos, brindaram o amanhã - hasteada, tremulava a esverdeada esperança bonita, em um sorriso branco e feliz.

Sylvia Araujo

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011



Que a minha falta de ausências nunca afete os meus afetos.

(é tudo sempre o tempo todo em mim)

Sylvia Araujo

Bisturi




O pudor castra(a)dor de ser.

Sylvia Araujo

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Cantare


Cantava, invisível. Da garganta oca escapulia um blues rasgado, a dor imensa a evaporar dos muitos vincos. Pés descalços, no meio-fio andava - a pele escura em cacos; os sonhos, poucos. Arrastava os curtos passos e cerrava firme os olhos, enquanto o grave gravitava fundo na caixa ecoante e rompia em fúria os poucos dentes-muros. Toda uma vida de ausências sacolejava dentro da pequena bolsa em remendos. Tantos desditos-incertos explodiam no fundo daqueles olhos tão secos. Nas mãos rachadas, os rabiscos de todos os ontens. Eu senti seu medo, seu desespero, seu desconforto - confesso: eu me afoguei. E entendi, depois dos intermináveis minutos em que estive ali, observando, inerte, que todos somos invisíveis uns dias, muitas, várias vezes. A diferença é que alguns de nós cantam - a melodia a marcar, canina, o breve território da existência - enquanto outros apenas seguem, exasperados com o próximo passo, incapazes de ouvir sequer os seus próprios lamentos.

Sylvia Araujo

domingo, 27 de novembro de 2011

Carmim


Eu não sei. É que alguma coisa tá fora de ordem, tá fora de órbita, tá fora do rumo - sem prumo - me ajuda. Alguma coisa é muito longe assim, tão perto-dentro e eu não sei. Eu juro que não sei, me explica? Não, não tenho medo do escuro, é sério. Essa luz carmim, acesa o tempo todo, enfim, é só pra ver arder o muro alto - medir seu destamanho, enfrentar meu desconcerto. Você pode apagar o facho, se me envolver bem apertado nos teus braços, beijos: e eu te prometo nunca mais tentar fugir de mim.

Sylvia Araujo

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Crença, bença

Não. Não há cheiro, não. Há só um medo esparramado e morno que me diz das coisas que nunca me foram. É só um frio na espinha curva que sobe e desce, me tonteia, escapa. É caso sério esse amor tão grande. E ele ri quando respiro o não, cria covinhas se desacredito. Um riso livre, de fazer barulho, gargalhada pura de criança nua - a boca toda lambuzada - é mel. E eu lhe dou as mãos numa ciranda a sós, nos revelamos luas sem usar desfeitos. Ele sabe ser - o amor - maior! Eu pra sempre aprendo seu enlarguecer. Lá, no meu coração, danado faz ninho, caminho, soluço, maré-lua-cheia, me faz ser inteira. Longe ou bem perto, me oferece no cálice um sopro, um gozo danado de bom: nunca deixe de me acreditar. E vá.
Sylvia Araujo

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Ânsia


Chove
na rua
na carne
aqui dentro.

(e essa novembrância
a me arrebatar 
silente
feito 31
em final dos tempos)

Sylvia Araujo

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

(In)existência


Me impulsionam pelas matas densas pés descalços de curta vida. Pouco mais de trinta anos me embrulham frouxos o corpo sedento.  Sobre os dedos calosos, cortados, equilibra-se em patético malabarismo o expressivo peso da minha vontade - cambaleando, sigo. No início do caminho estreito, uma encruzilhada e um hoje-branco, estatelado em oferenda. Então, me deixo arrebatar pelo perfeito momento-presente eternizado em nesga de sol e aqueço. Esqueço os medos e esvazio dos meus tantos vãos. Sou agora só desejo escancarando os poros e esfregando pelo corpo inteiriço a felicidade suprema de estar exatamente naquele lugar. E estar quem estou. Da grama úmida, a certeza do incerto borbulha, amortecendo os passos. Sorrio. Inexisto na lembrança de uma veracidade inventada e desconstruo. Um suspiro rodopia altivo nas entranhas do nariz e me assopra curto recado do rio: siga. Frágil, pressinto aturdida o arrebatamento das águas negras- revoltas, mas os planos já estão desfeitos. Não há meias-voltas - me resta ir além. O rio que lateja em mim murmura: é pouco ainda, eu estou em toda parte. E quando irrompe inteiro nas veias, arrastando em enfurecida pororoca minhas tantas exatas exatidões, me faz rio. Inundada, so(u)rrio em incurável e irreversível deságue.

