Foto do blog: Mario Lamoglia

segunda-feira, 3 de março de 2008

Às vezes


Às vezes acordar é estranho. O sol acinzenta, e o céu - de liso azul - se enche de nuvens, daquelas bem pretas e pesadas como chumbo. É o anúncio de tempestade no peito. Chove torrencialmente cá dentro, e tudo inunda, tudo imunda. Quando se entopem os bueiros, os olhos vazam. E não páram.

Às vezes dormir é estranho. O corpo tem urgência de calma - de alma - mas a mente acelera tal tromba d`água, testando os limites, ultrapassando as barreiras. As pernas se cansam de bandeiradas. Por vezes tremem, por vezes desabam. Quando não dão passo a frente, os olhos vazam. E não páram.

Às vezes seguir é estranho. É complexo caminhar com venda nos olhos, tateando o destino. O futuro se enche de atalhos e escolher paralisa - emudece. Quando o medo não cabe no peito, estrapola. Os olhos vazam. E não páram.

Às vezes chorar é estranho. Vazam amores, pudores, dores. Vazam ilusões e desilusões da mesma maneira em que escorrem alegrias e tristezas. Daqui do meio, tudo vira lágrima. Tudo se esvai em poça. E a vontade que dá é de, correndo, ir lá e sorver tudo de novo - pra não esvaziar, pra não embrutecer.

Sylvia Araujo

2 comentários:

Virginia Lucia disse...

As vezes viver é estranho...As vezes sentir é estranho. Mas quando percebemos que existem outras pessoas que pensam e sentem como nós, que não somos únicos em torno de uma maneira de pensar e viver, a paz se restabelece e sentimos o ânimo restaurado para continuar caminhando. Filha, te beijo em tua alma.

Sylvia Araujo disse...

Obrigada, mãe, por nunca me deixar só. Pela paz restabelecida e pela tranquilidade de ser sem receio.
Me sinto beijada e beijo.