Foto do blog: Mario Lamoglia

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Hoje é dia


Hoje é dia de beijar o sol que açoita inquieto a janela da alma - seus dedos quentes de raio me arranhando sutil a pele arredia. Um gosto de verão aflorando primaveras no céu estrelado da boca. Dentes de leão me brotando delicados pelo nariz; asas nos pés pra levitar além. Hoje é um dia bom pra lamber a música que escorre do chuveiro quente - e derramar junto. Mastigar demorado a melodia que suspira na água fervente da chaleira. Dançar com as notas sem compasso que tilintam no molhe de chaves - três pra lá, cinco pra cá, mais um bocado de variações inconstantes. Quem me espreita a sonhar assim imagina que deve haver algo de especial nessa segunda feira branca de maio. Se não muito, apenas um susto de especialidade. Mas não. Hoje é mesmo um dia como outro qualquer. E talvez por ele ser assim, igualzinho a todos os outros, é que se me criou essa necessidade incontrolável de me permitir ser invadida. Tocada, violada. De ter um dia inteiro rotineiro, digerindo bem dentro do estômago, pra que tudo o que nele habita me alimente as células famintas do corpo - e me faça vida ensolarada. Assim, ansio que o hoje me vista com o cheiro doce do plástico bolha que embala as horas - maneira poética de tê-las tiquetaqueando aqui dentro. Desejo mais: que me invada o gosto acre de toda a minha melancolia, pra que eu possa adocicá-lo com a maciez das frutas que nascem em terras onde eu nunca pisei. Espero ainda paciente que brotem em meus olhos, vigorosas, todas as flores multicores que chovem das árvores no outono. E que me seduzam os amores. Ah, os amores - todos eles, cada um deles em mim. Que o mar me tome inteira pelos ouvidos - colados em uma concha qualquer. E da lua, peço apenas que me entupa das suas fases, pra que eu aprenda a me entregar suave ao minguar, antes de crescer e brilhar, e brilhar mais ainda. Eu quero tanto, e tanto mais, porque descobri - olha só, que maravilha - que o hoje é o meu caminho. Me dei conta dia desses, olhando um casal de velhinhos de mãos dadas pela rua, que o laço de fita quem põe na vida sou eu. E é por esse pouco tão muito que decidi que agora onde eu vou, vou pra ser estrela. E levo na mala comigo cada minuto fantástico que borbulha. Além do miar de um gato, um kiwi maduro e um coração feliz. 

Sylvia Araujo





PS: Voltei! :)
Beijocas floridas.

17 comentários:

Ilaine disse...

Sylvia!

Que texto!!! As palavras jorram como uma cachoeira e eu fui levada por estas águas de pura poesia. A vida está ilustrada em cada pingo desse mar de prosa. E eu leio. Leio sem parar, quase sem fôlego, uma vez que é impossível fazer uma pausa, "pois hoje é dia de beijar o sol que açoita inquieto a janela da alma." Lindo demais!
Beijo

. disse...

Belíssima explosão sinestésica!!

Beijocas,
Ane

Patrícia Gonçalves disse...

Sylvia, muito obrigada! Ótimo começar o dia com um texto lindo assim.

Coloriu minha alma e meu dia.

bj

Paulo Rogério disse...

Sylvinha:
Que belo brinde à vida, que oração mais doce pelo dia que amanhece e todos os sons e cores que se anunciam! Quando assim interagimos com a natureza, o fardo das horas como que soa como canção de ninar...
Beijos!

Tâmara disse...

E digo: Um expetaculo de palavras e sentidos divinamente bem medidos!...

beijos meus!

claudete disse...

É isto aí Sylvia, no momento em descobrimos que a felicidade está nas pequenas coisas e nos pequenos gestos , um novo olhar, e abrem-se perspectivas mil de um dia melhor ...por vêz ...para que a sensação de plenitude seja sempre buscada. Amei seu texto, tenha um belo dia de segunda-feira. Olha se quiser dá uma espiadinha , hoje é o aniversário do meu primeiro Blog, adoraria sua visita.
http://clodet.blog.uol.com.br

Valéria Gomes disse...

Como todos os outros, teu post está maravilhoso!
Tuas palavras são uma explosão de emoções e amor pela vida.

Um beijo no coração!!!

Jorge Pimenta disse...

Todos os dias são dias de... basta deixar os olhar pousar nas mãos das trivialidades como código supra-linguístico que dá sentido à vida e que aquece o coração dos homens.
Sê bem regressada, Sylvia!
Beijinho!

Leni disse...

Lindo texto. Nada melhor como terminar o dia com um texto como o seu! escreves demasiadamente bem.
beijos

Daniel disse...

Isso que li é poesia pura, límpida, da mais alta qualidade. Fico absmado com o seu poder de escrita. Tem mais uma história de Euclides no Sub Mundos. Bjus.

http://submundosemmim.blogspot.com

zuleid disse...

"estou de volta pro meu aconchego, trazendo na mala bastante saudade...!"
Que bom que você voltou! Fez da nossa segunda um dia especialíssimo!
Beijos!!

DA JANELA, disse...

Tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Vejo que a sua não é, o simples vira mágico, raro e poético. Nada de rotular os dias, os meses, os anos. Vamos encarar o novo, como dávida, luz, para novos caminhos.

Grande abraço!
Thales Willian

Ricardo Rayol disse...

Isso que eu chamo de uma mensagem otimista e pra cima, uma pena que tenhamos de voltar desses devaneios.

Marcelo Novaes disse...

Sylvia,




Esta mala está bem feita. E não foi feita "no susto"...



;)






Beijo.

Em@ disse...

bem-regressada, Syl.em todos os sentidos.gostei do recheio da mala.
beijo

Líria disse...

Lindo texto, realmente faz a gente querer aproveitar tudo da vida, cada gota desse suco vital... E que venham as incertezas, que venham as desilusões para que possamos aprender e tornar isso uma parte até mais doce da gente. Lindo o texto, sua sinestesia inspira uma coragem absurda.

Beijocas

Líria

Lorenzo Tozzi-Evola disse...

Esse ritmo... Kerouac? Vinicius de Moraes?

Li e quando terminei disse "ué! parecia mais longo...". Vai ver foi tal ritmo, foi a escolha de palavras, ainda que não minuciosa, vinda direto da cabeça para o monitor, li rápido, tal fosse curto, ainda que não fosse. Gostei, por assim dizer escondendo um tanto de inveja.