Sylvia Araujo

segunda-feira, 24 de outubro de 2011



Viver.

(do verbo cachoeirar-se)

Sylvia Araujo

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Fotografias

Engoliu o gesto ávido com pressa - o coração enxovalhado gritando o atalho que não deveria seguir. Um desconhecido e frio suor sulcava riachos, escorrendo em volúpia pelas mãos trêmulas. Na garganta, emparedada, uma estranha sensação de reconhecimento e intimidade formigava. Não é possível - pensou. Os olhos negros giravam nas órbitas durante o dolorido e profundo suspiro, que inchava lento e pausado a caixa toráxica lotada de impotências. Os dedos largos quase arrancando furiosos os fios ondulados e escuros sobre a testa. As pernas compridas, frenéticas em espasmos, entonteciam, escorraçando o desejo latente. Não é possível - grunhiu.  Cerrou os dentes, disposta a assustar os fantasmas. Não se permitiria exacerbar em seu mundo tão concreto e passível. Não se disporia a sonhar - que de sonhos já havia morrido demais. Fechou os olhos na intenção de negar os próximos passos, mas instintivamente estendeu os braços, enquanto o vento morno e suave atravessava as cortinas fluídas e lhe acariciava sutil o pescoço esguio. Sentiu o beijo, o toque, o sexo úmido. E aquela presença maciça a dedilhar profundo seus mais inalcançáveis segredos. Num rompante, cravando as unhas afiadas no dorso largo e viril do impossível, gemeu.

Sylvia Araujo

domingo, 16 de outubro de 2011

Cálice

Dão rasantes sobre minha cabeça palavras-asas abertas. Montes delas, de todas as cores, em letras garrafais ou miúdas, sobrevoam inquietas em silêncio cúmplice, olhando-se pasmas, reverenciando suas ralas verdades, bajulando e lambendo seus reles saberes. Desdenham de mim - pobre de mim - que não lhes dou ouvidos. Acredito que queiram me dizer algo, mas não há bocas para expressá-las no meio desse céu cinzento. E não desejo que falem. Calem-se! Que me saboreie o silêncio do mundo. Eu me quero cega. Nesse instante em que grito e dilacero por dentro, me desejo entranhas. Não me venham falar de flores, enquanto rumino espinhos. As letras são minhas agora - só minhas, saibam - e somente as que escolho a dedo povoarão meu cálice. Nelas estão a cura de todas essas feridas abertas. São minhas, e é de meu direito permitir que queimem, que ardam, que sangrem. De onde escorre o fel, brota também o antídoto de todo o mal que me corrói. Eu sou a lama e o sol que endurece o charco. Eu sou o medo e a coragem de ir além. Eu sou a dor e o maior amor que já tive na vida. E não descansarei um segundo sequer, enquanto em mim não reinar a paz e o seu absoluto e incontestável vir a ser.

Sylvia Araujo

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Luminescência

Não é preciso mais que pés no chão - a terra úmida fazendo vingar o amor por entre os dedos. Do mundo, em mim, lateja a inspiração eterna da simplicidade em flor. Do que necessito pra me encher de coragem e ir: do mar sem fim, desse imenso céu brotado de estrelas, do verde mato alumiando os dias, do vento morno e nu - que leva embora pra sempre tudo que não me cabe e sobra. No peito, bem guardado, carrego o segredo do tanto em quase-nada. E a certeza de que sou a revolução que hasteia minha própria bandeira. De que sou o vivo amor - e que, por ele, respiro e pulso.     
Sylvia Araujo

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Ah, Clarice...

"O caminho que eu escolhi é o do amor. Não importam as dores, as angústias, nem as decepções que vou ter que encarar. Escolhi ser verdadeira. No meu caminho, o abraço é apertado, o aperto de mão é sincero. Por isso, não estranhe a minha maneira de sorrir e de te desejar tanto bem. Eu sou aquela pessoa que acredita no bem, que vive no bem e que anseia o bem. É assim que eu enxergo a vida e é assim que eu acredito que vale a pena viver."

Clarice Lispector


Enquanto emudeço, ela diz por mim. E como diz bonito, a danada!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Oferenda aos ventos


Obrigada, minha nova estrelinha, por ter sido o ser humano especial que você foi. Criatura querida, zelosa - figura amiga. Uma das pessoas mais íntegras, justas e incríveis que já conheci - de quem sempre tive orgulho, por ter o mesmo sangue correndo nas veias. O meu "eu te amo" pra você é eterno.

