Foto do blog: Mario Lamoglia

terça-feira, 23 de março de 2010

Enganos


Rose sofre. Chega do trabalho esgotada e, magicamente, transforma vinte minutos em horas. Horas de limpar, cozinhar e se perfumar, até virar a mais linda das flores em tempos de seca. Quando Aderbal passa o cartão de ponto no centro da cidade, ela já está a caminho de casa - suando em bicas, até em dia de frio - porque ai dela se o ônibus lotado atrasar minutos, e a mesa não estiver posta sobre a mais alva das toalhas, herdada da sogra já ida. Ele chega invariavelmente irritado, e ela - de sorriso pronto - já lhe tira a camisa suada, ao mesmo tempo em que lhe enche uma das mãos com o destilado do dia. O boa noite, assim como o afago nos ombros, é sempre mão única. Ela oferece, ele grunhe. Só existem palavras não-ditas na sala, vindas do eco vazio da tevê preto e branco de antena quebrada. Um misto de frases de efeito e chiado agressivo, que Aderbal leva pro banho e arrasta descalço pra cama. Rose deita ao seu lado todos os dias sabendo que a ferida mal cicatrizada do ontem vai voltar a sangrar. Ele monta nela e lhe cospe impropérios, enquanto afunda os nós dos dedos no roxo claro das costelas, até ele escurecer e ficar quase bordô - pelo menos ali a camisa encobre os enganos. Em resposta ao dedo em riste do marido triste, Rose oferece sempre seu menor verso. E a si mesma, sua maior dor. A de nunca poder ser quem é. A de nunca conhecer o amor.

Sylvia Araujo

7 comentários:

Clarisse disse...

ai, gente... Coitada da Rose. OO

(mágoa. snif')

E esse Aderbal, heim? Que homem! Eu mandava ele ir tomar bem no... erm, parei por aqui.

Beeijo!

Sylvia Araujo disse...

É, né, flor?
Mesmo eu sendo uma profissional, às vezes vejo casos que mexem tanto comigo que se não poetizar e colocar pra fora, talvez voe no pescoço de um cara desses. Essa é uma história quase real. Apenas mudei os personagens e algumas vírgulas pra manter o sigilo. Dói em nós, não dói?

Uma beijoca pra você

Fred Matos disse...

Vim, não apenas para agradecer pela sua visita e comentário lá no nas horas e horas e meias, mas, sobretudo, para beber sabedoria.
Beijos

Hosana Lemos disse...

assim eu choro
=~~
caramba, me arrepiei!
o.o'

não sei o que dizer...
coitada dela, dela que é a realidade de tanta gente por aí!

parabéns, belíssimo.

Sylvia Araujo disse...

Fred, Fred... que sabedoria que nada. A gente pinta a vida. Sábia é ela!
Estou sempre por lá, viu?
Beijo


É, Hossana...
As vezes a gente não tem ideia do que existe, e de quantas pessoas sangram ao nosso redor. Realidade dura mesmo. E dolorida também.
Obrigada pelo carinho, viu?
Beijoca

Erica Ferro disse...

Tá na hora de Rose ir embora, procurar o amor em outros ares. Porque o amor existe.

Sil.. disse...

Realidade triste né!!

Abraços!!!