Abra as asas, meu primo, que a imensidão dos céus agora é toda sua.


À Renato Scher - in memorian.

sábado, 17 de setembro de 2011

Amém.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A velha e a puta

Esticou o braço delgado para o ônibus e, ao mesmo tempo, em um improvável malabarismo, tentou encontrar as moedas perdidas no fundo da bolsa enorme de couro cru. Além do peso no ombro esquerdo, todos os dias ela carrega na outra mão uma pasta  cinzenta cor de chumbo que, pela sensação desconfortável de ardência na lombar, deve pesar, no mínimo, uns três quilos e meio. Clara é recém formada no curso de Letras da Universidade Católica e, além do trabalho em três escolas municipais, revisa e traduz textos em inglês. Sua vida, nos últimos tempos, tem sido levar papéis para todos os lados, o tempo todo.  Mas existe um porquê:  seu apartamento próprio de dois quartos na zona sul, de frente pro mar, estará quitado em dois anos, de acordo com os seus cálculos, graças ao seu esforço e à mesada gorda que o pai ausente deposita na sua conta poupança todo dia cinco.

Sentada no banco do meio, do lado do motorista, todos os dias repete o mesmo ritual. Apoia a pasta pesada no colo, abre a nécessaire bege, tira dela o pequeno espelho rosa em formato de coração e se olha nos olhos com complacência. Ajeita os fios loiros e finos na trança comprida meticulosamente repartida, passa pó compacto no rosto  branco com um pincel largo de cerdas curtas e espalha um batom quase imperceptível nos lábios rosados. Um suspiro. Dois. Guarda tudo na bolsa, puxa a meia calça na altura das coxas, ajeita a saia nos joelhos e a gola da blusa impecavelmente passada, esfrega a ponta dos dedos nas laterais dos sapatos lustrosos e abre um livro, que só é fechado na esquina de casa.

Nesse dia, no ponto seguinte, na altura da Voluntários, subiu  as escadas do ônibus, com  considerável dificuldade, uma senhora obesa de cabelos  curtos ensebados, trajando um jardim de maxiflores multicoloridas, do pescoço atarracado até o meio das canelas cabeludas. Depois de se arrastar lentamente pelo corredor estreito, desabou ao seu lado, ofegante. Lambendo os fios do bigode escuro lotado de gotículas de suor amarelado, perguntou, numa fala entrecortada e ríspida, se Clara poderia fazer o obséquio de ocupar menos espaço, para que ela pudesse caber também no banco. Solícita, Clara fechou o livro com o indicador marcando a página e, timidamente, se desculpou, tratando de espremer seu corpo franzino de miss entre a velha e a meia janela rachada imunda.

Sem agradecer, a mulher observou por alguns instantes a capa do livro em suas mãos de dedos finos e esmalte transparente e, com um olhar que fez a espinha da garota gelar e seu corpo tremer inteiro em um arrepio incontido, perguntou:

- Bukowski?
- É... - respondeu Clara, quase com medo.
- Gosta?
- Sim.
- Puta. - grunhiu a velha, entredentes.
- Como?
- Puta. Vagabunda, perdida, biscate, rameira.
- Desculpa? A senhora está me ofendendo? - perguntou, sem conseguir acreditar no que ouvia.
- Se lê Bukowski, e gosta, é puta. - cuspiu enraivecida a gorda, já se levantando para sentar duas cadeiras atrás.

Com as ofensas inesperadas rodopiando dentro da cabeça, Clara segurou o espelho de novo e se olhou demoradamente. Deixou que cada uma daquelas palavras preenchesse todo o espaço da boca e as repetiu para si mesma, uma a uma, observando, cautelosa, cada movimento labial no reflexo do coração rosado: Puta. Vagabunda. Perdida. Biscate. Rameira. E sorriu. Arrancou o elástico que prendia a ponta dos cabelos sedosos e soltou a trança perfeita com os dedos compridos. Limpou a boca insossa com as costas das mãos e tirou da nécessaire o batom vermelho, aquele que tinha comprado na revista da Avon mas nunca teve coragem de usar. Abriu os dois primeiros botões da camisa e encurtou a saia, dobrando o cós até que ela chegasse ao meio das coxas bem torneadas. Levantou do banco exalando um cheiro rascante de fêmea e, consciente do poder que carregava nos quadris, ao avistar a velha senhora piscou um dos olhos, a língua úmida desfilando abusada entre os lábios carmim, enquanto puxava a corda presa no teto. Em cima do salto, desceu e seguiu. Inteira puta. E magnanimamente feliz.

Sylvia Araujo

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Tratado das Pequenas Grandes Coisas

Sentados na borda do rio, bem em cima do arremate verdinho de grama molhada, Cecília e Antônio sorriam com as cócegas da água translúcida nos seus tornozelos-meninos. Há algumas rugas atrás, decidiram de comum acordo se fazerem rotina: um pra outro, outro pra um. Pra isso, assinaram no papel manchado do pão doce da Dona Norma que, despencassem canivetes ou balas de goma - ou seja lá o que caísse do céu - todos os dias se encontrariam depois da escola na terceira árvore, dois suspiros depois do barranco do Zé.

Nessa terça de céu azul, o Tratado das Pequenas Grandes Coisas precisou ser esticado na copa da árvore mais alta do campo e ficou por lá dois dias seguidos secando ao sol, porque Antônio não resistiu e lambeu até com as bochechas todo o creme que estava grudado na parte de baixo da folha, bem pertinho do rabo do "o" da palavra silêncio. Cecília achou graça da cara de sem graça de Antônio e riu pra valer, afinal, o item mais importante do combinado dos dois carregaria para sempre a marca da lambida do amigo - a ausência de palavras seria úmida e doce, até que deixassem de ser crianças e brotasse neles a necessidade de dizer coisas e mais coisas para serem entendidos - um dia sempre deixa de bastar o não-dizer.

Aproveitando o muito que é o quase nada dos poucos anos, Cecília e Antônio seguiram os dias com a falta de regras das suas novas regras debaixo do braço. Davam-se as mãos aos meios-dias e, sem trocarem uma única frase, seguiam sem pressa pra beira do rio, onde sol após chuva, chuva após sol, mergulhavam os pés descalços na água gelada e aproveitavam cada um seu próprio mundo, com todo aquele enorme e excitante mundo em comum.

Hoje - Antônio ao sul, Cecília a noroeste, os corações suspirosos da mesma curva - desembrulham as lembranças com todo o cuidado, em pontas de pés, pra não fazer nenhum pequenino barulho; pra não acordar o silêncio que plantaram no peito tão bem plantado e regaram, dos seis aos doze, com aquele precioso papel lambido de pão e pureza.

Sylvia Araujo

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Inferno em poás

Quem me dera um par de asas
coloridos apitos
confetes
línguas de sogra:
carnaval a gosto
num quase-setembro
- quem me dera um ombro
sem tempo.
Um frasco de ar puro
- novo pulmão:
quem me dera eu-outra
não essa dor multidão.

Tem dias, me quero poeira
- rastro pouco
muito vento
(longe).
Quem me dera, sim,
um não:
ecoante e redondo
feito um sonoro palavrão.

Sylvia Araujo

segunda-feira, 27 de junho de 2011

você
que tem medo e desejos
que sonha alto:

teu mundo lateja em mim.

Sylvia Araujo

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Tua, inteiratua

Preciso
mergulhar profundo
na melodia doce
dos teus olhos
vastos.
E lamber
esse teu cheiro
vivo
de janela aberta,
(im)perfeito amor.

 
Sylvia Araujo

terça-feira, 24 de maio de 2011

A vida é tanto, meu amor...

Você pega o papel amarelado e vazio. Olha ao redor do quarto pelado, perdida no enfrentamento, afogada no próprio umbigo. Por mais que seus olhos secos insistam em dizer que não, eu vejo o tremor da folha entre seus dedos escurecidos pela nicotina. A quarteirões inteiros de distância, eu sei que está histérica, anda neurótica, arrancando os cabelos, a ponto de panfletar banalidades no chá das cinco. Literário, né? Um momento único para trocar impressões sobre obras e sobras do que muito mal sente. Babaquice. Você mente, cínica. Descaradamente. Faz tipo fashion, claudica no salto, maquiagem aos gritos. Bate no peito, se diz bem resolvida, dona de si e do próprio nariz. Tem dó. E o que fazer com as palavras que dançam na sua frente quando a visão embaça? Você sabe, ou vai continuar em branco? Falsa. Pequena burguesa metida a besta, pseudointelectual de merda, é isso que você é. E ainda tem a desfaçatez, sorriso de canto, de dizer a deus e ao mundo que não me quer. No chá. E tomando café, só pra contrariar. Porque você é assim, anda contra a maré pra provar que sabe muito bem o que quer. Mas quando desmonta a armadura, cabelos molhados, cara limpa, pé no chão, é tudo vazio, não é, não? Eu abri as cortinas, te apontei o silêncio, você pôs pra tocar um lançamento irlandês. Eu dancei nu na sala, de braços abertos, você com o Jabuti do ano pesando entre as mãos. Fiz massa com o manjericão do canteiro, mas a sua dieta dura o mês inteiro - pra entrar naquele vestido apertado que pagou uma baba, sem nem te caber. Eu tentei fazer com que você enxergasse a imensidão do quase nada. Me esforcei pra que percebesse que o vazio é um vaso cheio. A vida é tanto, meu amor. Mas você - a tempo, ainda - é pouco demais pra mim.

Sylvia Araujo

segunda-feira, 16 de maio de 2011

É tudo (um) vão, esquece.

Arranca com as unhas que restam essa dor tamanha que te corrói a alma, vamos. Enterra esse maldito peito soluçante desesperado, rumina esse medo. Mastiga trinta vezes essa fome impiedosa de amor - cospe com força. Você não merece engolir tanto não, vambora, não chora. Prepara a fogueira com calma - uma a uma todas as cartas de amor - e taca fogo. Deixa arder o tempo. Aquece esse corpo possuído por calafrios. Vomita, grita. Grita com força até te faltar veneno. Expurga as palavras - não faz mesmo sentido guardar tanta letra, dentro ter tanta coisa - é tudo (um) vão, esquece. Sacode esse corpo, se enfia na chuva, se deixa escorrer, não foge. E sente. Sente o dia que nasce, sente o abraço do amigo. Tateia o vazio no peito e sorri o recomeço. É hora de voltar a encher: um sorriso branquinho, um vento de maio, um arcoíris no céu, um ronronar de gato. E um mesmo amor, novinho em folha, para acreditar.

Sylvia Araujo

sábado, 14 de maio de 2011

E.M.O.C.I.O.N.A.D.A



Música, voz e violão: Janaína Mesquita
Letra: Sylvia Araujo

Obrigada, Nanamore, por esse sopro de brisa no meu dia sem sol.
Te amo. E é pra sempre.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Vou deixar esse post com o link aqui, pra não apagar os comentários lindos.
Obrigada pelo carinho de sempre, queridões!

Uma beijoca


http://www.youtube.com/watch?v=ZbsvuHlx0Z8&feature=share




Dói.

(absurdamentemuito)



sexta-feira, 6 de maio de 2011

Expressamente, amor.

Ela gira a maçaneta e afunda o pé direito no carpete vermelho.
A mesma sandália de ontem, reparo.
A mesma bolsa, a mesma calça - o mesmo rasgo na coxa direita.
Não é a mesma, hoje. É outra.
Enfeitada de inteireza, vem sinuosa, lânguida.
Atravessa a porta, silenciosa, e mistura seu cheiro de fêmea ao gosto árido do meu cigarro ao meio.
Parece enevoada, suspensa, etérea.
Eu observo a maneira como mexe nos cabelos ondulados e umedece os lábios finos.
Seus dedos compridos de unhas malfeitas carregam, impressas nos movimentos, as formas de um corpo maior que o seu.
Seus braços de bailarina estão mais expansivos.
Os gestos, enérgicos, cheios de vida.
Ela transpira sexo selvagem.
Expõe tatuagens temporárias no pescoço, no rosto.
Seu respirar entrecortado soluça a eternidade de um sublime gozo.
Fecha os olhos e suspira, como se ainda estivesse estirada sob o úmido peso do amor.
Puxa a cadeira da mesa do canto e pede um expresso em xícara quente.
Na espera, seus olhos cinzentos se perdem nos abstratos tortos da parede branca.
Eu me perco nela.
Reparo no movimento sensual com que rasga a ponta do pacote de açúcar com os dentes e lambe os dedos melados.
Vejo seus lábios rosados entreabrirem e tocarem, suaves, a borda da xícara fervente.
Sinto na língua ávida a temperatura aveludada do seu café.
E o calor daquela boca imunda, tomada toda de outra boca qualquer.
Tenho em mim seu tremor intenso na cama larga.
No corpo febril, me apossam seus espasmos intermitentes.
Levanta de repente e toma o último gole, já morno, de pé.
Dobra um guardanapo ao meio e deixa que ele absorva a gota acobreada que se dependura no canto estreito da boca.
Eu vejo quando abandona a xícara, quando abraça a bolsa, quando se despede das lembranças sem olhar pra trás.
Eu vejo quando vira as costas e parte de um ontem cálido, pisando confiante em um amanhã só dela.
Ultrapassa a porta mais mulher e vai.
Eu fico.
E me levanto, e seguro com a ponta dos dedos o seu desprezo no papel manchado.
Enfio no bolso da calça os sentimentos amassados da noite felina que ela decidiu esquecer.
Levo comigo seus beijos, seu gozo, seu gosto.
Para que nunca me esqueça daquilo que nunca vivi.
Para que, ainda que nunca mais volte, ela jamais parta daqui - de dentro mim.

Sylvia Araujo

terça-feira, 12 de abril de 2011

Agora é tempo que não existe.

Serpenteia lentamente, descendo sinuosa pela janela embaçada por úmidos suspiros mornos, uma chuva esfarelada, tardia. Nos olhos dos que entontecem diante do milagre das gotas, a incredulidade. E um desejomedo enorme de se fazer tocar pelo cristal amolecido - com a ponta das pestanas - pra saber, enfim, a dor da chuva que pinga do céu; e não do peito. O cheiro dos diasmesmos, há anos enraizado ali, se fazia amarelopoeira encrostado em pardacentos narizes - trincas na terra batida, dedos sem unhas, doídas ausências do que nunca existiu. Mas hoje, o tempo da casa vazia sem teto fede a um bolor umedecido de lama e lamentos. Fede a vida que vive, entrecorta respiros e se arrasta, sedenta. Hoje, o tempo, o mesmo tempo de todos os tempos, abandona sua gasta previsível couraça e se veste de agora - esse agora que é tempo que não existe, que é quase tempo quase vivo; esse agora que é broto dentro, esperança ateia.

Nunca houve um amanhã. Nunca houve um logo mais, ao entardecer. Jamais se soube, naquela planície estanque, de um dia após outro dia, de uma fruta apodrecendo em seu ritmo, de um rio sussurrando nasceres, de um começo ou de um fim ou de agoras. O ontem é só referência pra morte, dali a lei diz, e ao que não vinga não cabe findar-se. A mesma luz abafada e perene rodopiou anos a fio em círculos concêntricos por um campo eternamente brotado de nada, dia após noite, noite após dia. Parecia existir apenas para dizer aos poucos que restaram que, ali, naquele início de fim de mundo, onde nada morre e nada vive, onde nada amanhece ou anoitece, não há finalidades e tudo é pra sempre, que não adianta sequer tentar morrer, pois não se pode terminar o que jamais se começou. Durante incontáveis gerações sem chuva, o dia foi um enlouquecido torturante repetir-se em si mesmo. Um não viver ainda que vivo, morto.

Aqueles olhos, escondidos atrás das janelas salpicadas de vida, observaram atônitos o nascimento das coisas e o ágil refastelar das heras nas paredes nuas. Segundo após segundo, terras se abriram e delas romperam, febris, frondosas árvores e brilhantes arbustos. Pequenos pássaros nasceram de asas abertas e, das fendas no chão rasgado, rumaram aos bandos ao encontro de borboletas e gaviões. Lambaris, lagartos, sapos e grilos, rios e mares, flores silvestres, grama nova, tudo borbulhando aos borbotões da terra enlameada. Os olhos, famintos em sua esterilidade inata, com a violenta força de algumas poucas lágrimas frouxas, choveram. Choveram por horas e horas para que, junto com a terra e seus recém-nascidos amanhãs, pudessem também fazer nascer e morrer o agora, dentro de si. Com um gosto adocicado e vermelho descendo suave garganta abaixo, abençoaram, sem um único piscar sequer, aquele primeiro e último alvorecer.


Sylvia Araujo

domingo, 3 de abril de 2011

Muda sinfonia




É longe, a noite.
Ainda que aqui
- em mim -
é braço inteiro de distância
mais dois sorrisos
murchos.

É dentro, o escuro
que engole a chama tremulante
e vara
os dois pontos brilhantes
- equidistantes -
do teu céu.

Fecha os olhos
e canta,
que amanhã
azulo.

Sylvia Araujo

sábado, 26 de março de 2011

Duro poema cru

Outoneço. Desverdeada, busco insana um porto onde espreguiçar o olhar - esse olhar que hoje me esparrama tristezas que até as palavras ir-reconhecem. De dentro, vem em golfos lava fervente que me escorre, abrupta. É súbita a destemperança que reveste de escureza esse tão cheio vazio que me carcome as tripas: é urgente o nada a dizer. Portanto, nada digo para que não se gaste o gesto - escoo em tortuoso e duro poema cru, o medo. Sozinho-me em desbotados instantes meus e anoiteço letra - ela há de empacotar com cuidado os miúdos haveres, há de dar fim ao que não se presta a ser sol.  No espelho trincado, aquela mesma conhecida imagem nuveada, cinza. Na ponta dos dedos, a desesperada poderosa transpiração dolorida dos enlouquecidos de amor. Ajeito, então, uma vaidade qualquer no corpo ainda rígido e sigo. Porque, do coração, já me escapuliram há tempos as rédeas das mãos.

Sylvia Araujo

quarta-feira, 23 de março de 2011

Maneco

Maneco é nomecarinho, apelido de Manuel dos Santos Anjos, dado por sua mãe de frágil raiz, ceifada poucas horas depois do sofrido parto. Doente do coração, desde nova dividia o peito com o vento morno que lhe soprava dentro e lhe fazia palpitar em arritimia a bomba falha. O quanto que de ar faltava era o mesmo tanto de amor que brotava, enquanto acarinhava embevecida a imensa barriga, morena e redonda feito lua inteira. Trazia Maneco no ventre e, com ele, seu eterno continuar em botão de flor. Maria sabia e ninava a certeza da poesia que crescia dentro de si, cantarolando baixinho seus intocáveis amanhãs.

Sozinho, filho de pai desaparecido e mãe enterrada, neto de avós distantes e sobrinho de não se sabe quem, cresceu aos trancos e barrancos no meio de incontáveis sementes ocas que não germinaram. Na terra árida e endurecida - não se faz ideia como - vingou. Inexplicavelmente, manteve-se firme e ereto sobre os estreitos caniços, que até hoje exibem distraídos mais marcas que sua própria pele azeitonada - lembrança irrefutável de Mariamorena. Cópia quase perfeita de sua mãe - exceto pela ausência de alguns poucos dentes - Maneco, em osso e pele, minuto a minuto resistiu. 

É março. Chove copiosamente em um Rio de Janeiro cinzento, e do asfalto esburacado brotam, a cada segundo, lagos amarronzados pontilhados das mais variadas imundícies metropolitanas. Entre guimbas baratas - carimbadas por carnudos lábioscarmim - e prisões plastificadas de espermatozoides malsucedidos, tem de tudo - uma variada gama dos dejetos humanos mais inúteis que se possa cogitar. Há quem pise em cheio nas fundas poças e maldiga dez gerações futuras mais seis passadas. Há quem simplesmente afunde e chore chuva. Maneco, aos vinte e poucos, em mangas de camisa e chinelos de dedo, sentindo as gotas beijarem seu corpo e cantarolarem no meio fio da vida, enternecidamente sorri.

Ele anda indiferente aos atropelos do centro da cidade apinhado de guarda-chuvas multicoloridos em pé de guerra. Eles se estapeiam, os mumificados ausentes donos dos para-águas. Ferem-se mutuamente com suas pontas afiadas cheias de ferrugem alaranjada, com seus cotovelos pontiagudos, com seus olhos vítreos - frios feito punhais. Maculam quem passa na medida exata com que arranham a si mesmos, todos os plúmbeos dias. Só ele vê. Com seus olhos de Midas - herdados de Mariamãe - só Maneco é capaz de ver a vidaviva que se pode viver, quando não se tem mais nada - coisa nenhuma a perder.
 
Sylvia Araujo

terça-feira, 15 de março de 2011

(Re)Para e Re-começa




Repara, amor, com cuidado, o som de veludo que ecoa das nuvens, quando escorregam as fofaspantufas no teto estrelado, escuta. Repara o halo azulado daquela com laço de fita e sente, ao longo da espinha, o calor que esparramam seus braços, enquanto rodopiam - imensos - de encontro ao dourado do sol. Repara, pequeno, o verdedoce gostoso dos dias, o poder da ínfima gota, a inteireza brilhante do extenuante caminho do broto, germina. Repara os dedos compridos da chuva que tamborila cantigas serenas, no embalo do teu justosono, acalenta. Repara, de olhos fechados, a imensidão do horizonte do mar - as negras ondas, a espuma farta, a luatoda em mergulho nu, submerge. Repara no roto, no feio, no sujo, no espelho - repara em si mesmo, alimenta. Repara o nada que vibra no fundo do peito, repara o vácuo, o liquefeito, revê.  Repara, meu filho, repara a vida que escapole da terra molhada e te acarinha - suave cetim. Percebe o sutil e inesgotável prazer que os rios têm em sempre recomeçar. E re-começa - todas as vastas manhãs.

Sylvia Araujo

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

- fenda, ferida funda -

Armada, armazena tocaias e arapucas. Foge. Esnobe, manda e desmanda. E sangra, e escorre, e grita - estapeia(-se?). Minimiza – máxima - e, tácita, entreolha ácida o que nunca foi. Assim, alheia, desmancha, deteriora -  em-pó-(p)rece. E chora – implora - se faz falta, evapora. Ela ama! Ah! É toda cama - ama como nunca na vida amou! Mas já é ontem quando o sol desiste. E ela sabe. E invalida, inválida. E insiste, arrasta o nunca, empurra, afasta. E se arranha inteira - metade arrancada. Não cabe! Ainda assim, buraco dentro – fenda, ferida funda - nunca cabe o que se ausenta. É um tanto de peito inteiro - é vácuo. É receio, névoa, neve derretida. Ela é partida. Sem linha de chegada, desejo: o suspenso etéreo desejo de um primeiro - e último! - beijo.
Sylvia Araujo

sábado, 8 de janeiro de 2011

Entredentes

Aquela boca - admirável talho carnudo engolidor de nuncas. Jamais me permiti o destempero de dizer nunca àquela boca, sendo. Ela é - inteira ela, e sempre, a boca - um corpo inteiro em arrepio etéreo, um quase-incêndio, fogo entredentes. Um mundo vivo e pulsante, a se dissolver lentamente no acentuado côncavo daquele céu - não há estrelas, mas mel.

Traz consigo, tatuada entre os talhos ressecados pelas jornadas de excessos - beijados por seus fartos pelos de aurora - a réstia de um beijo, eu sei. E o brilho pegajoso das máximas urgências que construíram ninho, ao longo dos anos, em sua delicada fenda rosada. Todos os dias ela amanhece em fresta, e se faz de ontens. Mas é inteira amanhãs, em mim.

Seu canto me enluara. Faz do meu sertão flor da pele, lua – inteira nua - por entre as nuvens fartas. E arrasta consigo - debruçado no contorno sutil dos lábios entreabertos - o resto das noites brancas em que me escorreu, entregue. Ainda que haja luz, abraça com a ponta da língua o sal dos escuros da chuva. Ela chove, a boca. É relâmpago, raio, trovão – alto-mar bravio, em zanga de furiosas águas. E sorrindo, - bonita sabedora de seus tantos encantos - ensolara, gargalha e geme, como quem esteve sempre vivendo ou sangrando.

A mando de dentro, brota. Em gotas. E – em inevitável destino-caminho – se encarrega, sozinha, de virar rio aqui.

Sylvia Araujo

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Um(idade)



Caudaloso rio
esse teu branco corpo 
de águas doces-claras.
Dentro de si
arrasta mar
aberto-vivo
por entre
as pedras lisas.
Turbulento e revolto,
é úmido
teu bem-querer -
poesia-nua
de albatroz
em caça.
E eu,
sardinha,
 brilhante e estapafúrdia 
sardinha,
pronta
pra ser devorada
por ti.

Sylvia Araujo



"Se algum dia nos fosse dado mergulhar nesse oceano de minúcias e nus, no fundo, nos víssemos de perto e se suas mãos ásperas apertassem minhas coxas e abrissem minhas pernas e se sua boca sugasse de mim o que tenho de fluido e se você derramasse em mim sua seiva e me engendrasse seus mistérios e me amordaçasse com algas para que eu não gritasse e se seus dentes roçassem os meus mamilos e os marcassem e meus lábios lhe mostrassem outros caminhos e revelassem na minha língua seus segredos. Se algum dia nos fosse dado, seria preciso gemer baixinho para não acordar os peixes."

Adriana Versiani